Estórias do arco da velha
– Papá. Quem és? Conheço de cor esse verde azeitona que preenche o poço dos teus olhos: são o espelho dos meus. Mas quem és? Quando foi que nos perdemos? Quando foi que desfizemos a malha da nossa camisola – que nos ficava tão bem, que nos apertava um ao outro, onde éramos pai, filha, amigo, amiga, cúmplices. Para onde foste? Vejo-te – ainda que pouco – mas não te sinto. E tu, papá, conheces-me? Sabes de que fibra sou feita, que sonhos acrescento a cada dia, que medos me assolam, que sorrisos trago? Não sabes. Um conhecido atento sabe mais sobre mim que tu. Limpo as lágrimas. – Papá. Para onde fomos? Guardo memórias tão boas por detrás de um nevoeiro que me atraiçoa. Tenho receio: de esquecer o que lembro; de não conseguir lembrar o que já foste, o que já fomos. Há quanto tempo não me tocas, não me cheiras, não olhas para dentro de mim? Dentro! Não a carne que eu sou: mas o espírito. Há quanto tempo não lambes as minhas feridas ou sacodes os meus ombros quando estou errada? Já me perdi nos anos. Escrevo hoje para ti. E choro. -Papá. Amas-me? Diz-me que sim mesmo que não o sintas. Prefiro viver na ilusão de um amor: congelado, escondido, perdido nas gavetas da minha infância. Sinto-me melhor agora. Queria que soubesses que eu sei que somos um retrato falso. E que, a maior parte das vezes, isso não me incomoda, mas hoje sinto-me menina – menina descalça na fazenda, menina nos baloiços, menina na escola, menina de tranças – e, quando estou assim, sinto a tua ausência. -Papá. Será que voltas? A mulher-menina releu a carta e dobrou-a em quatro, metendo-a no caderno das confissões. Pegou na bolsa e beijou a mãe com fúria: um obrigada depositado nas bochechas de quem a cheirava, de quem a conhecia de trás para a frente, de quem a acudia sempre, para sempre. – Bom fim-de-semana, querida. E a rapariga saiu: a casa do pai esperava-a, com as suas marione- tas e o seu teatro ensaiado. Valentina Silva Ferreira
International Table Tennis in Madeira
Well, I suppose what immediately sprung to my mind was the cake, the wine and the ‘Flanders and Swann’ song about the wine. Apparently, Cristiano Ronaldo grew up there, but if I’m perfectly honest, I didn’t even know where it was, how big it was or even what country it belonged to… That all changed in April when I was selected to go there to play in the 5th European Universities Table Tennis Championships later on in the year. I had been lucky enough to play in the same competition the previous year in Kazan, Russia, where the Cambridge team came 9th. A respectable position, but we knew we could have done better, so naturally I jumped at the opportunity to do it again. This year promised an equally intense competition between the top student-athletes from across the continent, many of whom boasted international caps and world rankings. It was to last the best part of one week and would be a hectic but varied schedule of practice, matches, ceremonies and interviews, and of course leisure time and a little sightseeing. It would be a chance to rekindle old friendships, see familiar faces and meet new companions. It would be a rare opportunity for me to play table tennis at a level that, due to the commitments of my PhD study, I rarely get the chance to. And the location didn’t sound too bad, either: a small Portuguese island in the middle of the Atlantic Ocean, 500 km off the coast of Africa called Madeira. As I have said, I am a PhD student at Cambridge University, studying Materials Science. Cambridge, one of the oldest and most prestigious universities in the world, celebrated its 880th anniversary in 2009. It is a beautiful place, steeped in history and tradition, but it also is a place of discovery and creativity, as its many alumni show. We were greeted by the organising team from Madeira University Students Union, who was very helpful throughout our stay, making the logistics of getting between the hotel, university, sports hall and canteen swift and almost effortless. I would describe it as ‘smooth’, but