Gaudeamus: regozijemo-nos enquanto somos jovens
Gaudeamus Igitur também conhecido como De Brevitate Vitae é um hino universitário baseado na obra do filósofo Séneca intitulada “Sobre a brevidade da vida”. Esta expressão de origem latina dará nome à loja Académica da AAUMa que funcionará, a partir deste mês, no piso 0 da Universidade da Madeira. Entender o estudante como um indivíduo que leva uma vida boémia e despreocupada é uma prática comum. O facto de este aproveitar a vida como se não existisse amanhã é habitualmente criticado pela sociedade. Contudo, desde a Antiguidade, esta forma de vida, livre, descontraída e de pleno carpe diem é uma prática defendida pelos pensadores. Aprender a viver bem é diferente de viver muito. Séneca defendia que o homem deveria aprender a viver por toda a vida e, por mais surpreendente que fosse, a vida seria sempre apenas um aprender a morrer. Com base nestes pressupostos, no séc. XVIII (se bem que existe um manuscrito em latim religiosamente guardado na Biblioteca de Paris datado do séc. XII), surgiu o poema que ainda hoje constitui o hino oficial e semioficial de escolas, universidades, instituições e associações estudantis de que é exemplo a Associação Europeia do Desporto Universitário. Apelando ao viver bem porque a vida é breve, o poema invoca a morte e a sua inevitabilidade e sugere que se aproveite, em todos os aspectos, o que de melhor temos ao nosso alcance. Durante muitos anos, em Portugal, este hino académico era entoado em momentos solenes universitários nomeadamente em cerimónias de celebração de término de Licenciaturas, de Mestrados e, ainda, de Doutoramentos. Actualmente este protocolo encontra-se ultrapassado bem como a visão de que o estudante universitário tem um papel importante no desenvolvimento local e nacional, na promoção dos ideais de justiça e de prosperidade, na promoção cultural e científica, no desenvolvimento económico e na participação cívica activa. Não obstante a mudança de mentalidades, natural, esperada e, até certo ponto condenável, deixamos aqui o registo deste grandioso hino. No sentido de dar-lhe uma nova vida e contribuir para a sua imortalidade, nada mais apropriado do que Gaudeamus para denominar o novo espaço comercial da AAUMa, que pretende criar um espaço de identificação colectiva, valorizando a marca Universidade da Madeira. Gaudeamus igitur Juvenes dum sumus. Post jucundam juventutem Post molestam senectutem Nos habebit humus. Ubi sunt qui ante nos In mundo fuere? Vadite ad superos Transite in inferos Hos si vis videre Vita nostra brevis est Brevi finietur. Venit mors velociter Rapit nos atrociter Nemini parcetur Vivat academia! Vivant professores! Vivat membrum quodlibet Vivant membra quaelibet Semper sint in flore. Vivant omnes virgines Faciles, formosae. Vivant et mulieres Tenerae amabiles Bonae laboriosae. Vivat et respublica et qui illam regit. Vivat nostra civitas, Maecenatum caritas Quae nos hic protegit. Pereat tristitia, Pereant osores. Pereat diabolus, Quivis antiburschius Atque irrisores. ––––––––––––––––––––––––––––––– Alegremo-nos, portanto, Enquanto somos jovens. Depois de uma vida prazenteira, Após uma velhice doente, A terra nos acolherá. Onde estão os que, antes de nós, No mundo estiveram? Procurem no Céu, Mergulhem no Inferno, Se os quiserem ver. Nossa vida é breve, Logo findará. A morte vem rápida, Arrebata-nos atrozmente Sem ninguém poupar. Viva a academia! Vivam os professores! Viva cada estudante! Vivam todos os estudantes! Estejam sempre no ápice! Vivam todas as virgens, Fáceis e formosas! E vivam também as matronas, Ternas e amáveis, Boas, laboriosas. Viva a nação E quem a governa! Viva nossa cidade E a caridade dos nossos patronos Que aqui nos protegem! Morra a tristeza! Morram os odientos! Morra o demónio, Os que são contra os estudantes E os que zombam de nós! Andreia Nascimento Directora de Comunicação da AAUMa
