Há uma questão que sempre me levou a refletir sobre o papel de cada um de nós na sociedade, e sobre a forma de como podemos contribuir para ela: será necessário pertencer a um partido ou a uma associação para fazer política?
Depois de uma semana marcada por alguma agitação e controvérsia, parece-me claro que não. Basta uma intenção genuína e um grupo de pessoas dispostas a defendê-la para que a nossa voz seja ouvida. A política, no seu sentido mais amplo, não é exclusiva de quem tem cartão de militante: é o exercício diário da cidadania, a vontade de intervir naquilo que é de todos.
Acredito, contudo, que esta participação é tanto mais saudável quanto mais cedo começar a ser praticada. É na juventude que temos maior disponibilidade para aprender, errar e recomeçar, e é aí que se formam os cidadãos ativos de amanhã. Falo por experiência própria. Integrar um grupo associativo e assumir a responsabilidade de um cargo representativo trouxe-me inúmeras mais-valias, sobretudo ao nível do crescimento pessoal. Aprendi a formar e a fundamentar melhor as minhas opiniões, debrucei-me sobre temas que nunca me tinham passado pela cabeça, e, acima de tudo, saí da minha zona de conforto. Por isso, admiro profundamente quem se dedica a esta missão com ainda mais empenho do que eu, sobretudo quando o faz em defesa do bem comum.
É certo que é mais fácil comentar ou reagir a uma publicação nas redes sociais do que sair à rua para dar voz a uma causa. É certo que é mais fácil opinar numa conversa informal de café do que tomar posição e defender as nossas ideias quando isso realmente importa. E é certo que o meu percurso académico teria sido mais leve se as minhas horas livres não tivessem sido tantas vezes ocupadas por questões alheias à minha área científica, que me obrigaram a abdicar de alguns momentos de lazer. E ainda bem que assim foi.
Por isso, no final de um mandato de dois anos, sinto que cada um desses momentos valeu a pena. Pelo crescimento pessoal que esta experiência me proporcionou, mas sobretudo por saber que, em conjunto com os meus colegas, conseguimos fazer alguma diferença na nossa comunidade. Nenhuma conquista foi individual; todas resultaram do esforço partilhado de quem acreditou que valia a pena tentar.
Hoje, no programa Peço a Palavra, tive a oportunidade de entrevistar dois estudantes que decidiram também arriscar e assumir, nos próximos dois anos, a responsabilidade de contribuir para a sua comunidade. É reconfortante perceber que continua a haver estudantes dispostos a fazer a diferença durante o seu percurso académico, e que o testemunho passa de geração em geração.
Em suma, a experiência associativa é uma verdadeira escola de cidadania: ensina-nos o que significa trabalhar em prol do bem comum, sem esperar nada em troca. E talvez seja essa a resposta à pergunta inicial. Não é preciso um cartão de partido para fazer política, mas é preciso vontade de nos comprometermos com algo maior do que nós próprios.
Tiago Caldeira Alves
Vice-Presidente da Direção da Académica da Madeira
Com fotografia de Hannah Wei.
Artigo de opinião na sequência do episódio n.º 63 do PEÇO A PALAVRA.