that was one thing it wasn’t: due to the mountainous nature of Madeira, we often found ourselves tossed around the minibus like a box of small white celluloid balls in a tumble dryer as the roads wound up, down and around the pretty streets of Funchal. Needless to say, we quickly learnt the value of seat belts! The first two days there were spent acclimatising in the hotel pool and the practice hall, as our competitors arrived and the atmosphere built up steadily. We caught up with the other UK teams, from Nottingham, Imperial, Kings and Kent, and on the eve of the first matchday, we took part in the Opening Ceremony at the Madeira University Rectory. After parading into rapturous applause we listened to various speeches and stood for the anthem of the European Universities Sports Association, then we were treated to a fantastic display of traditional music, flag dancing and tambourine dancing by the university students. The next day, the competition commenced with the group stages of the Team Event. Cambridge had been drawn with Karlsruhe, Ljubljana and Coimbra from Germany, Slovenia, and Portugal’s host nation, respectively. Our first match against the Germans went well: we each gave a solid performance to win 3-0. The next match against the Slovenians, two of whom were world-ranked, was more difficult and although we showed some moments of inspiration the final score was a 3-0 defeat. The other results in our group meant that in order to guarantee progress to the knockout we needed to beat Coimbra, who finished four places above us last year and whose support from the Madeiran crowd had been growing all afternoon. We duly stepped up to the challenge and 3-0 was again the scoreline, in our favour, ensuring our continued participation the following morning. And so, as the sun rose over the East of Funchal into a clear blue sky, we began preparing for a Quarter Final against Rzeszow, Poland, who had thrashed our fellow countrymen Imperial in the group stages. It was to be our hardest challenge yet; three relatively unknown British students table tennis enthusiasts versus a team of internationals who had won Silver and Bronze in the last two years’ championships. Unfortunately, we couldn’t repeat the heroics of the last round and lost 3-0. The competition was eventually won by another Polish University, Jozef Rusiecki, and although we were out, we felt good about our performance. We’d exceeded expectations in being the only British team in the last eight and only lost to teams who medalled. After two more days of Individuals Competition and picking up a few tournament t-shirts as obligatory souvenirs, we attended the Closing Ceremony, at which we were wined, dined and entertained in traditional Madeiran style. It had been a great experience all-round and I’m very glad I could be a part of it. The people, the climate, and the scenery all make Madeira such a wonderful place to be – I hope I can return someday to explore more of the island. But until then I have photos, Madeira cake (which actually is denser and treacly than how I’d imagined) and wine (the effects of which are identical to what I imagined!) to bring back pleasant memories of my time on that little island in the Atlantic, 500 km off the coast of Africa. Hamish Yeung Cambridge University, UK reports on a sporting visit to the “Atlantic Pearl”
Enraizados e edificados em Cristo, firmes na fé!
Foi com este o lema que o Papa Bento XVI nos lançou o desafio de nos “fazermos ao largo”. A grande aventura foi as Jornadas Mundiais da Juventude (JMJ), que tiveram lugar entre os dias 10 a 21 de Agosto, em Madrid. O DPES, nomeadamente alguns dos elementos do coro Universitário da Madeira, pôde estar presente neste que é o evento que junta de 2 em 2 anos, o maior número de jovens em todo o mundo. Foi o Beato João Paulo II que instituiu as Jornadas e é hoje um dos seus patronos. Juntamo-nos aos restantes Jovens da Diocese, para viver esta experiência que nos tocou e transformou a todos. Partimos rumo a uma aventura