Eduque-se para mais tarde não ouvir ‘Estudasse’
Visando tanto a formação para a cidadania como a mão-de-obra altamente qualificada capaz de torná-la economicamente competitiva no plano internacional, a União Europeia perspectiva a Educação como formação de recursos humanos. De acordo com o compromisso assumido pelo Conselho Europeu em 2000, habitualmente conhecido como ‘Estratégia de Lisboa’, a UE estabeleceu como objectivo para 2010 a constituição de uma Sociedade Europeia do Conhecimento, através da qual será capaz de fazer frente às restantes economias avançadas (como Austrália, Estados Unidos e Japão) e em ascensão (como Brasil, China e Índia). De forma concreta a Estratégia de Lisboa estabeleceu metas de redução do abandono escolar no Ensino Básico, de aumento da escolaridade média da população para o Ensino Secundário, de combate à iliteracia e de aumento da porção da população adulta que aposta na aprendizagem ao longo da vida. Aperceberam-se os líderes europeus de que o desenvolvimento económico está directamente associado ao desenvolvimento científico e tecnológico, o qual também se reflecte socialmente, e nessa óptica, decidiram apostar no ensino das Ciências e das Tecnologias. Em Portugal, por exemplo, várias foram as políticas educativas que advieram da Estratégia de Lisboa: a reforma dos currículos nacionais, o Magalhães, o Ciência Viva, a oferta de formação profissional em estabelecimentos de ensino público, as Novas Oportunidades, entre outros. A importância destas políticas é tão grande que a Ciência e a Tecnologia passaram mesmo a integrar a designação oficial dos Ministérios que as tutelam, assumindo papéis determinantes das estratégias de governo de sucessivas legislaturas. Usando a comédia shakespeariana, pergunta o comum cidadão não será ‘tanto barulho por nada’? A verdade é que estas sucessivas reformas no ensino modelaram e modelarão a forma de pensar e de agir dos portugueses, além de implicarem um enorme investimento do Estado que pesa nos bolsos dos contribuintes. A resposta não é simples, como é óbvio, até porque muitas destas estratégias políticas foram mal aceites por diferentes sectores da sociedade (começando pelos próprios professores), e tiveram certa publicidade negativa resultante da pouca transparência dos gastos estatais. Além disso, a visão economicista da educação da parte de quem governa, leva a uma perspectiva economicista da sociedade e, tal como se vê actualmente, isso provoca mudanças que afectam muita gente em nome de um bem comum que parece não chegar. A medalha tem, no entanto, um reverso positivo que precisa de ser devidamente valorizado. Uma sociedade culta e educada é uma sociedade que tem menor probabilidade de comer gato por lebre, que sabe pesar prós e contras e tomar decisões responsáveis sem se deixar influenciar por quem fala mais alto. É uma sociedade com espírito crítico em que a elite intelectual dá lugar a uma massa intelectual, com todas as suas vantagens e desvantagens. É uma sociedade mais democrática, pelo menos do ponto de vista ideológico. A aposta no ensino das ciências permite formar cidadãos mais esclarecidos, que sabem exactamente porque razão devem votar a favor ou contra algo, sem que sejam guiados por campanhas mais voltadas para o estômago do que para o cérebro, por exemplo. São cidadãos que em caso de doença, tanto sabem os limites das mezinhas (sem que hajam artes ocultas à mistura), como usar de forma responsável os fármacos disponíveis no mercado. São cidadãos que respeitam as regras de trânsito e de conduta social, que educam os filhos sem os espacarem, que tomam o seu futuro pelas rédeas em vez de esperarem a concretização de desejos ou premonições. A aposta do ensino das ciências permite ainda formar novos investigadores. Portugal será pátria para mais Amatos Lusitanos, Egas Monizes, Antónios Damásios ou Joões Maguejos