Durante 21 anos da minha vida, nasci e cresci em Câmara de Lobos, na Madeira, entre o mar e a serra, envolvido por um sentimento de pertença, que só as ilhas conseguem oferecer. Ao fim desse tempo, senti que era altura de partir, de me colocar à prova fora do conforto da ilha e procurar novas formas de crescer. Assim, fiz as malas e rumei ao Porto para iniciar o mestrado em Ensino de Educação Física e Desporto no Ensino Básico e Secundário.
Embora esta fosse a minha primeira experiência a viver no continente, o desafio de ser estudante deslocado já me era familiar, pois, no ano letivo de 2023-2024, tive a oportunidade de estudar durante um semestre em Varsóvia, Polónia, ao abrigo do programa Erasmus. No entanto, viver no Porto trouxe um novo tipo de desafio: estar longe da minha terra, mas dentro do meu próprio país, num contexto académico exigente e ao mesmo tempo profundamente transformador.
Ao contrário do que ocorre com muitos estudantes deslocados, cujo início é marcado pela solidão e pelo medo do desconhecido, tive a sorte de encontrar um Porto já habitado por amigos, alguns já residentes há anos e outros que, tal como eu, chegaram para o mestrado. Esse apoio foi essencial para suavizar o processo de adaptação, fazendo com que nunca me sentisse sozinho. Pelo contrário, encontrei nesta nova etapa uma extensão do que já me era familiar, embora agora marcada por novas paisagens, sotaques e rotinas.
E quando a UMa tiver 25% de madeirenses como estudantes?
O tema está a ser falado na Universidade de Edimburgo, mas livre de qualquer discurso de preconceitos sobre estrangeiros ou estudantes oriundos de outras partes do país. A intenção é assegurar uma boa adaptação dos escoceses.
A escola também é nossa
Martim Paquete Peixoto escreve na edição do DIÁRIO sobre a importância da participação cívica dos jovens.
Vivi numa residência privada na zona do Hospital de São João, a poucos minutos a pé da faculdade, o que me permitiu manter um equilíbrio saudável entre os estudos, as responsabilidades do dia a dia e o convívio social. Esta proximidade foi importante, mas ser estudante deslocado exigiu muito mais do que organização logística, implicando também uma adaptação marcada por um processo de amadurecimento que começa quando se deixa o conforto da casa dos pais e se assume inteiramente a gestão da própria vida. Entre horários de estudo, refeições a preparar, roupa a tratar e compromissos a cumprir, fui desenvolvendo a capacidade de gerir ritmos, definir prioridades e manter o foco. Mais do que uma etapa académica, esta experiência foi um exercício contínuo de construção pessoal, no qual fui conciliando diferentes dimensões da vida e fortalecendo uma identidade mais responsável, onde o estudante, o amigo, o cozinheiro e o gestor de tempo não competem entre si, mas se complementam.
Houve muitos momentos marcantes ao longo desta jornada. Os mais positivos foram, sem dúvida, aqueles vividos no convívio com amigos: jantares improvisados, fins de tarde repletos de conversas leves e gargalhadas genuínas que me faziam sentir em casa. Paralelamente, aproveitei esta nova fase para conhecer mais o território continental, visitando cidades como Viseu, Braga, Penafiel, Lisboa ou Póvoa de Varzim. Cada viagem foi uma oportunidade de alargar horizontes, acumular experiências e construir memórias que ficarão para além da vida académica.
Mas nem tudo foi fácil. Lembro-me, em especial, do regresso à Madeira no Natal. Voltar a casa, reencontrar a família e os amigos e sentir a intensidade das festas e o calor próprio do convívio familiar, tão característicos da ilha, tornou-se particularmente difícil o regresso ao Porto, no início de janeiro. Retomar a rotina num momento exigente de preparação para os exames implicou um confronto direto com o peso das escolhas e das responsabilidades assumidas. Contudo, são precisamente esses momentos, que testam a nossa resistência emocional e o sentido de compromisso, que mais contribuem para nos moldar e fazer crescer.
Longe da vista, longe do coração
Mafalda Brazão escreve na edição do DIÁRIO sobre “o crescimento, por nós sustentado, de ideologias políticas incendiárias que ameaçam deixar os vulneráveis mais vulneráveis”.
A medicina em Portugal precisa de um médico, mas qual?
A expansão do curso de Medicina na Madeira enfrenta entraves estruturais e a falta de docentes, refletindo um problema mais amplo
A quem está prestes a sair de casa para estudar fora, deixo uma mensagem simples: vai, sem medos. Este é um dos passos mais importantes e decisivos da vida, que nos tira da zona de conforto e nos obriga a crescer, mesmo quando o caminho parece incerto. Haverá, certamente, desafios, mas também conquistas que justificam todo o esforço e sacrifício. É preciso lutar pelos nossos sonhos e objetivos, pois são eles que nos guiam e motivam a continuar. Ser aluno deslocado vai muito além de estudar noutra cidade, é uma oportunidade única para descobrir quem realmente somos quando estamos longe de tudo o que nos é familiar. E isso muda-nos para sempre.
Pedro Miguel Freitas
Presidente da Mesa do C. D. Académica da Madeira
Com fotografia de Jeshoots.
Artigo de opinião publicado no DIÁRIO DE NOTÍCIAS da Madeira. O PEÇO A PALAVRA é um podcast produzido pela ACADÉMICA DA MADEIRA e pela TSF Madeira 100FM.