que era nova para todos nós. Tivemos a experiência de viver as pré–Jornadas em Segóvia, onde divididos por diversas comunidades fomos acolhidos pelas pessoas locais de uma maneira incrível. Parecia que há muito nos esperavam. Até as portas das suas casas nos abriram. Foi ali que fizemos esta nossa preparação para a grande Jornada de Madrid, com diversas actividades muito enriquecedoras, entre elas uma vigília a Maria lindíssima. Depois chegaram as verdadeiras jornadas… Pelas ruas de Madrid a palavras eram apenas duas: BENTO XVI! Jovens dos 5 continentes… europeus, americanos, africanos, chineses… juntos pela mesma causa. Incrível como “Aquele” que morreu por nós na cruz, há dois mil anos, ainda hoje move milhares e milhares de Jovens… O que nos faz realmente pensar…que ou estamos “maluquinhos” por nos juntarmos ali todos, ou ELE vive mesmo Hoje, em cada um de nós e dá sentido às nossas vidas. O primeiro contacto com o Santo Padre, aquando da sua chegada a Madrid, embora ainda a alguns metros, foi um momento emocionante para todos nós, e que certo não nos sairá da memória. Sentir tanta gente a gritar a uma só voz “Benedito” foi arrepiante, e quando passou por nós, a verdade é que fez a diferença. Algo marcou mesmo, aquele olhar sereno e tão apaziguador. E então nas suas palavras, quando falou e nos deu as boas-vindas em português, foi a alegria total. Tivemos também, no Madrid Arena, o encontro com todos os jovens portugueses presentes nestas jornadas e muitos dos Bispos portugueses, que foi sem dúvida fantástico. Sentimo-nos quase que em casa, tanta era a alegria e fé que se viveu, ali todos juntos, em língua portuguesa. A grande vigília foi sem dúvida o momento alto destas Jornadas, no aeródromo de 4 vientos, em que, debaixo de uma forte chuva e vento, os quase 2 milhões de peregrinos não arredaram pé do local, isto tudo movidos pela fé e vontade de assistir e participar na vigília. Até o Santo Padre não conseguiu ficar indiferente a tamanha prova de fé e sacrifício. Até que chegou a hora da despedida… a Eucaristia de Envio em que fomos convidados pelo Papa a voltarmos às nossas casas, aos nossos países e a levarmos esta alegria e Boa Nova a todos os que connosco convivem e vivem diariamente. Quem sabe não nos possamos encontrar, já em 2013, nas JMJ do Rio de Janeiro. Voltámos todos a casa com uma certeza… estas JMJ não terminaram ali, muito pelo contrário… acabaram de começar! A Jornada continua hoje e sempre, nas nossas casas, na nossa comunidade, aqui na UMa. Já diria o poeta… “Pelo sonho é que vamos, comovidos e mudos. Chegamos? Não chegamos? Haja ou não haja frutos, pelo sonho é que vamos. Basta a fé no que temos, basta a esperança naquilo Que talvez não teremos. Basta que a alma demos, Com a mesma alegria ao que desconhecemos E ao que é do dia-a-dia. Chegamos? Não chegamos? E partimos. Vamos. Somos.” Sebastião da Gama João Francisco (Kiko) Membro do Coro Universitário da Madeira
De regresso à universidade e ao “stress”
Sejam bem-vindos a toda a agitação da vida académica; ao (re)encontro com colegas e professores, com trabalhos e exames; à necessidade de cumprir prazos e horários; à antevisão de algumas noites mal dormidas e refeições apressadas; ao ter que gerir a ansiedade perante situações diversas; ao tentar encontrar o seu lugar no grupo e lidar com a competição, por vezes, sentida; ao ter que lidar com a pressão para ser bem-sucedido, corresponder a expectativas e, ainda, ao ter que gerir finanças; angústias e frustrações, dúvidas e preocupações (“Estarei à altura?”, “Tenho que provar que sou capaz…”). Depois de um tempo de interregno, nem sempre é fácil regressar a esta realidade, em que a capacidade de gerir o stress é continuamente testada, e em função da qual será determinada a melhor ou pior adaptação a este contexto. Note-se que o stress tem um efeito cumulativo, pelo que caso não sejam encontradas respostas efetivas para estas situações, a crescente ansiedade, dores de cabeça, tensão muscular, cansaço, irritabilidade (…), tornarão mais difícil