e, em vez de os exportar, sabê-los-á manter e investir nas suas descobertas ou invenções, desenvolvendo-se e deixando de estar tão dependente do estrangeiro. Terá um desenvolvimento suficiente até para gerar novos Camões, Pessoas e Saramagos, novas Amálias, novas Paulas Rêgos, melhores governantes. Até mais Futres, Figos e Ronaldos. Jean-Baptiste Colbert sobre o seu modelo mercantilista de governo do Estado, afirmou que ‘O dinheiro é o sangue das monarquias’. Aplica–se inteiramente à actualidade pois o dinheiro é o verdadeiro sangue do organismo de um Estado e a melhor forma de o gerar é através do desenvolvimento científico e tecnológico. É esse mesmo desenvolvimento que permitirá uma maior igualdade dos cidadãos. Carlos Diogo Pereira Estudante de Ensino da Biologia e de Geologia do EB3/ES
Estórias do Arco da Velha
DESPEDIDA – Pensei que fosses para sempre minha. – Pensaste mal. – E é assim? Acabas como se fosse uma coisinha qualquer? – Há outras maneiras de acabar? – Há. Claro que há. – Como? O silêncio pesou entre os dois. Ela alisou o cabelo com as mãos e ele afagou o pescoço. Uma dor de cabeça remoía ambos. A noite acabara de cair e o parque encontrava-se deserto. – Já não gostas de mim? – Gosto. – E então? Não precisamos acabar só porque vais para outro lugar. Podemos tentar… – Nem tu nem eu gostamos de relações à distância. – Eu sei. Mas… nunca passei por isso. E agora que estou nessa situação, sinto que seria capaz de enfrentar anos de ausência se tivesse a certeza de que ficaríamos juntos. – Sabes bem que não é assim… Ela levantou-se do banco e encostou o corpo triste à pequena grade de ferros que separava o caminho do lago. Sentiu a respiração desconsolada dele e fechou os olhos. Desejava que nada daquilo pudesse acontecer. Mas aconteceu e a escolha estava feita. Uma lágrima abandonou o olho e deixou-se escorregar pela sua bochecha. Virou-se em direcção a ele e encarou-o. Também chorava, com as mãos a cobrirem o rosto e a garganta a engolir nós de amargura. Sentiu uma dor trucidante por vê-lo assim. Era capaz de encarar a sua própria infelicidade mas não suportava ver a pessoa que mais amava sofrer daquele jeito. Aproximou-se dele e ofereceu o seu abraço. Ele cedeu. Choraram juntos, ele no peito dela, ela no ombro dele. Não se olharam. Limitaram-se a amparar a queda do outro e a desabafar num choro calado, que só eles conheciam. O tempo passou, a lua colocou-se por cima das suas cabeças e brilhou. Eles secaram as lágrimas e enfrentaram-se. Os olhos dela reflectiam uma limpidez nua. E ele encontrava-se mais bonito que nunca. Sorriram sem, no entanto, esconder a dor da separação. – A minha mãe sempre disse que o que é nosso, a nós irá bater. – Espero que a tua mãe esteja certa. Passou a mão grande pelo rosto pequeno dela e sorriram novamente. Ela entreabriu os lábios e pediu, com as pestanas compridas e sedutoras que batiam como asas de uma bonita borboleta, um beijo. O último beijo. Ele não pensou duas vezes. Encostou o corpo ao dela, puxou-a pela mão e sentou-a no seu colo. Beijaram-se eternamente, absorvendo sabores e cheiros, guardando sensações e sentimentos, procurando o último tesouro escondido. Amaram-se sabendo que no instante a seguir chegaria a guerra. Aos prazeres juntaram-se as lágrimas. Aos suspiros juntaram-se as súplicas. Ao correr do vento juntou-se o bater dos corações. Deram as mãos e olharam no fundo da alma. Um olhar que lambeu feridas e remendou cicatrizes mas que não curou. – Sê feliz. – Tu também. – Tenho aqui duas moedas. Queres atirá-las comigo ao lago e pedir um desejo? – Pode ser. Ele colocou a moeda na mão dela e apertou a sua. Jogaram-nas juntos e lançaram os seus desejos ao ar. Não pediram para ficarem juntos. Pediram, somente, que o que fosse deles, a eles fosse bater. Valentina Silva Ferreira Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra
Torna-te um activista!
