A Noite Europeia dos Investigadores foi também palco para o protesto de quem trabalha na ciência. Na sexta feira, realizaram-se ações de sensibilização em Aveiro, Coimbra, Lisboa e Porto, promovidas por três organizações representativas dos trabalhadores do setor. Segundo o PÚBLICO, a precariedade e o financiamento insuficiente estiveram no centro das reivindicações. Dados do Observatório do Emprego Científico e Docente indicam que cerca de 4000 investigadores tiveram contratos a prazo desde 2017. A estes juntam-se aproximadamente 8000 bolseiros de investigação e professores com contratos anuais.
O protesto aconteceu num período de transformação do sistema científico. O Governo aprovou recentemente a nova Lei da Ciência e Inovação, depois da revisão do regime jurídico do ensino superior e da extinção da Fundação para a Ciência e a Tecnologia, que dará lugar, juntamente com a Agência Nacional de Inovação, à Agência para a Investigação e Inovação. As organizações contestaram também alterações introduzidas no governo das instituições de ensino superior. A nova legislação passou a utilizar a expressão “docentes e investigadores de carreira” nas normas relativas à composição do Conselho Geral e à eleição do reitor, uma distinção que não existia anteriormente e que exclui parte dos trabalhadores precários destes processos.
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As reivindicações foram além da participação nos órgãos académicos. A Fenprof, a Associação dos Bolseiros de Investigação Científica e a Federação Nacional dos Sindicatos dos Trabalhadores em Funções Públicas e Sociais defenderam um aumento das verbas destinadas às instituições científicas e de ensino superior e financiamento público para o emprego científico de doutorados. Reclamaram ainda a participação dos representantes dos trabalhadores na discussão da Lei da Ciência e Inovação, depois de não terem sido ouvidos durante a preparação do diploma. Entre as exigências esteve também o fim do Estatuto do Bolseiro de Investigação e a transformação das bolsas em contratos de trabalho. A segunda edição do programa FCT Tenure, destinado a comparticipar a contratação de doutorados pelas instituições, tem sido adiada nos últimos dois anos.
A iniciativa constituiu a segunda manifestação de investigadores em apenas três meses. Em julho, dezenas de cientistas tinham-se concentrado junto ao Centro de Congressos de Lisboa, durante o Encontro Ciência e Inovação 2026, onde estiveram o primeiro ministro, Luís Montenegro, o ministro da Educação, Ciência e Inovação, Fernando Alexandre, e a secretária de Estado da Ciência e Inovação, Helena Canhão. Desta vez, as organizações escolheram uma ocasião dedicada precisamente à aproximação da investigação à sociedade para voltar a chamar a atenção para as condições em que trabalham milhares de pessoas no sistema científico português.
Carlos Diogo Pereira
ET AL.
Com fotografia de Stephan Whop.
