A reflexão de Pedro Póvoa no Expresso parte de uma ideia simples e exigente. A transformação da medicina não resulta de uma rutura com o conhecimento acumulado, mas da velocidade com que mudam as doenças, as expectativas sociais e as tecnologias disponíveis. Nesse contexto, a formação médica deixa de poder assentar apenas na transmissão de conteúdos científicos e passa a exigir uma preparação mais ampla para lidar com a incerteza, com contextos clínicos mutáveis e com responsabilidades crescentes perante os doentes e a sociedade.
O autor identifica três eixos que devem estruturar essa mudança. O primeiro é a literacia de futuros, entendida como a capacidade de pensar o futuro de forma informada, antecipando cenários e tomando decisões num quadro em que a evidência ainda está em construção. Não se trata de prever com rigor o que virá, mas de formar médicos capazes de reconhecer riscos sistémicos, trabalhar com incerteza e participar ativamente na definição de futuros desejáveis para a saúde.
A expansão do curso de Medicina não acontece como esperado
O PEÇO A PALAVRA, na antena da TSF e em podcast, em parceria com a ACADÉMICA DA MADEIRA, debateu a evolução e o impacto do curso de Medicina. Ao contrário do que o reitor da UMa afirmou, a entrega do plano de expansão para os outros anos “não ocorrerá” como indicado.
Estudantes deslocados: uma realidade anual no curso de Medicina
À semelhança dos anos letivos anteriores, verifica-se, em 2022-2023, há um número considerável de estudantes deslocados no Ciclo Básico em Medicina
O segundo eixo prende-se com as competências digitais, que deixaram de ser um complemento opcional. Pedro Póvoa sublinha que dominar sistemas de informação, telemedicina, proteção de dados e avaliação crítica da inteligência artificial é hoje uma condição básica de qualidade, segurança e equidade nos cuidados de saúde. A educação médica, defende, tem de integrar de forma estruturante estas dimensões, garantindo uma base comum que permita usar a tecnologia sem perder o controlo ético e clínico das decisões.
O terceiro eixo, talvez o mais sensível, é o humanismo clínico. Num tempo de elevada sofisticação tecnológica, o risco não está na substituição do médico pela máquina, mas na erosão da relação de cuidado. O texto alerta para a necessidade de proteger deliberadamente a dimensão humana da medicina, reforçando a formação em comunicação, empatia e ética, incluindo nos dilemas digitais. A articulação entre literacia de futuros, competências digitais e humanismo surge, assim, como condição essencial para formar médicos capazes de decidir com rigor técnico e responsabilidade humana num mundo cada vez mais complexo.
Carlos Diogo Pereira
ET AL.
Com fotografia de David Matos.