Quando penso no estado atual do mundo, nos conflitos que um dia sonhámos nunca mais testemunhar, embalados pela esperança de que, desta vez, aprenderíamos finalmente com o passado, apenas me ocorre o velho ditado: “longe da vista, longe do coração”. No entanto, esta frase parece não encaixar no contexto presente. A nossa “vista” é diariamente inundada por notícias desastrosas, a relatar os mais recentes bombardeamentos, ao mesmo tempo que nos deparamos com imagens desoladoras ,partilhadas nas redes sociais, de crianças a morrer à fome. Por isso, resta-me suspeitar que tudo isto estará apenas “longe do” nosso “coração”.
A disseminação das redes de informação permitiu-nos aceder, indiscriminadamente, a conhecimentos previamente reservados a elites detentoras de informação privilegiada. Hoje é praticamente impossível desconhecer os pormenores dos conflitos no mundo e das crises humanitárias que assolam populações inteiras, dificultando alegações de ignorância. Facto é que, quanto mais distantes os problemas, menos nos responsabilizamos pela sua resolução, e o mais fácil é sempre tentar esquecer desde que não esteja a acontecer connosco. Questiono-me se, como seres humanos, estaremos limitados a acionar as nossas capacidades interventivas apenas na iminência de uma ameaça direta. Neste momento, a empatia pelos outros resume-se ao comentário circunstancial “ coitados, que desgraça”.
A medicina em Portugal precisa de um médico, mas qual?
A expansão do curso de Medicina na Madeira enfrenta entraves estruturais e a falta de docentes, refletindo um problema mais amplo do SNS, onde medidas paliativas substituem reformas essenciais para fixar profissionais e garantir um futuro sustentável para a saúde pública.
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Na Feira do Livro do Funchal de 2025, celebramos Camões e a leitura como antídoto à ignorância — num país onde
Bem perto de nós, não assistimos a disputas armadas ou emergências humanitárias, mas observamos passivamente correntes disruptivas de discórdia e ódio a infiltrarem-se nas nossas instituições democráticas, acentuando diferenças que só existem para alimentar segregacionismos. Acompanhamos em primeira mão o crescimento, por nós sustentado, de ideologias políticas incendiárias que ameaçam deixar os vulneráveis mais vulneráveis, ao mesmo tempo que forças partidárias outrora reconhecidas por princípios fundamentalmente democráticos vacilam em virtude da sobrevivência política. A nossa dessensibilização para o sofrimento dos nossos conterrâneos do mundo parece ter como único limite as fronteiras da nossa individualidade.
Proponho um exercício coletivo que, apesar de abstrato, cumpre o propósito de nos relembrar o que nos aproxima mais do que o que nos divide. Em Uma Teoria da Justiça, John Rawls desenvolve o conceito de “posição original” em que sob um “véu de ignorância”, – traduzido no desconhecimento total da nossa lotaria genética e social, bem como o que futuro nos aguarda – um indivíduo escolheria princípios de justiça que privilegiassem a equidade. Sugiro então que nos transportemos todos os dias para a “posição original”, cegos sobre quem poderíamos ser ou onde iríamos acordar. Imaginemos o que seria ser um palestiniano sob fogo, um ucraniano em fuga, uma criança faminta, um imigrante em Portugal, um indivíduo transgénero, homossexual, uma mulher e tentemos equilibrar a balança.
Mafalda Brazão
Responsável da Secção de Promoção da Saúde da ACADÉMICA DA MADEIRA
Com fotografia de Marjan Blan.
Artigo de opinião publicado no DIÁRIO DE NOTÍCIAS da Madeira. O PEÇO A PALAVRA é um podcast produzido pela ACADÉMICA DA MADEIRA e pela TSF Madeira 100FM.