Quando a Amnistia Internacional completa 50 anos de existência, fazemos-te o mesmo apelo feito pelo fundador do movimento, em 1961: vem defender os Direitos Humanos de activistas que, em várias partes do mundo, ousaram fazer a diferença. Corria o ano de 1960 quando dois jovens estudantes portugueses foram presos – imagine-se – por ousarem brindar à liberdade. Um crime segundo o regime de Salazar. Hoje, felizmente, podemos gozar das liberdades de expressão e opinião, mas o mesmo não acontece em vários países do mundo. Que o diga o estudante de História Jabbar Savalan, de 20 anos, do Azerbaijão. Foi preso em Fevereiro deste ano e cumpre pena de prisão de dois anos e meio por ter escrito um artigo onde chamava corrupto ao Presidente do país, Ilham Aliyev. O documento foi publicado no Facebook de Jabbar e num jornal. Que o diga também Filep Karma, que aos 52 anos está a cumprir uma pena de 15 anos de prisão por, numa cerimónia, hastear a bandeira da independência da província indonésia de Papua, onde vive. Tudo aconteceu em 2004, quando foi acusado de “rebelião”. Dois casos, entre muitos outros que podíamos referir, que estão neste momento a ser seguidos pelos investigadores da Amnistia Internacional. Voltando ao ano de 1960, refira-se que a história que contámos inspirou o fundador da Amnistia Internacional, Peter Benenson, que na altura era já advogado. Viajava de metro quando leu a notícia sobre a prisão dos dois jovens portugueses, no jornal britânico Daily Telegraph. Indignou-se e decidiu que era altura de deixar de cruzar os braços perante as injustiças com que se deparava. Menos de um ano depois, a 28 de Maio de 1961, o jovem Peter lançava um “Apelo para uma Amnistia” no jornal The Observer. Nele pedia a todos os leitores para, durante um ano, escreverem cartas pedindo às autoridades a libertação de seis prisioneiros políticos: Constatin Noica, detido na Roménia; Ashton Jones, nos Estados Unidos da América; Agostinho Neto, angolano (na altura Angola era ainda uma colónia portuguesa); Beran de Praga, mantido preso pelos checos; Toni Ambatielos, da Grécia; e Mindszenty, refugiado político na Hungria. Um movimento global que esteve na origem da Amnistia Internacional. Tudo isto aconteceu há 50 anos e hoje continua no cerne do trabalho da organização o envio de apelos em nome de pessoas cujos Direitos Humanos foram, ou são, violados. Uma acção que é feita durante todo o ano pelos nossos milhares de membros, apoiantes e activistas, de todo o mundo. Um trabalho que culmina, todos os anos, naquilo a que se chama a Maratona de Cartas, que se realiza em torno do dia 10 de Dezembro, Dia Internacional dos Direitos Humanos, e que este ano decorre entre 3 e 17 de Dezembro. O objectivo é, durante estes dias, serem enviados, massivamente, de todo o mundo, apelos em nome de diversas pessoas. No ano passado foram enviados mais de 636 mil apelos, de 51 países. Este ano queremos chegar ainda mais longe e, para isso, precisamos de ti. Organiza na tua Faculdade, no teu emprego, ou mesmo em tua casa uma Maratona de Cartas. É muito simples e para as vítimas de violações aos Direitos Humanos faz toda a diferença. Sabe o que podes fazer escrevendo para boletim@amnistia-internacional.pt. Contamos contigo! Cátia Silva Coordenadora Editorial Amnistia Internacional Portugal
A velhice não é doença
A idade traz desgaste aos órgãos, articulações e cérebro dos amigos de 4 patas, ficando mais susceptíveis de adoecer. Nessa fase da vida dos animais de estimação, as revacinações são feitas uma vez por ano, o que começa por ser demasiado tempo sem uma visita ao veterinário. As situações de falha orgânica ou tumores podem apenas ser diagnosticadas tarde demais, quando a janela de oportunidade já se fechou. Nos cães, os problemas cardíacos e os tumores (alguns ocultos até mais tarde) são as principais situações relacionadas com a idade. Nos gatos idosos, a falha renal é perita em camuflagem. Nos gordos, a diabetes é um problema que também pode ser diagnosticado só na fase de descompensação completa. Volvidos os 8 anos, a consulta de rotina anual para a vacinação deixa de ser suficiente. Identificar um potencial problema e orientar o tratamento exige, no mínimo, 3 visitas de rotina por ano. Isso permite-nos acompanhar o peso e os hábitos alimentares, a higiene, auscultar o tórax e palpar possíveis massas e anomalias. Se necessário, investigar com exames complementares (análises ao sangue, ecografia, RX, TAC, etc..), enquanto ainda é possível intervir medica ou cirurgicamente, tentando curar o animal e mantê-lo na companhia do seu dono mais tempo e com mais qualidade de vida. A velhice não é uma doença mas estas evoluem mais rapidamente em idades mais avançadas. Enquanto guardiões do nossos animais de companhia, é nossa missão procurar combatê-las da melhor forma e no tempo correcto. Sociedade Protectora dos Animais Domésticos
