Em português escorreito

Como considerou Ferdinand de Saussure (1871-1913), o fundador da Linguística Moderna, a arbitrariedade é uma característica do signo linguístico. Contudo, por vezes, é possível encontrar uma justificação para a formação de alguns signos, visto que derivam de outros, embora, com o tempo, se perca a explicação que esteve nessa origem. Os dicionários podem ter, então, um papel relevante para compreender a ortografia das palavras, ou melhor, os significantes (e não só) dos signos linguísticos. Consultá-los ajuda a melhorar a escrita.

1.
Dois_________________assaltaram um banco.
Mas foram,rapidamente, capturados pela polícia.

encapuchados / encapussados / encapusados / encapuzados

SOLUÇÃO
Dois encapuzados assaltaram um banco, mas foram, rapidamente, capturados pela polícia.

EXPLICAÇÃO
O termo “encapuzado” significa “recoberto com capuz” e é o particípio passado de “encapuzar” (formado com o prefixo “en” e o sufixo “ado”), que, na frase facultada, funciona como substantivo. Uma vez que é constituído a partir de “capuz”, deve escrever-se com “z”. A palavra “capuz” é sinónima de “capucho”, tendo ambas uma mesma acepção: “parte da capa ou de outra vestimenta que serve para cobrir a cabeça”. Porém, a “capucho” estão, além deste, associados outros sentidos. Embora gráfica, a grande diferença entre os dois termos é a sua proveniência. Enquanto “capuz” será oriundo do castelhano (idêntico: “capuz”), “capucho” terá origem no italiano (“cappuccio”), justificando as respectivas terminações. Este é um caso que evidencia a riqueza lexical do Português.

2.
Foste escolhido.
És um _______________________ !

previlegiado / perveligiado / perviligiado / privilegiado

SOLUÇÃO
Foste escolhido. És um privilegiado!

EXPLICAÇÃO
Sendo, nesta frase, usado como substantivo, o adjectivo – e particípio passado – “privilegiado” está relacionado com “privilégio”. A origem encontra-se no Latim (privilegìum,ìi) com o sentido de “lei específica, isolada, aplicada num determinado caso ou a poucas pessoas” (“privada + lei”). Articular a vogal “i” em duas sílabas consecutivas (“privi”) pode não ser fácil. No registo oral, com frequência, para diferenciar ambas, realizamos um fenómeno de dissimilação com um “e” na primeira sílaba (“previ”). Isto também se poderá explicar pela analogia com o considerável número de vocábulos que começam com “pre-“, em Português. Ainda no registo oral, pode acontecer um fenómeno de interversão com a “troca” de posição da vibrante e da vogal (“pre” > “per”). Para “privilégio”, e grande parte do vocabulário português, a Ortografia é etimológica e a pronúncia pode dificultar a grafia.

Helena Rebelo
Professora da UMa

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