O repúdio sem vergonha

Vera Duarte, 'alumni' da Universidade da Madeira e voluntária da ACADÉMICA DA MADEIRA, escreve um artigo de opinião sobre a nota que o ministério que tutela o Ensino Superior fez repudiando as praxes académicas.

Elvira Fortunato, Ministra da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, repudiou as praxes e pediu um “ambiente académico inclusivo, inspirador e seguro”.

Enviou, inclusive, uma carta aos dirigentes das associações e federações de estudantes e aos dirigentes das instituições de ensino superior “para garantir a defesa desse ambiente académico positivo, que esteja alinhado com os princípios da liberdade, da tolerância e da solidariedade” e pediu, claramente, o combate às praxes.

Estamos de acordo quando se defende que as praxes abusivas devem ser denunciadas, mas não podemos menosprezar aquilo que de bom continua a haver em muitas faculdades do país.

A Ministra fala com uma superficialidade e falta de conhecimento que são até penosas.

As praxes não têm, na sua maioria, como a própria reitera, “por base, injustamente, a defesa da preservação de tradições académicas” ou “práticas de integração humilhantes e abusivas”.

Crer na tese de que as praxes são, todas elas, um hediondo crime contra estudantes universitários é crer, igualmente, que, em tantos e tantos anos, os nossos estudantes não tiveram voz quando ela foi necessária. E que as associações e federações de estudantes e mesmo os dirigentes das instituições de ensino superior foram coniventes com estes comportamentos.

Numa era como a nossa, e mesmo nas anteriores, isso é impensável.

Foi na praxe que eu conheci muita gente, gente do meu curso e de outros. Foi na praxe que eu me senti recebida, integrada, que conheci melhor a minha universidade, que ganhei coragem para me envolver em projetos académicos e que me senti aluna desta casa. Ri muito, trabalhámos em equipa e ficámos com recordações para a vida. Fomos chamados à atenção, mesmo enquanto praxistas, e isso ensinou-nos a estar no nosso lugar. É difícil descrever o ambiente, as histórias das quartas-feiras, as tais tradições académicas, tão boas por sinal que, de certeza, todos gostávamos de voltar a essa era por um dia.

Fazer da praxe um fantasma é menosprezar o seu papel na integração e na união de milhares de alunos, todos os anos, e isso é ingrato para todos, ainda para mais vindo de uma governante que tinha a obrigação de conhecer para falar e não de falar para então conhecer.

É pena e é, inclusive, surpreendente que o foco do Governo da República não esteja nos problemas estruturais do Ensino Superior, na falta de condições em alguns lugares, na falta de docentes, na necessidade do reforço da ação social escolar, no abandono escolar nesta fase da vida e na gritante e preocupante falta de alojamento.

Mas é claro que este repúdio sem vergonha, enquanto fizer correr tinta, desvia a atenção dos verdadeiros problemas dos alunos universitários e daquilo que, quem tem competência na matéria, devia fazer. Parece que a Senhora Ministra faltou à aula do bom-senso.

Vera Duarte
Alumni da Universidade da Madeira
Com fotografia de Pedro Pessoa.

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