O outro lado da Praxe
“(…) A praxe deve ser Integradora e susceptível de despertar amizades” Ser universitário é muito mais do que apegar-se aos livros, corromper-se por entre noites de estudo e passar as cadeiras, na tentativa exclusiva de obter uma média consistente. Provavelmente algumas mentes retrógradas deixarão de ler este artigo, exactamente no último ponto. Mas eu continuo. Ser universitário é deixar-se levar pelo espírito académico, deixar para trás algumas leituras em prol de um ou outro momento de divertimento, fazer uma ginástica enorme para poder ir a mil sítios diferentes no mesmo dia, (quem sabe na mesma hora!). Por vezes, é faltar às aulas ou então lutar contra o sono que nelas aparece, é desesperar com os montes de trabalho ou então deixar a caravana passar! É ter saudades dos tempos do secundário, das viagens de finalistas e pensar que a inteligência ficou nas cadeiras da escola antiga. Ser universitário é praxar e ser praxado, divertir-se, dividir-se entre aulas e festas e amigos e folhas soltas da história de uma vida. No fim, é acabar por passar as cadeiras de uma forma ou de outra, cair nas graças (ou desgraças) dos professores, conhecer cada recanto da universidade, trocar as voltas dos padrões de vida e ser feliz, sem ter consciência da autenticidade dessa felicidade. Para o verdadeiro aluno, tudo começa nos primeiros dias de praxe. Deambulam por entre os caminhos novos da academia, receando o seu mais recente mundo, talvez a nossa estranha forma de vida. Por entre trajados, o sabor do espírito académico chega-lhes vagamente. E nós, aqui no outro lado da praxe, pressentimos novos dias de divertimento e alegria, de farra e peripécias. Relembramos a nossa chegada, adivinhamos a nossa saída. Por entre as margens, fazemos da praxe (da deles e da nossa), momento único das memórias de estudante. Paradigmas antigos, ideias erradas e preconcebidas podem, ainda, manchar o bom e actual nome da praxe. Em tempos idos, esteve envolta em polémicas por essas academias fora, mas hoje temos a certeza que só uma ideia de positividade pode assentar sobre esta tradição. Não é nosso objectivo humilhar ninguém, muito menos assustar ou afastar da vida académica. A praxe é, segundo o Código de Praxe da Universidade da Madeira, “o motor de integração (…) ” e “ (…) nunca poderá ser uma fonte de libertação de frustrações para com o reles caloiro.” Enquanto praxistas, seja qual for o nível hierárquico temos o dever de “(…) salvaguardar a fraca integridade física, psicológica, moral e monetária dos bichos e caloiros”, sempre cientes que “(…) a praxe deve ser integradora e susceptível de despertar amizades”. Ao praxar assumimos um compromisso com cada bicho e com a própria academia. Mais do simplesmente envergar o traje, devemos honrá-lo e com ele elevar todas as actividades de integração que constituem a “ad aeternum, omnipotente e omnipresente” praxe. Também nós, deste lado, temos as nossas regras, os nossos direitos e deveres, as nossas proibições e condições. Temos a tarefa árdua de os receber de braços abertos, com o maior dinamismo possível, incutindo em cada bicho, valores que lhe serão úteis ao longo da vida académica e, acima de tudo, ao longo do seu futuro após a passagem pela universidade. Damos “missões”, organizamos jogos, tentamos desenvolver as suas capacidades de improviso, a sua responsabilidade, criatividade, compreensão e até paciência. Equiparamos momentos de praxe com momentos da vida, e mesmo quando tal pareça impossível, há sempre uma lição que tiramos para um outro instante. Pensámos em situações que lhes fiquem impregnadas nas melhores recordações, nos seus nomes de praxe, nas cerimónias mais célebres do ano académico. Reunimo-nos, rimos, engendramos planos para que a praxe não seja só mais um capítulo, mas que se transforme no capítulo.Daqui esperamos, igualmente, que os bichos nos correspondam. Que cumpram com os seus deveres e que aproveitem “a sorte de se soltar do Ensino Secundário” e poder seguir em frente. Que olhem para estes anos, como os melhores das suas vidas. Acreditem que a praxe é o melhor início possível desta célebre etapa e que se tomarem a decisão de ser anti-praxe, mais do que serem “(…) almas perdidas do ensino superior, que não aceitam a praxe como um bem divino e essencial (…)” serão almas perdidas na história das universidades, que não souberam olhar a praxe com as características que ela ostenta, que não puderam usar o traje académico com o orgulho e sentimento de igualdade no seio da universidade. Não basta ter um canudo, é preciso ter um sem número de competências que se começam a adquirir cedo: nas praxes, nas actividades extra aulas, na procura, por incentivo próprio, de mais caminhos a percorrer. Dizem que o traje é uma forma de vida. Eu acredito que sim. Acredito que cada praxista, ao vestir o seu traje, veste com ele a sua própria vida, a vontade de bem integrar, de gritar alto o nome do seu curso, de transmitir o orgulho pelos seus estudos e pela sua universidade aos bichos que, num instante, serão caloiros e, depois, marroncos. E que, não tarda, estarão, deste outro lado da praxe, do mesmo lado da vida, usufruindo da oportunidade tão imaculada de poder atingir este nível: o de amar, sentir e viver o espírito académico. Vera Duarte Estudante de Psicologia da Universidade da Madeira
Os 10 mandamentos da Praxe para caloiros
No mês em que se dão as boas-vindas a todos aqueles que decidiram fazer da UMa a sua universidade, o JA fez um levantamento dos 10 mandamentos que qualquer caloiro deve seguir: 1 Não esquivar-se da praxe Todos os momentos da praxe devem ser aproveitados, já que quando os alunos de um curso ou mesmo de vários se reúnem, são vivenciados momentos que permitem uma integração na Universidade muito mais fácil, assim como o próprio estabelecer de amizades. 2 Honrar a UMa A UMa tem mais de 20 anos, contudo, o facto de sermos aqueles que estão a construir um dia-a-dia que amanhã será história deve ser encarado com muito orgulho, afinal: A UMa é nossa! 3 Respeitar o trajado Todos os trajados já foram, outrora, caloiros e abraçar esta tradição de se ser praxista também requer muito trabalho, trabalho esse que se faz principalmente pela vontade se passar o espírito académico e não deixá-lo perder-se com o tempo. 4 Conhecer a hierarquia da praxe Passando desde os mais conhecidos Bichos, Vilões e Doutores, até aqueles que por cá já estão há mais anos, os Veteranos. Entre estes, há um veterano muito particular, o Dux Veteranorum. Este que é o presidente do Conselho de Veteranos, e que é eleito pelos seus membros, não sendo, necessariamente, o veterano com o maior número de matrículas. Actualmente o cargo é desempenhado por uma mulher, Andreia Nascimento, que nos explicou que um Dux desempenha um papel crucial. Representa a praxe em qualquer ocasião, boa ou má, sendo necessária muita responsabilidade e trabalho para orientar e liderar um grupo de pessoas que trabalham em prol da UMa, através de actividades da praxe. 5 Fazer um pedido original ao Padrinho/madrinha Por norma só se faz o pedido numa única ocasião e por isso este deve ser, no mínimo, original. Não podemos esquecer que o/a padrinho/madrinha é responsável por um dos momentos mais importantes da vida académica, o Batismo do Caloiro e deve ser escolhido pelo bicho. 6 Participar nas festas académicas Inicialmente abundam, por isso devemos aproveitá-las antes que escasseiem e tenhamos pela nossa frente apenas trabalho e muito estudo. 7 Não descurar os estudos De facto, não é por acaso que no Código de Praxe se diz que deve ser respeitado o horário das aulas, sendo este definido como Horário Nobre. Além disso a praxe não visa um “desleixo” mas apenas completa a vida do estudante. 8 Ler o código de praxe Este é um auxiliar como que sagrado, onde estão presentes as regras da praxe. Muito útil não só enquanto se é caloiro mas durante toda a vida académica. 9 Divulgar a praxe Muitas vezes mal vista pela sociedade, deve ser divulgada para que, finalmente, lhe seja dado o seu devido valor. 10 Aproveitar a praxe ao máximo Para terminar, fica o conselho de aproveitar este momento único, já que a praxe tem o poder de ser muito mais do que simples brincadeiras. Ela é, e se quer “ad aeternum, omnipotente e omnisciente”. Sérgio Rodrigues Estudante de Economia
O que é ser voluntário?
