Estamos a criar uma ditadura do sucesso?

Estamos a criar uma ditadura do sucesso?

Depois do final da 1.ª fase dos Exames Nacionais, quando perto de 157 mil estudantes se submeteram às provas que determinam a entrada numa licenciatura de quase metade dos estudantes que se apresentaram a exame, a ansiedade é grande para confirmar se as respostas estão certas até que as notas sejam divulgadas, no próximo dia 15 de julho.
Gonçalo Moura, psicólogo, e Afonso Caldeira Alves, estudante, foram os convidados do PEÇO A PALAVRA emitido a 3 de julho de 2024 na TSF MADEIRA, numa parceria com a ACADÉMICA DA MADEIRA.

O episódio do PEÇO A PALAVRA desta quarta-feira trata sobre um assunto que domina a vida de milhares de jovens, todos os anos, em Portugal. Os Exames Nacionais e o ingresso no ensino superior. No painel, além de Ricardo Miguel Oliveira a moderar, estará Maria Beatriz Ricardo, da unidade de Gestão de Voluntariado, e Francisco Afonseca, da unidade de Política do Ensino Superior na Académica da Madeira. Como convidados, Afonso Caldeira Alves, estudante do 12.º ano de escolaridade na Escola Secundária de Jaime Moniz, e Gonçalo Moura, psicólogo que tem trabalhado a avaliação e a intervenção psicológica com adolescentes e adultos, em quadros depressivos e ansiosos, perturbações de pânico e fobias, luto, stress, desenvolvimento pessoal e perturbações de personalidade.

Os Exames Nacionais são a grande porta de entrada para o ensino superior em Portugal, uma etapa decisiva para que os estudantes possam ser futuros profissionais com uma empregabilidade e remuneração superiores à média nacional. Além de uma questão vocacional e de uma ambição pessoal, o ingresso num curso superior permite aumentar vários indicadores no mercado de trabalho. Segundo a Fundação José Neves, mais de 80% dos jovens com ensino secundário ingressam no ensino superior.

Os estudantes falaram de empregabilidade

No segundo episódio do PEÇO A PALAVRA o painel debateu o futuro profissional dos jovens, com o empresário Márcio Nóbrega e o investigador Celso Nunes. A procura de emprego, as entrevistas de trabalho, a progressão na carreira, o ambiente laboral foram outras temáticas tratadas.

Os dados da fundação ilustram, ainda, a diferença salarial entre jovens com o ensino superior e com o ensino secundário atingiu mínimos históricos. Em 2011 era de 50%, baixando para 27% em 2022. A universalização do ensino superior tenderá a reduzir esse hiato, com um futuro que terá as qualificações superiores como um modelo de candidato para a generalidade das vagas. Na década de 1970, apenas 15% dos jovens foram para o secundário. A fundação aponta objetivos para “uma sociedade do conhecimento em 2040 e indica linhas de ação” que prevê “15% de adultos com baixa escolaridade, menos 25 pontos percentuais face a 2022, 60% de jovens adultos com ensino superior, mais 16 pontos percentuais”.

Atualmente, segundo os dados da Direção-geral do Ensino Superior, existem 97 instituições em Portugal, que lecionam 5528 cursos, sendo 4253 no ensino superior público. Em 2023, existiam 359.397 estudantes matriculados no setor público (DGEEC/MECI, PORDATA), um valor muito superior aos 77.501 estudantes que se registava em 1978 ou aos 273.530 matriculados no início deste século. Este crescimento apenas foi abrandado nos anos em que Portugal sofreu intervenção externa da troica.

Há algumas semanas, num artigo muito comentado, a jornalista Bárbara Reis escrevia “sobre os jovens adultos hipersensíveis, hiperfrágeis, hipertudo”. Não há dúvidas que, para muitos jovens que se candidatam ao ensino superior, se trata de um período de grande ansiedade, stress e até depressão. A 15 de julho, os resultados serão públicos e esses sentimentos irão aumentar ou desvanecer.

Francisco Afonseca do painel do PEÇO A PALAVRA

Os dados acabam por corroborar o ambiente que as famílias e os jovens experienciam no final do ensino secundário. No ano letivo 2021-2022, 42,2% dos jovens apresentavam uma “sintomatologia depressiva”, um valor que aumentou para 45% no ano letivo 2022-2023. Os dados são do estudo “Mais Contigo” que analisou cerca de 13 mil adolescentes, numa iniciativa da Escola Superior de Enfermagem de Coimbra. Além disso, entre os estudantes do 3.º ciclo e do secundário, o estudo refere os indícios e as manifestações de depressão moderados (14,8%) ou graves (15,3%).

Sofia Ramalho, vice-presidente da Ordem dos Psicólogos, em declarações à Renascença, referiu que “tem sido crescente o número de alunos, de estudantes, nomeadamente no secundário, mas também no próprio ensino superior, que manifestam sintomatologia ansiosa associada muito particularmente às questões académicas”. Para a psicóloga, trata-se de “uma ansiedade que interfere com a sua saúde mental quando estão perante questões de desempenho académico, seja no secundário, seja no ensino superior”.

Sobre o modelo fechado do sucesso, Sofia Ramalho alerta que “estamos a criar jovens e adultos cada vez mais ansiosos, a partir do momento em que permitimos que este tipo de situações aconteçam, que este foco nos resultados, o foco no sucesso aconteça, porque isto interfere com várias componentes do ponto de vista da nossa saúde mental”.

O PEÇO A PALAVRA é um espaço em que o Ensino Superior, a Ciência e a Tecnologia estão em debate, porque os estudantes pediram a palavra. O seu nome tem origem na intervenção que tornou célebre o jovem líder estudantil em Coimbra Alberto Martins e espoletou a Crise Académica de 69. Trata-se de uma produção da TSF Madeira 100 FM com a Académica da Madeira, transmitida em direto, quinzenalmente às quartas-feiras, às 16:00, e disponível em podcast, nas principais plataformas do mercado.

Luís Eduardo Nicolau
e Carlos Diogo Pereira
Com fotografia de Henrique Santos.