Ao finalizarmos o ensino obrigatório, encerramos uma grande etapa do nosso percurso formativo cujo papel na consolidação do caráter dos jovens, que serão os principais agentes ativos da sociedade, é irrefutável. Do leque de caminhos que podem ser tomados, um número crescente de jovens opta pelo Ensino Superior. Esta transição representa, para estes recém maiores de idade, o primeiro passo em direção à independência. Contudo, o “mundo dos adultos” apresenta os seus próprios desafios, e o Ensino Superior não é exceção.
Ao tornar-se adulto, exige-se ao jovem que tenha competências fundamentais como a autonomia, gestão financeira, emocional e sobretudo um espírito crítico, todas elas essenciais à prossecução da formação superior. Efetivamente, quando ingressamos no Ensino Superior deparamos-nos com um modelo de ensino despersonalizado que exige uma autonomia incomparável à do ensino secundário, gerando em muitos estudantes um sentimento de desorientação altamente desmotivante. Facto é que muitos jovens não têm oportunidade de desenvolver essas competências no seio familiar, o que dificulta severamente a sua adaptação ao Ensino Superior.
Das muitas frentes de batalha do bem-estar dos estudantes do Ensino Superior, não posso deixar de mencionar o insucesso académico, a componente financeira e o impacto de uma má gestão da vida académica na saúde dos universitários.
Como se posiciona face ao futuro e à vida?
Na vida assume, tendencialmente, o papel de condutor ou de passageiro? Ainda que não tenha controlo sobre todos os acontecimentos, pode decidir como se posiciona face aos mesmos, ou seja,
As universidades legitimam as praxes?
Hoje, às 16:00, há emissão em direto do PEÇO A PALAVRA. O sociólogo e economista Jonas Van Vossole e a psicóloga
Como estudante de medicina, é evidente que no nosso percurso académico somos acompanhados por um fantasma indesejado: o estigma de que as classificações que obtemos durante o curso condicionarão o resto da nossa vida profissional. Estes padrões irrealistas são os pilares de uma definição de sucesso académico que, a meu ver, contribui mais para a debilitação da saúde mental do que para a formação de profissionais eficientes. No passado mês de novembro, a ET-AL, o diário eletrónico da AAUMa, publicou sobre a pressão e exaustão extrema vivida pelos estudantes de medicina na época de preparação para a PNA, cuja nota definirá a sua colocação na especialidade ambicionada. O efeito desta avaliação na integridade física e psicológica destes jovens é assustador e exemplifica as consequências de uma criterização redutora das qualidades pretendidas num profissional competente.
É imperativo referir ainda o papel dos recursos financeiros no bem-estar dos estudantes. Sem os meios adequados, haverá uma maior dificuldade em aceder a habitações com locais de estudo apropriados, a uma alimentação mais cuidada, a ferramentas de trabalho mais modernas para organização do estudo e muitos outros.
Outro revés diz respeito à conciliação da vida pessoal, com o estudo e outras esferas da Academia. Muitos estudantes têm uma determinação admirável em integrarem-se na comunidade académica, seja pela presença em todos os convívios, pelo Associativismo ou pela adesão a outros coletivos. Todas as experiências que promovam a integração são uma mais valia. Porém, se não existir uma gestão equilibrada destas atividades, com o estudo e outros interesses pessoais, a sobreposição de compromissos acompanhada por uma sobrecarga de responsabilidades culminará numa espiral descendente marcada por stress, privação do sono e alimentação inadequada.
Apelo, assim, a todos os interessados na formação de profissionais competentes e saudáveis, para que sejam sensíveis às adversidades enfrentadas pelos estudantes, sublinhando a importância da implementação de medidas que concorram para o seu bem-estar.
Mafalda Brazão
Responsável da Secção de Promoção da Saúde da Académica da Madeira
Com fotografia de Alexis Brown.