a concentração, rendimento, motivação, tomada de decisões, levando a sentimentos de exaustão. Porém, tomando por inspiração a metáfora usada por Daniel Sampaio, podemos, ser comparados a um Ferrari que tem tudo para ser bem-sucedido, mas que pelo facto da estrada da vida não ser suave e sem buracos, não consegue andar tão depressa quanto o seu potencial, tendo de se equipar com pneus mais ajustados ao terreno e reparar alguns dos buracos da estrada. Assim somos nós! Face a todas as pedras ou buracos com que nos deparamos, potenciais fontes de stress, precisamos desenvolver os nossos recursos de gestão de stress, e pô-los em ação de modo a melhor nos ajustarmos ao caminho a percorrer. Deste modo, a forma como “lemos” as situações constitui um possível recurso, já que afeta a forma como lidamos com as mesmas. Podemos, então, perceber o regresso à universidade como algo ansiogénico, tornando mais difícil o confronto com situações de stress ou, por outro lado, encará-lo como uma oportunidade para explorar novos contextos e atividades, construir novas relações e saberes. Cuidar diariamente da nossa saúde física e mental; tentar encontrar um equilíbrio entre a vida pessoal e académica; adotar um estilo de vida saudável, com a prática de exercício físico, bons hábitos alimentares e uma boa higiene do sono; e ainda reconhecer que existem momentos em que podemos beneficiar da ajuda de alguém para recuperar o nosso bem-estar psicológico, são outros dos recursos de que dispomos. Por tudo isto, encaremos este ano como uma oportunidade para desenvolver o nosso potencial, não só pela edificação de conhecimento, mas também pelo nosso próprio crescimento, porque somos responsáveis pelas escolhas que fazemos e pelos recursos que pomos em ação na gestão do dia a dia, sendo que o stress, tal como referido por Hans Selye, é “o tempêro da vida e sem stress, a vida não teria excitação, desafios, nem sentido de aventura…”. Serviço de Consulta Psicológica da UMa
Quando os grandes eram pequenos
Chegar a Setembro, findas as merecidas férias, ter que recordar o que me fez crescer e o que mais me marcou ao longo da vida é algo que, à minha cabeça, já não assiste. Agora um pouco mais a sério, tenho todo o gosto em partilhar aqui, um pouco mais de mim. Após infindáveis horas a procurar nos meus arquivos “aqui dentro” e a tentar descolar as páginas dos álbuns cheios de pó, encontrei algumas fotos que jamais soube que alguma vez existiram. A minha primeira recordação tem 19 anos. A minha primeira festa de aniversário. A minha casa, a minha família toda reunida, o primeiro bolo e as primeiras velas apagadas. É difícil esquecer estes momentos em que gatinhávamos, brincávamos com coisas que hoje em dia dificilmente valorizamos, e ríamos como quem respira. O que eu mais gostava de fazer era brincar com legos, pintar (e sujar!), desenhar, passear, jogar à bola, e tantas outras coisas comuns à maioria de nós, quando éramos miúdos. Lembro-me sempre dos domingos passados a andar de barco. Os primeiros mergulhos, os primeiros e únicos enjoos, e a primeira sensação de liberdade pura. Realmente considero-me um sortudo por ter nascido no meio de um paraíso natural, de poder acordar e olhar para o mar, virar-me e contemplar a montanha verde e imensa. Lembro-me muito bem dos (nostálgicos) verões, quando não conseguia suportar o calor de Agosto e fazia de tudo para poder ir à Barreirinha, ao Lido ou, em dias de maior capricho, à Prainha. Não esqueço o incomparável cheiro a verão, a mar e a brincadeira que me fazia acordar todos os dias, chamar os meus primos e passar um dia daqueles, como só nessa altura passávamos. A casa da minha avó era onde mais gostava ir aos sábados à tarde. Adorava comer bolo do caco ainda quente, acabado de cozer. E fazer um tão sem-número de travessuras com os meus primos, andar pelo meio das árvores, vindimas e plantações. O ar do campo faz–nos bem de vez em quando, eu que o diga. Foram tantas as vezes que lá ia e voltava duas vezes mais sujo e três vezes mais feliz. Os fins-de-semana