O outro lado da Praxe

“(…) A praxe deve ser Integradora e susceptível de despertar amizades”

Ser universitário é muito mais do que apegar-se aos livros, corromper-se por entre noites de estudo e passar as cadeiras, na tentativa exclusiva de obter uma média consistente. Provavelmente algumas mentes retrógradas deixarão de ler este artigo, exactamente no último ponto. Mas eu continuo. Ser universitário é deixar-se levar pelo espírito académico, deixar para trás algumas leituras em prol de um ou outro momento de divertimento, fazer uma ginástica enorme para poder ir a mil sítios diferentes no mesmo dia, (quem sabe na mesma hora!). Por vezes, é faltar às aulas ou então lutar contra o sono que nelas aparece, é desesperar com os montes de trabalho ou então deixar a caravana passar! É ter saudades dos tempos do secundário, das viagens de finalistas e pensar que a inteligência ficou nas cadeiras da escola antiga. Ser universitário é praxar e ser praxado, divertir-se, dividir-se entre aulas e festas e amigos e folhas soltas da história de uma vida. No fim, é acabar por passar as cadeiras de uma forma ou de outra, cair nas graças (ou desgraças) dos professores, conhecer cada recanto da universidade, trocar as voltas dos padrões de vida e ser feliz, sem ter consciência da autenticidade dessa felicidade.

Para o verdadeiro aluno, tudo começa nos primeiros dias de praxe. Deambulam por entre os caminhos novos da academia, receando o seu mais recente mundo, talvez a nossa estranha forma de vida. Por entre trajados, o sabor do espírito académico chega-lhes vagamente. E nós, aqui no outro lado da praxe, pressentimos novos dias de divertimento e alegria, de farra e peripécias. Relembramos a nossa chegada, adivinhamos a nossa saída. Por entre as margens, fazemos da praxe (da deles e da nossa), momento único das memórias de estudante.

Paradigmas antigos, ideias erradas e preconcebidas podem, ainda, manchar o bom e actual nome da praxe. Em tempos idos, esteve envolta em polémicas por essas academias fora, mas hoje temos a certeza que só uma ideia de positividade pode assentar sobre esta tradição. Não é nosso objectivo humilhar ninguém, muito menos assustar ou afastar da vida académica.

A praxe é, segundo o Código de Praxe da Universidade da Madeira, “o motor de integração (…) ” e “ (…) nunca poderá ser uma fonte de libertação de frustrações para com o reles caloiro.” Enquanto praxistas, seja qual for o nível hierárquico temos o dever de “(…) salvaguardar a fraca integridade física, psicológica, moral e monetária dos bichos e caloiros”, sempre cientes que “(…) a praxe deve ser integradora e susceptível de despertar amizades”.

Ao praxar assumimos um compromisso com cada bicho e com a própria academia. Mais do simplesmente envergar o traje, devemos honrá-lo e com ele elevar todas as actividades de integração que constituem a “ad aeternum, omnipotente e omnipresente” praxe. Também nós, deste lado, temos as nossas regras, os nossos direitos e deveres, as nossas proibições e condições. Temos a tarefa árdua de os receber de braços abertos, com o maior dinamismo possível, incutindo em cada bicho, valores que lhe serão úteis ao longo da vida académica e, acima de tudo, ao longo do seu futuro após a passagem pela universidade. Damos “missões”, organizamos jogos, tentamos desenvolver as suas capacidades de improviso, a sua responsabilidade, criatividade, compreensão e até paciência. Equiparamos momentos de praxe com momentos da vida, e mesmo quando tal pareça impossível, há sempre uma lição que tiramos para um outro instante. Pensámos em situações que lhes fiquem impregnadas nas melhores recordações, nos seus nomes de praxe, nas cerimónias mais célebres do ano académico. Reunimo-nos, rimos, engendramos planos para que a praxe não seja só mais um capítulo, mas que se transforme no capítulo.Daqui esperamos, igualmente, que os bichos nos correspondam. Que cumpram com os seus deveres e que aproveitem “a sorte de se soltar do Ensino Secundário” e poder seguir em frente. Que olhem para estes anos, como os melhores das suas vidas. Acreditem que a praxe é o melhor início possível desta célebre etapa e que se tomarem a decisão de ser anti-praxe, mais do que serem “(…) almas perdidas do ensino superior, que não aceitam a praxe como um bem divino e essencial (…)” serão almas perdidas na história das universidades, que não souberam olhar a praxe com as características que ela ostenta, que não puderam usar o traje académico com o orgulho e sentimento de igualdade no seio da universidade. Não basta ter um canudo, é preciso ter um sem número de competências que se começam a adquirir cedo: nas praxes, nas actividades extra aulas, na procura, por incentivo próprio, de mais caminhos a percorrer.

Dizem que o traje é uma forma de vida. Eu acredito que sim. Acredito que cada praxista, ao vestir o seu traje, veste com ele a sua própria vida, a vontade de bem integrar, de gritar alto o nome do seu curso, de transmitir o orgulho pelos seus estudos e pela sua universidade aos bichos que, num instante, serão caloiros e, depois, marroncos. E que, não tarda, estarão, deste outro lado da praxe, do mesmo lado da vida, usufruindo da oportunidade tão imaculada de poder atingir este nível: o de amar, sentir e viver o espírito académico.

Vera Duarte
Estudante de Psicologia da Universidade da Madeira

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