Eduque-se para mais tarde não ouvir ‘Estudasse’

Visando tanto a formação para a cidadania como a mão-de-obra altamente qualificada capaz de torná-la economicamente competitiva no plano internacional, a União Europeia perspectiva a Educação como formação de recursos humanos. De acordo com o compromisso assumido pelo Conselho Europeu em 2000, habitualmente conhecido como ‘Estratégia de Lisboa’, a UE estabeleceu como objectivo para 2010 a constituição de uma Sociedade Europeia do Conhecimento, através da qual será capaz de fazer frente às restantes economias avançadas (como Austrália, Estados Unidos e Japão) e em ascensão (como Brasil, China e Índia).

De forma concreta a Estratégia de Lisboa estabeleceu metas de redução do abandono escolar no Ensino Básico, de aumento da escolaridade média da população para o Ensino Secundário, de combate à iliteracia e de aumento da porção da população adulta que aposta na aprendizagem ao longo da vida. Aperceberam-se os líderes europeus de que o desenvolvimento económico está directamente associado ao desenvolvimento científico e tecnológico, o qual também se reflecte socialmente, e nessa óptica, decidiram apostar no ensino das Ciências e das Tecnologias.

Em Portugal, por exemplo, várias foram as políticas educativas que advieram da Estratégia de Lisboa: a reforma dos currículos nacionais, o Magalhães, o Ciência Viva, a oferta de formação profissional em estabelecimentos de ensino público, as Novas Oportunidades, entre outros. A importância destas políticas é tão grande que a Ciência e a Tecnologia passaram mesmo a integrar a designação oficial dos Ministérios que as tutelam, assumindo papéis determinantes das estratégias de governo de sucessivas legislaturas.

Usando a comédia shakespeariana, pergunta o comum cidadão não será ‘tanto barulho por nada’? A verdade é que estas sucessivas reformas no ensino modelaram e modelarão a forma de pensar e de agir dos portugueses, além de implicarem um enorme investimento do Estado que pesa nos bolsos dos contribuintes.

A resposta não é simples, como é óbvio, até porque muitas destas estratégias políticas foram mal aceites por diferentes sectores da sociedade (começando pelos próprios professores), e tiveram certa publicidade negativa resultante da pouca transparência dos gastos estatais. Além disso, a visão economicista da educação da parte de quem governa, leva a uma perspectiva economicista da sociedade e, tal como se vê actualmente, isso provoca mudanças que afectam muita gente em nome de um bem comum que parece não chegar.

A medalha tem, no entanto, um reverso positivo que precisa de ser devidamente valorizado. Uma sociedade culta e educada é uma sociedade que tem menor probabilidade de comer gato por lebre, que sabe pesar prós e contras e tomar decisões responsáveis sem se deixar influenciar por quem fala mais alto. É uma sociedade com espírito crítico em que a elite intelectual dá lugar a uma massa intelectual, com todas as suas vantagens e desvantagens. É uma sociedade mais democrática, pelo menos do ponto de vista ideológico.

A aposta no ensino das ciências permite formar cidadãos mais esclarecidos, que sabem exactamente porque razão devem votar a favor ou contra algo, sem que sejam guiados por campanhas mais voltadas para o estômago do que para o cérebro, por exemplo. São cidadãos que em caso de doença, tanto sabem os limites das mezinhas (sem que hajam artes ocultas à mistura), como usar de forma responsável os fármacos disponíveis no mercado. São cidadãos que respeitam as regras de trânsito e de conduta social, que educam os filhos sem os espacarem, que tomam o seu futuro pelas rédeas em vez de esperarem a concretização de desejos ou premonições.

A aposta do ensino das ciências permite ainda formar novos investigadores. Portugal será pátria para mais Amatos Lusitanos, Egas Monizes, Antónios Damásios ou Joões Maguejos e, em vez de os exportar, sabê-los-á manter e investir nas suas descobertas ou invenções, desenvolvendo-se e deixando de estar tão dependente do estrangeiro. Terá um desenvolvimento suficiente até para gerar novos Camões, Pessoas e Saramagos, novas Amálias, novas Paulas Rêgos, melhores governantes. Até mais Futres, Figos e Ronaldos.

Jean-Baptiste Colbert sobre o seu modelo mercantilista de governo do Estado, afirmou que ‘O dinheiro é o sangue das monarquias’. Aplica–se inteiramente à actualidade pois o dinheiro é o verdadeiro sangue do organismo de um Estado e a melhor forma de o gerar é através do desenvolvimento científico e tecnológico. É esse mesmo desenvolvimento que permitirá uma maior igualdade dos cidadãos.

Carlos Diogo Pereira
Estudante de Ensino da Biologia e de Geologia do EB3/ES

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