eram habitualmente passados em família, e que família! Julgo só ter decorado os nomes de todos os meus primos alguns meses depois de os conhecer. Recordo-me muito bem dos primeiros medos que tive de enfrentar. As tempestades, as aranhas, o escuro… Até aos 3 ou 4 anos, dormia sempre com uma pequena luz acesa no meu quarto, até fundi-la e ter que aprender a dormir como “os adultos” dormiam. É estranho quando começamos a conhecer o mundo e a desmistificar algumas coisas. Depois, quando entramos para a primária e somos obrigados a, simplesmente, aprender e a cumprir algumas regras… Aí é que parece que o mundo fica mais cinzento e a brincadeira toda acaba. Foram grandes momentos. O sorriso de quem nos aturava e a cara dos colegas são coisas que ficam sempre. Desesperava pelo intervalo, por jogar no campo “dos grandes”, por jogar à apanhada, à meia-lua, tanta coisa. Ter que passar aqueles longos minutos antes a olhar pela janela, a planear a tarde, era mesmo algo inquietante. Na natação gastava as minhas últimas energias do dia. Ao fim da tarde e à noite, era a única oportunidade no dia para estar realmente em família. Ainda me lembro bem quando tive TV Cabo e as horas que passei a ver o Canal Panda, e tantos outros canais que não me lembro de existirem. Nunca me deitava tarde, mas também nunca deixava nada a meio. Era fácil de conciliar. Começar a conhecer o mundo foi, sem dúvida o maior “abre–olhos”. Lembro-me bem da primeira viagem ao Porto Santo, a Canárias, ao continente, e por aí fora. A descoberta das grandes cidades europeias, dos monumentos e paisagens que via na televisão fascinavam-me. A primeira vez que andei de avião foi algo impossível de verbalizar. Não consegui dormir na noite anterior, o caminho para o aeroporto era repleto de ansiedade e, até entrar no avião, estava sempre impaciente! O barulho dos motores, a sensação de deixar o chão firme, e ver a Madeira do ar, é algo que nos marca a infância. Acima de tudo, conhecer novos sítios, novas pessoas, diferentes culturas, novas maneiras de pensar, faz-nos crescer e dar mais valor ao sítio onde vivemos. Posso dizer que tive uma infância muito feliz, tive as minhas aventuras, desventuras, fiz montes de asneiras (sabe mesmo bem), aprendi e conheci muitas coisas, mas a melhor delas foi saber e gostar de viver. É bom acreditar que tudo é possível, fazer amigos antes de saber o nome deles e ter o dia mais feliz da vida todos os dias. Era bom nunca mais crescer. Mas, se os pequenos nunca fossem grandes, jamais saberiam a que sabe ser pequeno e ter o mundo na mão. Marco Dinis Estudante de Medicina
A arte que mora em cada um de nós
“Passear contigo, amar e ser feliz” é um dos versos da popular canção “Passear Contigo” dos Broa de Mel, tantas vezes utilizado de forma aprazível nas nossas conversas, como esta que faço hoje convosco. Na realidade, facilmente poderíamos substituir o verbo passear pelo verbo conversar, pelo verbo pintar, dançar, cantar, tocar, enfim, tudo formas de expressão artística que de uma maneira ou de outra nos acompanham mais ou menos explicitamente no nosso quotidiano. É sobre esta arte que mora em cada um de nós que me proponho conversar convosco. Conhecemos hoje rótulos como “tem escola” ou é “auto-didacta”, o que não sabemos ao certo é a fronteira que nos faz ultrapassar a escola que se tem e a arte que se desenvolveu. A ideia não será cansar-vos com formas teóricas de rotular artistas ou de perceber se se é melhor ou pior porque se tem ou não tem, escola. O importante é reconhecermos em cada um de nós potencial criativo que nos ajuda a viver e a encarar o que vida nos proporciona. Depois é claro, é importante encontrarmos a forma de exteriorizar a arte que há em nós, o que, dito assim, até parece simples. Hoje é quase lugar-comum entrar-se em casa de amigos e conhecidos e vermos as transformações que acontecem no lar de cada um, ora em instalações improvisadas, ora em paredes que se fizeram telas ou em telas que decoram paredes, como se do exorcizar do inner ego se tratasse. Onde