Quando os grandes eram pequenos

Chegar a Setembro, findas as merecidas férias, ter que recordar o que me fez crescer e o que mais me marcou ao longo da vida é algo que, à minha cabeça, já não assiste. Agora um pouco mais a sério, tenho todo o gosto em partilhar aqui, um pouco mais de mim. Após infindáveis horas a procurar nos meus arquivos “aqui dentro” e a tentar descolar as páginas dos álbuns cheios de pó, encontrei algumas fotos que jamais soube que alguma vez existiram.

A minha primeira recordação tem 19 anos. A minha primeira festa de aniversário. A minha casa, a minha família toda reunida, o primeiro bolo e as primeiras velas apagadas. É difícil esquecer estes momentos em que gatinhávamos, brincávamos com coisas que hoje em dia dificilmente valorizamos, e ríamos como quem respira.

O que eu mais gostava de fazer era brincar com legos, pintar (e sujar!), desenhar, passear, jogar à bola, e tantas outras coisas comuns à maioria de nós, quando éramos miúdos.

Lembro-me sempre dos domingos passados a andar de barco. Os primeiros mergulhos, os primeiros e únicos enjoos, e a primeira sensação de liberdade pura. Realmente considero-me um sortudo por ter nascido no meio de um paraíso natural, de poder acordar e olhar para o mar, virar-me e contemplar a montanha verde e imensa.

Lembro-me muito bem dos (nostálgicos) verões, quando não conseguia suportar o calor de Agosto e fazia de tudo para poder ir à Barreirinha, ao Lido ou, em dias de maior capricho, à Prainha. Não esqueço o incomparável cheiro a verão, a mar e a brincadeira que me fazia acordar todos os dias, chamar os meus primos e passar um dia daqueles, como só nessa altura passávamos.

A casa da minha avó era onde mais gostava ir aos sábados à tarde. Adorava comer bolo do caco ainda quente, acabado de cozer. E fazer um tão sem-número de travessuras com os meus primos, andar pelo meio das árvores, vindimas e plantações. O ar do campo faz–nos bem de vez em quando, eu que o diga. Foram tantas as vezes que lá ia e voltava duas vezes mais sujo e três vezes mais feliz.

Os fins-de-semana eram habitualmente passados em família, e que família! Julgo só ter decorado os nomes de todos os meus primos alguns meses depois de os conhecer.

Recordo-me muito bem dos primeiros medos que tive de enfrentar. As tempestades, as aranhas, o escuro… Até aos 3 ou 4 anos, dormia sempre com uma pequena luz acesa no meu quarto, até fundi-la e ter que aprender a dormir como “os adultos” dormiam. É estranho quando começamos a conhecer o mundo e a desmistificar algumas coisas.

Depois, quando entramos para a primária e somos obrigados a, simplesmente, aprender e a cumprir algumas regras… Aí é que parece que o mundo fica mais cinzento e a brincadeira toda acaba.

Foram grandes momentos. O sorriso de quem nos aturava e a cara dos colegas são coisas que ficam sempre. Desesperava pelo intervalo, por jogar no campo “dos grandes”, por jogar à apanhada, à meia-lua, tanta coisa. Ter que passar aqueles longos minutos antes a olhar pela janela, a planear a tarde, era mesmo algo inquietante. Na natação gastava as minhas últimas energias do dia. Ao fim da tarde e à noite, era a única oportunidade no dia para estar realmente em família.

Ainda me lembro bem quando tive TV Cabo e as horas que passei a ver o Canal Panda, e tantos outros canais que não me lembro de existirem. Nunca me deitava tarde, mas também nunca deixava nada a meio. Era fácil de conciliar.

Começar a conhecer o mundo foi, sem dúvida o maior “abre–olhos”. Lembro-me bem da primeira viagem ao Porto Santo, a Canárias, ao continente, e por aí fora. A descoberta das grandes cidades europeias, dos monumentos e paisagens que via na televisão fascinavam-me. A primeira vez que andei de avião foi algo impossível de verbalizar. Não consegui dormir na noite anterior, o caminho para o aeroporto era repleto de ansiedade e, até entrar no avião, estava sempre impaciente! O barulho dos motores, a sensação de deixar o chão firme, e ver a Madeira do ar, é algo que nos marca a infância. Acima de tudo, conhecer novos sítios, novas pessoas, diferentes culturas, novas maneiras de pensar, faz-nos crescer e dar mais valor ao sítio onde vivemos.

Posso dizer que tive uma infância muito feliz, tive as minhas aventuras, desventuras, fiz montes de asneiras (sabe mesmo bem), aprendi e conheci muitas coisas, mas a melhor delas foi saber e gostar de viver.

É bom acreditar que tudo é possível, fazer amigos antes de saber o nome deles e ter o dia mais feliz da vida todos os dias. Era bom nunca mais crescer. Mas, se os pequenos nunca fossem grandes, jamais saberiam a que sabe ser pequeno e ter o mundo na mão.

Marco Dinis
Estudante de Medicina

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