Cozinhar uma refeição a quem nem os ingredientes pode comprar, socorrer completos desconhecidos pondo em risco a sua própria vida, oferecer companhia a pessoas que se sentem sós, recolher alimentos à porta de supermercados durante horas, ou simplesmente levar um simples cão a passear… Ser voluntário é das actividades mais gratificantes que alguém poderá alguma vez praticar, pois não só existe o benefício natural aos outros, como promove a auto-motivação e o desenvolvimento da personalidade, remunerações essas que são das mais importantes que um indivíduo poderá receber durante toda a sua vida. Estás a pensar em voluntariar-te? Precisas apenas de 3 aspectos: perseverança nos momentos difíceis, humildade nos momentos felizes e dedicação total em todos esses momentos… No decorrer do processo, estarás ainda numa situação de aprendizagem constante, quer a nível técnico, quer a nível de relações inter-pessoais, aprendizagem essa que consecutivamente te trará muita experiência de vida. O bom voluntário é ainda completamente desprendido de interesses próprios, recusando por princípio extrair qualquer benefício pessoal (que prejudique outros) e/ou qualquer tipo de remuneração, esperando apenas a felicidade de todos os envolvidos como retribuição pelo trabalho prestado. Existem inúmeras opções em que te podes voluntariar e a escolha depende apenas de ti, pois serás certamente bem recebido e ser-te-ão dadas todas as condições para que desenvolvas um bom trabalho, em prol da causa que abraçaste. Usa as capacidades que a tua formação, emprego ou condição física proporcionam para fazeres uma escolha ainda mais adequada, extraindo ainda mais valor de ti próprio(a) para oferecer melhores condições à sociedade em que vives. Se já fizeste a tua escolha, procura que familiares, amigos ou até conhecidos se juntem a ti e à causa que abraçaste, pois quanto maior for o número de colaboradores, maior será o vosso impacto e consequentemente o resultado do vosso esforço e da vossa dedicação, além de que poderão partilhar experiências entre si, tornando o próprio voluntariado ainda mais interessante. Arrisca, verás que não sairás defraudado do tempo e esforço que investiste. “Ser voluntário, é apelar ao que a humanidade tem de melhor: a partilha, o auxílio, a compreensão, a evolução… Torna-te um membro activo da sociedade em que te inseres, colabora para o melhoramento do bem-estar geral, e, no processo, sente a gratificação única de ver alguém um pouco mais feliz por um simples gesto teu.” Paulo Silva Estudante de Economia
É urgente combater o tráfico de seres humanos
Já todos terão ouvido histórias de amigos que, nos meses de Verão, ganharam dinheiro na apanha do morango, em França. Outros contam histórias das férias que tiveram enquanto faziam de au pair a umas crianças na Alemanha. Exemplos de trabalhos que muitas vezes são um chamariz para traficar seres humanos. “Toda a profissão pode ter vítimas de tráfico, mas há algumas identificadas como sendo mais problemáticas, porque são intensivo-laborais, pouco reguladas e de grande rotação”, refere Cláudia Pedra, Coordenadora Executiva do Projecto de Combate ao Tráfico de Seres Humanos do IEEI. Pelo sim, pelo não, a especialista aconselha: antes de sair do país para trabalhar, visita sempre a Embaixada do local de destino e mostra o contrato de trabalho, para perceber a sua veracidade. Para muitos especialistas, o tráfico de seres humanos é a forma moderna de escravatura. Não se pense, no entanto, que apenas acontece aos mais ingénuos. Com o passar dos anos, as “técnicas de recrutamento” de pessoas foram-se aperfeiçoando e hoje os traficantes recorrem a empresas fictícias, contratos de trabalho falsificados e até a entrevistas de emprego em tudo semelhantes às verdadeiras. Desengane-se também quem pensa que apenas são traficadas mulheres, pois o tráfico de seres humanos não tem como único intuito a exploração sexual. Em quintas escondidas em vários países, incluindo Portugal, há homens e mulheres a trabalharem na agricultura de sol a sol, sem salário e vivendo em condições desumanas. A isto se chama tráfico para exploração laboral, cujos números têm aumentado. Para além de tudo isto, há ainda as pessoas que são “roubadas” para tráfico de órgãos, para servidão doméstica, para serem utilizadas em roubos e outros crimes, entre outros. A tudo isto se chama tráfico de seres humanos e é um negócio que tem vindo a crescer. Porquê? Basta