queremos chegar quando falamos de arte, de artistas e do criador em cada um de nós? Onde começa este despertar? Qual o papel do educador nesta matéria? Qual a sua responsabilidade? Longa vai já a discussão nesta matéria, mas nunca suficiente, porque mais do que incutir práticas de aprendizagem artística em cada um de nós, está o interesse em fazer descobrir a contribuição que cada um pode dar e a mais-valia que possa representar nas nossas vidas e na sociedade em que nos encontramos inseridos. Vamos utilizar a prática artística para exorcizar os nossos medos, as nossas inseguranças, as nossas tristezas, mas também as nossas alegrias e paixões. Vamos aprender a transformar aquilo que nos move em partilha com o próximo, através da expressão artística. Vamos ganhar confiança e autonomia, descobrindo e construindo o potencial que há em nós. Como podemos ensinar a fazê-lo? Como podemos aprender? Defendemos uma educação acompanhada pela prática sistemática de uma actividade artística? Defendemos a integração destas disciplinas em áreas curriculares obrigatórias na aprendizagem ao longo da vida? Queremos uma educação com arte integrada? Absolutamente! No arranque da segunda década do século XXI, depois de se terem já atribuído tantas designações às manifestações artísticas da mais diversa ordem que, em última instância, na conclusão são entretenimento e no processo terapêuticas, começam a intensificar-se as vozes de que são igualmente educativas. Devem fazer parte das competências a adquirir durante o processo educativo e, mais do que um fim, podem ser um meio para se o atingir, ele próprio transversal, onde as barreiras encontradas são apenas aquelas que cada um criou para si. De alguma forma temos que entender a existência de instituições que procuram, no entender de muitos, colmatar esta lacuna, proporcionando aos interessados toda uma gama de produtos artísticos pré-formatados. Fala-se em pré-formatação porque à priori já vêm com um pacote de “x” aulas, “y” momentos de avaliação e um espectáculo final que serve o prazer do público, entre os quais se encontram os familiares mais chegados e entusiastas, o prazer de quem promove como se fosse um troféu de dever cumprido, para não falar dos números que, esses sim, fazem as delícias de quem financia. Falta-nos o fio condutor desde que temos consciência “de que somos gente” até à hora de que já nada nos resta senão o que à nossa volta construímos. Falta-nos termos sempre presente, que esta preciosa ferramenta que se chama criatividade, deve ser estimulada, independentemente da forma que possa ou não adquirir. Porque todos temos um “Milagrário Pessoal” dentro de nós, deixo-vos estas palavras transcritas da obra de Agualusa (2010), tão facilmente ilustrado com imagens que podem ser reproduzidas de qualquer forma artística, mas que partilho convosco através daquilo que hoje ainda une milhões: a língua portuguesa. «No princípio os homens não falavam. Nenhum animal falava, excepto os pássaros. Havia um saco com palavras que estava à guarda da Andua. Foi então que apareceu um rapaz com um único braço, uma única perna e só metade da cabeça. O rapaz roubou o saco das palavras, abriu o saco e meteu as palavras à boca. Na manhã seguinte, quando despertou, era uma pessoa inteira, mas metade rapaz e metade rapariga. Além disso falava, e a sua língua era ágil e harmoniosa como a dos pássaros.» De um conto tradicional ovimbundo, em Selecção de Contos, Provérbios e Adivinhas em Umbundo, de Jeremias Capitango. E foi como se de uma conversa de café se tratasse. Teresa Dias Licenciada em História Variante de História da Arte Mestranda em Relações Interculturais
Boas-vindas aos caloiros
