A arte que mora em cada um de nós

“Passear contigo, amar e ser feliz” é um dos versos da popular canção “Passear Contigo” dos Broa de Mel, tantas vezes utilizado de forma aprazível nas nossas conversas, como esta que faço hoje convosco.

Na realidade, facilmente poderíamos substituir o verbo passear pelo verbo conversar, pelo verbo pintar, dançar, cantar, tocar, enfim, tudo formas de expressão artística que de uma maneira ou de outra nos acompanham mais ou menos explicitamente no nosso quotidiano. É sobre esta arte que mora em cada um de nós que me proponho conversar convosco.

Conhecemos hoje rótulos como “tem escola” ou é “auto-didacta”, o que não sabemos ao certo é a fronteira que nos faz ultrapassar a escola que se tem e a arte que se desenvolveu. A ideia não será cansar-vos com formas teóricas de rotular artistas ou de perceber se se é melhor ou pior porque se tem ou não tem, escola. O importante é reconhecermos em cada um de nós potencial criativo que nos ajuda a viver e a encarar o que vida nos proporciona. Depois é claro, é importante encontrarmos a forma de exteriorizar a arte que há em nós, o que, dito assim, até parece simples.

Hoje é quase lugar-comum entrar-se em casa de amigos e conhecidos e vermos as transformações que acontecem no lar de cada um, ora em instalações improvisadas, ora em paredes que se fizeram telas ou em telas que decoram paredes, como se do exorcizar do inner ego se tratasse.

Onde queremos chegar quando falamos de arte, de artistas e do criador em cada um de nós? Onde começa este despertar? Qual o papel do educador nesta matéria? Qual a sua responsabilidade?

Longa vai já a discussão nesta matéria, mas nunca suficiente, porque mais do que incutir práticas de aprendizagem artística em cada um de nós, está o interesse em fazer descobrir a contribuição que cada um pode dar e a mais-valia que possa representar nas nossas vidas e na sociedade em que nos encontramos inseridos. Vamos utilizar a prática artística para exorcizar os nossos medos, as nossas inseguranças, as nossas tristezas, mas também as nossas alegrias e paixões.
Vamos aprender a transformar aquilo que nos move em partilha com o próximo, através da expressão artística. Vamos ganhar confiança e autonomia, descobrindo e construindo o potencial que há em nós.

Como podemos ensinar a fazê-lo? Como podemos aprender? Defendemos uma educação acompanhada pela prática sistemática de uma actividade artística? Defendemos a integração destas disciplinas em áreas curriculares obrigatórias na aprendizagem ao longo da vida? Queremos uma educação com arte integrada? Absolutamente!

No arranque da segunda década do século XXI, depois de se terem já atribuído tantas designações às manifestações artísticas da mais diversa ordem que, em última instância, na conclusão são entretenimento e no processo terapêuticas, começam a intensificar-se as vozes de que são igualmente educativas. Devem fazer parte das competências a adquirir durante o processo educativo e, mais do que um fim, podem ser um meio para se o atingir, ele próprio transversal, onde as barreiras encontradas são apenas aquelas que cada um criou para si.

De alguma forma temos que entender a existência de instituições que procuram, no entender de muitos, colmatar esta lacuna, proporcionando aos interessados toda uma gama de produtos artísticos pré-formatados. Fala-se em pré-formatação porque à priori já vêm com um pacote de “x” aulas, “y” momentos de avaliação e um espectáculo final que serve o prazer do público, entre os quais se encontram os familiares mais chegados e entusiastas, o prazer de quem promove como se fosse um troféu de dever cumprido, para não falar dos números que, esses sim, fazem as delícias de quem financia.

Falta-nos o fio condutor desde que temos consciência “de que somos gente” até à hora de que já nada nos resta senão o que à nossa volta construímos. Falta-nos termos sempre presente, que esta preciosa ferramenta que se chama criatividade, deve ser estimulada, independentemente da forma que possa ou não adquirir.

Porque todos temos um “Milagrário Pessoal” dentro de nós, deixo-vos estas palavras transcritas da obra de Agualusa (2010), tão facilmente ilustrado com imagens que podem ser reproduzidas de qualquer forma artística, mas que partilho convosco através daquilo que hoje ainda une milhões: a língua portuguesa.

«No princípio os homens não falavam. Nenhum animal falava, excepto os pássaros. Havia um saco com palavras que estava à guarda da Andua. Foi então que apareceu um rapaz com um único braço, uma única perna e só metade da cabeça. O rapaz roubou o saco das palavras, abriu o saco e meteu as palavras à boca. Na manhã seguinte, quando despertou, era uma pessoa inteira, mas metade rapaz e metade rapariga. Além disso falava, e a sua língua era ágil e harmoniosa como a dos pássaros.» De um conto tradicional ovimbundo, em Selecção de Contos, Provérbios e Adivinhas em Umbundo, de Jeremias Capitango.

E foi como se de uma conversa de café se tratasse.

Teresa Dias
Licenciada em História Variante de História da Arte
Mestranda em Relações Interculturais

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