O peso da liberdade

Como já dizia o meu pai, “só quem esteve preso é que reconhece o peso da liberdade.” (embora ele mesmo haver garantido nunca ter visto o sol aos quadrados). Eis como os próprios filhos de Abril estão a assistir à queda da Democracia moderna em Portugal, e, mesmo assim, escolhem ficar na ignorância, ou são ignorados.

A 21 de agosto de 1973, em Bissau, é realizada a primeira reunião clandestina do Movimento das Forças Armadas (MFA). Na noite de 24 de abril de 1974, às 22:55, o programa Limite, da Rádio Renascença, emite E Depois do Adeus, interpretada por Paulo de Carvalho, que alerta os revolucionários para se colocarem nas suas posições. Na madrugada do dia seguinte, às 00h20, é emitido o segundo sinal que dá início à revolução, pela voz de José Afonso com Grândola, Vila Morena. Durante as dezasseis horas que se seguiram, os regimentos militares irão ocupar a RTP, o Estado Maior do Exército, o Banco de Portugal, o Ministério do Exército e o Aeroporto de Lisboa. Entre as 16:00 e as 16:30, é feito o cerco ao Quartel do Carmo, liderado pelo capitão Salgueiro da Maia, onde estava refugiado Marcelo Caetano. Entretanto, após negociações, aquele que foi o último presidente do Conselho (equivalente a primeiro-ministro) do Estado Novo acaba por ceder. O Quartel do Carmo hasteia a bandeira branca. Portugal sai, então, da Ditadura, e entra numa jornada para democratizar Portugal, realizando, no ano seguinte, as primeiras eleições livres em mais de 40 anos de repressão, que dariam a 1.ª Constituição Pós-Ditadura.

Em 1989, o então primeiro-ministro Cavaco Silva recusa a atribuir a Salgueiro Maia uma compensação. Isto acontece depois de, nas palavras de José Pedro Castanheira, autor do artigo “Cavaco tenta corrigir erro com 20 anos”, para a revista Expresso, “em 1988, o próprio Salgueiro Maia [teria requerido] a concessão de uma pensão destinada a contemplar os chamados «serviços excecionais ou relevantes prestados ao país»”. Apesar de Cavaco ter, no final, decidido homenagear o capitão, não pôde evitar uma grande onda de protesto popular. Para as pessoas que, haviam participado ativamente na revolução, ou dela tivessem conhecimento na década seguinte, foi um murro no peito. Para elas, não conceder uma pensão a Maia era não reconhecer os valores de Abril. Era não reconhecer todas e quaisquer pessoas que lutaram pelo derrube de uma Ditadura que deixou Portugal moral e materialmente pobre. Era não reconhecer cada injustiça, restrição dor ou humilhação a que havia sido submetidos pelo Regime. Era uma chapada na cara da Revolução.

Em 2015, de acordo com os dados da PORDATA, a Base de Dados de Portugal Contemporâneo, a taxa de abstenção de votos para a Assembleia da República foi de 44,1%. Em 1975, foi de 8,5%. Ora, isto deve-se a muitas razões. Deve-se, por exemplo, ao desinteresse da população mais jovem.

Vivemos numa altura em que estamos a ser constantemente bombardeados por informação, vinda de várias fontes. O nosso cérebro não pode processar tudo, porque tem prioridades, e a política parece não ser uma delas. Há uma falta de identificação com o sistema político vigente.

A 5 de janeiro de 2014, O Público apresentou a opinião de oito jovens, nascidos no período compreendido entre 1980 e 1990. Para quatro deles “Os jovens não estão desinteressados, não se revêem é nas formas e nos mecanismos convencionais de fazer política em Portugal, com os partidos e com os políticos.” Ao que lhes parece, a política não é orientada para os mais novos e que nem sempre se trata da falta de vontade de participação, mas sim também da recusa ao reconhecimento desta minoria política.

Foi 25 de abril de 1974 que Portugal saiu de uma Ditadura que o governara por quatro décadas. Em 2019, mais de quarenta anos depois, há eleitores portugueses que não se sentem ouvidos pelos políticos. Estes últimos, são uma classe caída em cada vez maior descrédito e assolada de escândalos, sobretudo num ano em que se elegem os legisladores europeus, nacionais e regionais. Não tarda nada e Paulo de Carvalho estará a cantar E Depois Do Adeus à Democracia, e não será para dar as boas-vindas.

Liseta Pereira
Estudante da UMa

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