Chegámos ao mês de Setembro e a Universidade da Madeira volta a receber novos alunos. É certamente um momento marcante para todos os que iniciam aqui o seu percurso académico. O acesso ao Ensino Superior marca uma viragem na formação de um aluno, pois é nesta decisiva etapa curricular, para muitos a última, que as opções, as incertezas, as frustrações, os êxitos, assumem um papel decisivo e influente no seu futuro profissional. A praxe académica continua a estar presente nesta recepção aos caloiros e visa a sua integração no espírito universitário. É com certeza um mês fantástico que estes novos alunos dificilmente conseguem esquecer. Ao contrário do que muitas pessoas pensam, a praxe é cada vez mais vivida num espírito de entreajuda e companheirismo e nunca no sentido de promover a violência e o bullying académico. É neste conjunto amplo de tradições que surgem os grandes amigos e companheiros na vida de estudante. É também na praxe que os caloiros conhecem os alunos mais velhos que lhes transmitem importantes conselhos. Outra das novidades com que estes alunos se deparam é a Associação Académica, onde poderão encontrar inúmeros serviços. Do apoio escolar ao lazer, a AAUMa tem como principal objectivo proporcionar uma vida universitária rica e preenchida. Esta família vem cada vez mais enaltecendo o nome da Universidade da Madeira com os seus grandiosos projectos. A organização do torneio universitário de ténis-de-mesa foi um dos mais recentes sucessos da AAUMa. É a pensar no sucesso dos novos caloiros que a Associação programa este ano académico. Derek Freitas Colaborador do Departamento de Desporto
Ipsis Verbis
“Warren Buffet “não disse que os governos deviam taxar ainda mais quem já paga mais impostos, mais sim que deveriam começar a taxar a sério os ricos que não pagam os impostos que deviam. E deu o seu exemplo pessoal ele, o terceiro homem mais rico do mundo, paga 17,3% de IRS sobre os seus rendimentos de capital, enquanto que os quadros superiores que directamente trabalham com ele pagam entre 35% a 40% sobre rendimentos do trabalho.” Miguel de Sousa Tavares, Colunista Expresso (03-09-2011). “Na era da Internet, em plena orgia da liberdade e da impunidade, continuamos a ter medo dos livros…” Clara Ferreira Alves, Colunista da Revista Única (25-06-2011). “Álvaro Santos Pereira, pediu para que o tratassem por ‘Álvaro’ e não por ‘ministro’ (…) e vejam bem, lá na faculdade canadiana do ‘Álvaro’ Sua Eminência Exmo. Professor Doutor Marcelo Rebelo de Sousa, the third, seria apenas o ‘Marcelo Sousa’ (…) o coitadinho até perderia o ‘Rebelo’ e (ai, que arrepio) o ‘de’ (…) já viram se isso chega a Portugal?” Henrique Raposo, Colunista do Expresso (02-07-2011). “É muito provável que as universidades sofram um corte seme-lhante a este para o ano e aí a situação tornar-se-á praticamente insustentável, a menos que o Governo da República introduza alte-rações significativas na forma como as universidades são geridas.” José Manuel Castanheira da Costa, Reitor da UMa em declarações à agência Lusa (08-09-2011). “Tendo em conta a quantidade de desgostos que sofri, de patifarias que pratiquei e de azares que sobre mim se abateram deveria agradecer a Deus a faculdade de esquecer, mas a perspectiva de ficar sem a capacidade de reconhecer o que me rodeia enche-me as noites de pesadelo.” Maria Filomena Mónica, Colunista do Expresso (09-07-2011).
Em português escorreito
Como considerou Ferdinand de Saussure (1871-1913), o fundador da Linguística Moderna, a arbitrariedade é uma característica do signo linguístico. Contudo, por vezes, é possível encontrar uma justificação para a formação de alguns signos, visto que derivam de outros, embora, com o tempo, se perca a explicação que esteve nessa origem. Os dicionários podem ter, então, um papel relevante para compreender a ortografia das palavras, ou melhor, os significantes (e não só) dos signos linguísticos. Consultá-los ajuda a melhorar a escrita. 