As Palavras: Uma Invenção Inigualável

Consegue imaginar um mundo sem palavras? Sem elas, teríamos, decerto, uma vivência pré-histórica, em que uma gravura na rocha poderia significar mais do que um gesto ou um grunhido.

Diz-se que “uma imagem vale mais do que mil palavras”. Para quem não saiba, talvez seja assim, mas, para quem souber mil ou mais palavras, estas podem valer mais do que uma imagem. Uma criança em idade pré-escolar não as possuirá e preferirá um desenho. A análise deste permitirá aceder ao seu mundo interior, já que retratará a sua vivência feliz ou infeliz. Há adultos que são como essa criança. Não conseguem “encontrar” as palavras para explicar o que sentem ou vivem. Alguns preferem o desenho, a música, a dança ou outra forma artística para se expressarem. Porém, contarão com o contributo da linguagem verbal (oral ou escrita), quando o desejarem, na medida do que forem capazes de dizer ou escrever.

A invenção da escrita data, sensivelmente, de 4 000 anos a.C., mas a da palavra dita é, garantidamente, muito anterior. Não é fantástica esta possibilidade? É inigualável porque, com um número finito e bem circunscrito de fonemas, se produz um número infinito e completamente aberto de monemas (morfemas, lexemas, palavras, vocábulos – os nomes vão variando, sendo ou não sinónimos, consoantes os contextos), isto é, “unidades mínimas significativas”, segundo o linguista André Martinet. Os falantes de uma comunidade vão produzindo palavras porque precisam delas. Assim, um “eurodeputado” é diferente de um “deputado”. Todos sabemos que uma “esferográfica” não é uma “caneta” ou que uma “sopa” não é um “caldo”. As diferenças são substanciais, embora haja quem confunda as palavras e empregue uma pela outra como poderá suceder com uma imagem. O desenho de um coração equivalerá a “apreciar”, “gostar”, “amar” ou “adorar”? Como representar “espoletar”/ “despoletar” ou “vitelo”/ “novilho”/ “bezerro”?

1.

Eles pretenderam …………………….. uma guerra interna com notícias falsas

Preencher o espaço com a forma certa: espoletar/ despoletar.

Solução: Eles pretenderam espoletar uma guerra interna com notícias falsas.

Explicação: Na área do armamento, o verbo “espoletar” significa “colocar espoleta em” (“espoleta” é o elemento que inflama a pólvora nas armas de fogo). O oposto é “despoletar”, significando “tirar a espoleta”. Logo, “despoletar” é sinónimo de “desarmar”. No entanto, com o significado de “desencadear”, é inadequadamente usado em vez de “espoletar”. Significando o contrário, não podem ser sinónimos.

2.

A cria da vaca, ao nascer, é o ……………………..  .

Preencher o espaço com a forma certa: vitelo/ novilho/ bezerro.

Solução: A cria da vaca, ao nascer, é o bezerro.

Explicação: A palavra “bezerro” (ou “bezerra”) corresponde à cria da vaca desde o nascimento até cerca de um ano. Terá uma origem controversa, podendo ser ibérica. O conceito de “vitelo” equivale ao mesmo animal, mas por volta de um ano. O “novilho” é um boi novo, sendo mesmo essa a origem espanhola (“novillo”=“novo”). Os citadinos, mais ignorantes do que os camponeses nesta área, reencontram a diferença entre “vitelo” e “novilho”, por exemplo, quando compram carne.

Helena Rebelo
Professora da UMa

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