Estórias do arco da velha

– Papá. Quem és? Conheço de cor esse verde azeitona que preenche o poço dos teus olhos: são o espelho dos meus. Mas quem és? Quando foi que nos perdemos? Quando foi que desfizemos a malha da nossa camisola – que nos ficava tão bem, que nos apertava um ao outro, onde éramos pai, filha, amigo, amiga, cúmplices. Para onde foste? Vejo-te – ainda que pouco – mas não te sinto. E tu, papá, conheces-me? Sabes de que fibra sou feita, que sonhos acrescento a cada dia, que medos me assolam, que sorrisos trago? Não sabes. Um conhecido atento sabe mais sobre mim que tu.

Limpo as lágrimas.

– Papá. Para onde fomos? Guardo memórias tão boas por detrás de um nevoeiro que me atraiçoa. Tenho receio: de esquecer o que lembro; de não conseguir lembrar o que já foste, o que já fomos. Há quanto tempo não me tocas, não me cheiras, não olhas para dentro de mim? Dentro! Não a carne que eu sou: mas o espírito. Há quanto tempo não lambes as minhas feridas ou sacodes os meus ombros quando estou errada? Já me perdi nos anos.

Escrevo hoje para ti. E choro.

-Papá. Amas-me? Diz-me que sim mesmo que não o sintas. Prefiro viver na ilusão de um amor: congelado, escondido, perdido nas gavetas da minha infância.
Sinto-me melhor agora. Queria que soubesses que eu sei que somos um retrato falso. E que, a maior parte das vezes, isso não me incomoda, mas hoje sinto-me menina – menina descalça na fazenda, menina nos baloiços, menina na escola, menina de tranças – e, quando estou assim, sinto a tua ausência.

-Papá. Será que voltas?

A mulher-menina releu a carta e dobrou-a em quatro, metendo-a no caderno das confissões. Pegou na bolsa e beijou a mãe com fúria: um obrigada depositado nas bochechas de quem a cheirava, de quem a conhecia de trás para a frente, de quem a acudia sempre, para sempre.

– Bom fim-de-semana, querida.

E a rapariga saiu: a casa do pai esperava-a, com as suas marione-
tas e o seu teatro ensaiado.

Valentina Silva Ferreira

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