1. Dois_________________assaltaram um banco. Mas foram,rapidamente, capturados pela polícia. encapuchados / encapussados / encapusados / encapuzados SOLUÇÃO Dois encapuzados assaltaram um banco, mas foram, rapidamente, capturados pela polícia. EXPLICAÇÃO O termo “encapuzado” significa “recoberto com capuz” e é o particípio passado de “encapuzar” (formado com o prefixo “en” e o sufixo “ado”), que, na frase facultada, funciona como substantivo. Uma vez que é constituído a partir de “capuz”, deve escrever-se com “z”. A palavra “capuz” é sinónima de “capucho”, tendo ambas uma mesma acepção: “parte da capa ou de outra vestimenta que serve para cobrir a cabeça”. Porém, a “capucho” estão, além deste, associados outros sentidos. Embora gráfica, a grande diferença entre os dois termos é a sua proveniência. Enquanto “capuz” será oriundo do castelhano (idêntico: “capuz”), “capucho” terá origem no italiano (“cappuccio”), justificando as respectivas terminações. Este é um caso que evidencia a riqueza lexical do Português. 2. Foste escolhido. És um _______________________ ! previlegiado / perveligiado / perviligiado / privilegiado SOLUÇÃO Foste escolhido. És um privilegiado! EXPLICAÇÃO Sendo, nesta frase, usado como substantivo, o adjectivo – e particípio passado – “privilegiado” está relacionado com “privilégio”. A origem encontra-se no Latim (privilegìum,ìi) com o sentido de “lei específica, isolada, aplicada num determinado caso ou a poucas pessoas” (“privada + lei”). Articular a vogal “i” em duas sílabas consecutivas (“privi”) pode não ser fácil. No registo oral, com frequência, para diferenciar ambas, realizamos um fenómeno de dissimilação com um “e” na primeira sílaba (“previ”). Isto também se poderá explicar pela analogia com o considerável número de vocábulos que começam com “pre-“, em Português. Ainda no registo oral, pode acontecer um fenómeno de interversão com a “troca” de posição da vibrante e da vogal (“pre” > “per”). Para “privilégio”, e grande parte do vocabulário português, a Ortografia é etimológica e a pronúncia pode dificultar a grafia. Helena Rebelo Professora da UMa
A minha infância
Tive uma infância como qualquer outra criança que vive à face da Terra. Cedo comecei a andar de uma lado para o outro, segundo me contaram dos meus primeiros 4 anos de existência. A minha vida foi um corrupio entre o Funchal e Machico e vice-versa. Aos meus 7 anos a minha avó, que responsável por mim, faleceu e fui colocado na Aldeia do Padre Américo. Nesta instituição aprendi a lavar, a cozinhar, a passar a ferro, a cuidar dos campos e muitas mais destas tarefas que os jovens que por não lá passam acham muito estranhas. Sem falta de modéstia, foram os melhores anos da minha vida. Lá, na Aldeia do Padre Américo, aprendi a respeitar todos e cada um na sua forma de estar e de ser. Fiz grandes amigos e ainda hoje nos encontramos e falamos dos tempos em que vivemos na Quinta (a Aldeia do Padre Américo). Muitas vezes as saudades nos falam mais alto. Fiz também a minha escola primária nesses tempos, conciliando-a com os trabalhos do campo. Tínhamos tempo para tudo. No fim desses anos passados fui para os Açores, para outra casa do mesmo padre (o Padre Américo) e aí completei o 6.º ano de Escolaridade. A minha vida manteve-se lá e aprendi, entre outras coisas, a fazer pão. Hoje em dia o que me causa grande tristeza é passar pela Quinta e encontrar quase ao abandono as terras e o resto (digo eu, porque é a minha forma de ver). No nosso tempo era tudo cultivado e arranjado e tínhamos amor à nossa Quinta. Cuidávamos do nosso pedaço de terra como se fosse a nossa casa. Tínhamos as nossas regras como em nossas casas, havia horas para tudo e mais alguma coisa. Hoje as coisas são feitas de outra forma. Já não há aquele espírito de entreajuda porque os tempos também são outros. Os jovens agora têm outras ocupações. Hoje em dia, com a minha idade, tenho muitas saudades da minha Quinta e não me importava de voltar para lá. Mesmo com o frio que se sente por lá, não me importava nada de regressar. Fazíamos as nossas caminhadas entre a Aldeia do Padre Américo e os Reis Magos, para fazermos praia. Subíamos e descíamos, e subíamos a pé. Fazíamos praia uma vez por semana. Também tínhamos o nosso passeio, no dia 13 de Maio, que dava a volta à ilha. Assim se faz e assim se fez parte da minha história vivida na casa de que hoje falo e da qual me lembro com muita saudade. Bem-haja a todos. Agostinho Pereira Funcionário da Universidade da Madeira