ler o que Joana Daniel-Wrabetz, Chefe de Equipa do Observatório do Tráfico de Seres Humanos, referiu na publicação Tráfico Desumano, do Ministério da Administração Interna: “nas palavras de um traficante: «Podes comprar uma mulher por 10 mil escudos (50 euros) e podes ter o teu dinheiro de volta numa semana se ela for bonita e jovem. Depois, tudo o resto é lucro”». Contas que fazem do tráfico de seres humanos a segunda actividade criminal mais lucrativa do mundo, só precedida pelas drogas ilegais e superando o comércio de armas. O que pode travar este negócio? Eu, tu, todos nós juntos. Como? Primeiro, tendo cuidado com os empregos no estrangeiro. Em segundo lugar, estando atentos e denunciando situações suspeitas (pela Linha Nacional de Emergência Social, 114, ou para a SOS Imigrante, de segunda a sexta-feira, entre as 8:30 e as 20:30, pelos 808 257 257 / 218 106 191). Em terceiro lugar, fazendo escolhas responsáveis no momento das compras, pois o tráfico de pessoas para fins laborais só existe porque a todos nós interessa pagar por uns ténis menos de 10 euros ou 3 euros por uns óculos escuros. Por último, façam o mais simples: divulguem este assunto pelos vossos familiares e amigos. Para isso, aproveitem o Dia Europeu contra o Tráfico de Seres Humanos, que se assinala a 18 de Outubro, e sejam a voz das cerca de 2,4 milhões de pessoas que se sabe serem todos os anos traficadas. Cátia Silva Coordenadora Editorial da Amnistia Internacional Portugal
Perspectiva de género
Sabemos que o género condiciona de forma importante a saúde de homens e mulheres em geral e a sua relação com as substâncias psicoactivas (SPA), o que resulta não só de diferenças biológicas mas também de diferenças de género. Enquanto o sexo refere-se às diferenças biológicas que distinguem o homem e a mulher, o género reporta-se ao modo como as relações entre ambos vão sendo construídas socialmente. Nos últimos anos, a investigação realizada tem demonstrado e ajudado a compreender que existem diferenças para muitos aspectos associados com a toxicodependência, no que aos homens e a mulheres concerne. Os resultados de estudos nacionais e europeus alcançados apontam para prevalências do uso de SPA, problemas decorrentes, mortes relacionadas e consequências sociais, que diferem substancialmente entre géneros. A nível nacional e de acordo com os resultados do Inquérito Nacional ao consumo de SPA na população em geral, 2007, os consumos de SPA são mais elevados nos homens. Mencionam que a declaração da experiência de consumo de qualquer substância ilícita é maioritariamente masculina. Ao analisarmos estes consumos por idades ao nível do género, encontram-se diferenças significativas nos consumos dos indivíduos do sexo feminino e masculino. Também os consumos de substâncias lícitas (tabaco, álcool e medicamentos) ao longo da vida, diferem substancialmente, verificando-se um consumo superior nos homens no que ao álcool e tabaco diz respeito, no entanto em relação aos medicamentos, o consumo é claramente feminino. A perspectiva de género permite compreender as relações específicas que homens e mulheres mantêm com as drogas, as suas semelhanças e diferenças. São múltiplos os motivos que justificam a relevância de se abordar a prevenção das toxicodependências, com enfoque de género, nomeadamente: as motivações para iniciar-se ou manter-se no consumo das drogas nem sempre coincidem; nem todos os factores de protecção têm o mesmo impacto ou exercem a mesma influência; a dependência segue uma trajectória diferente; as consequências derivadas do consumo são distintas entre homens e mulheres e existem diferenças biológicas, psicológicas, sociais e culturais (Sánchez Pardo, L. et al., 2008). Parece então, ser necessário a adaptação de respostas, de estratégias e instrumentos a diversas realidades. Abordar os consumos de drogas e as toxicodependências desde uma perspectiva de género pressupõe ter presente a singularidades e diferenças de género, assim como os vários factores que estão relacionados. Compreender estas diferenças e incorporá-las na prevenção e tratamento das toxicodependências, permite eliminar as desigualdades que o género estabelece no momento de aceder aos serviços, recursos assistenciais e preventivos, reduzir riscos e contribuir para ganhos em saúde. Teresa Dias Enfermeira do Instituto de Administração da Saúde e Assuntos Sociais, IP – RAM / Serviço de Prevenção de Toxicodependência