As mais de 60 mil candidaturas apresentadas na primeira fase do concurso nacional de acesso ao ensino superior foram recebidas com satisfação pelas universidades e pelas universidades politécnicas. Depois da quebra registada em 2025, os responsáveis pelo setor veem na recuperação um sinal de confiança dos jovens, ainda que reconheçam que parte deste crescimento poderá resultar do regresso de estudantes que, no ano passado, ficaram de fora ou optaram por não concorrer.
Para Luís Ferreira, presidente do Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas, a principal explicação encontra-se na alteração das regras de acesso. Ao PÚBLICO, o responsável afirma que a possibilidade de voltar a concorrer com apenas uma prova de ingresso “será certamente a principal razão” para o aumento de candidatos. Recorda ainda que uma análise do gabinete da secretária de Estado do Ensino Superior concluiu que a exigência de duas provas terá sido responsável por cerca de 46% da redução de estudantes colocados em 2025, impedindo o ingresso de aproximadamente 2.800 candidatos.
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O Governo decidiu devolver às instituições a liberdade de exigir apenas uma prova de ingresso, após a regra das duas provas ter reduzido o número de novos estudantes no ensino superior público.
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Apesar da recuperação, nem todos olham para estes números sem reservas. Luís Ferreira considera que a redução da exigência poderá ter consequências dentro das próprias instituições. “Quando diminuímos a fasquia de entrada na universidade, o que vai acontecer é que estes alunos vão ficar retidos. Muitos vão desistir logo no 1.º ano”, afirma, admitindo que o problema poderá apenas ser transferido do acesso para o percurso académico, contribuindo para manter elevadas as taxas de abandono.
Nos antigos institutos politécnicos, entretanto convertidos em universidades politécnicas, a leitura é diferente. Luís Loures, presidente do Conselho Coordenador dos Institutos Superiores Politécnicos, entende que a alteração das regras veio eliminar uma barreira desnecessária ao ingresso. Ao diário, sustenta que “não são duas horas que definem a qualidade de um aluno” e que diferenças reduzidas nas classificações dos exames não justificam a exclusão de milhares de candidatos. Na sua perspetiva, o aumento das candidaturas demonstra que foram criadas “soluções para os nossos jovens”.
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A 3.ª fase do CNA fechou com 1382 colocados e uma taxa global de ocupação de 81,9 por cento, totalizando 45 290 novos estudantes nas três fases, menos 5322 do que em 2024, com assimetria acentuada entre universidades e politécnicos.
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Também os estudantes acompanham a evolução com prudência. Pedro Neto Monteiro, presidente da Federação Académica de Lisboa, considera que os números afastam, pelo menos por agora, a ideia de uma perda de confiança no ensino superior. Ainda assim, defende que as instituições precisam de aproximar a oferta formativa das necessidades do mercado de trabalho e reforçar a ligação aos estudantes, para que o aumento das candidaturas se traduza em percursos académicos bem-sucedidos.
O processo continua, contudo, marcado pelos efeitos dos problemas ocorridos na classificação dos exames nacionais. Muitos estudantes apenas conhecerão as classificações definitivas após a época especial de setembro, chegando às instituições quando o ano letivo já tiver começado. Perante este cenário, várias universidades admitem adiar o início das aulas dos estudantes do primeiro ano ou criar mecanismos de recuperação, procurando minimizar o impacto de um calendário que voltou a colocar o acesso ao ensino superior sob forte pressão.
Carlos Diogo Pereira
ET AL.
Com fotografia de Eliabe Costa.
