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Ensino superior condicionado pela geografia e pelo rendimento

Ensino superior condicionado pela geografia e pelo rendimento

Um estudo recente confirma que as condições económicas das famílias e o local de residência continuam a pesar de forma decisiva nas escolhas e percursos dos estudantes do ensino superior em Portugal.

O acesso ao ensino superior em Portugal permanece fortemente condicionado por fatores económicos e geográficos, apesar do aumento global da frequência universitária nas últimas décadas. De acordo com dados analisados pelo Expresso, os estudantes provenientes de contextos socioeconómicos mais desfavorecidos continuam a apresentar maiores dificuldades em escolher cursos e instituições fora da sua área de residência, optando muitas vezes por soluções que minimizam custos imediatos.

O local onde se vive assume, assim, um papel central nas trajetórias académicas. Jovens oriundos de regiões periféricas ou do interior tendem a privilegiar instituições próximas de casa, mesmo quando os seus resultados escolares permitiriam o acesso a cursos mais competitivos noutras cidades. Esta realidade é agravada pelo custo elevado do alojamento, sobretudo em Lisboa e no Porto, que funciona como um verdadeiro filtro social no momento da decisão.

O impacto das condições económicas reflete-se também na escolha das áreas de estudo. Segundo o mesmo levantamento, estudantes de famílias com menores rendimentos demonstram maior propensão para cursos com percursos mais curtos ou com perceção de inserção profissional mais rápida, relegando opções académicas que exigem maior investimento financeiro e temporal. A lógica da sobrevivência imediata sobrepõe-se, muitas vezes, à vocação ou ao interesse científico.

Apesar do reforço das bolsas de estudo e de outras medidas de ação social, os apoios existentes continuam a revelar-se insuficientes para compensar as desigualdades de partida. A atribuição de bolsas não cobre integralmente despesas como rendas, transportes ou materiais, deixando muitos estudantes dependentes do apoio familiar ou obrigados a conciliar os estudos com trabalho remunerado.

Esta combinação de estudo e trabalho tem efeitos diretos no percurso académico, com maior risco de reprovações, prolongamento da duração dos cursos ou abandono. O Expresso sublinha que estas situações não são marginais e afetam, de forma desproporcionada, estudantes de contextos socioeconómicos mais frágeis, perpetuando ciclos de desigualdade no acesso às qualificações superiores.

O retrato traçado evidencia que o ensino superior português continua longe de funcionar como um verdadeiro mecanismo de mobilidade social plena. Enquanto as condições económicas e o território continuarem a moldar de forma tão determinante as escolhas dos estudantes, o sistema arrisca-se a reproduzir desigualdades estruturais, mesmo num contexto de crescimento quantitativo da população universitária.

Carlos Diogo Pereira
ET AL.
Com fotografia de Yaroslav Talyzin.

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