Até quando vamos desperdiçar?

“continuaremos a perpetuar um sistema eficaz em esconder o falhanço dos profissionais despreparados para ensinar”

Ao longo da vida levantam-nos cartazes com a indicação “tenha modos”. Reclamar e elogiar são extremos distantes e, por vezes, inatingíveis. Não somos incentivados a construir um sistema de auto-avaliação e a ganhar ferramentas que possam servir para criticarmos com segurança e conhecimento. A crítica carrega uma carga negativa, destruidora e mordaz e a reivindicação é encarada como uma característica incómoda.

Por entendermos que as Universidades são locais privilegiados, ainda acreditamos que têm uma responsabilidade acrescida na disseminação dos valores da liberdade, a todos os níveis. Mas essa crença, não passa disso e a culpa deve ser partilhada por todos nós. Desperdiçamos, sistematicamente, a oportunidade de sermos livres. Ignoramos os problemas, mesmo que eles nos afectem.

A avaliação que os estudantes fazem das suas unidades curriculares é um exemplo clássico de um caso onde, sistematicamente, deitamos no lixo a nossa liberdade. O princípio da confidencialidade no preenchimento dos inquéritos, que não poderia existir numa sociedade onde as críticas deveriam servir para melhorar o trabalho e não para esconder a vingança ou a falta de coragem, acaba por servir de escudo para o castigo de uma nota miserável. Até costumamos premiar a mediocridade com a nossa indiferença no preenchimento dos inquéritos. Afinal, perder tempo com inquéritos que não servem para nada? E, assim, promulgamos o diploma que assegura a manutenção de um sistema cómodo, onde não existem grandes agitações. Afinal, ele até dá boas notas. Apesar de tudo, dá-me jeito que ele falte às aulas. Os testes são fáceis, é uma cadeira que fazemos bem. No final, podemos preencher os inquéritos sem nunca ter visto o alvo da nossa avaliação.

Não sabemos avaliar a dedicação e o empenho dos professores que se importam com o ensino e acreditam que estão a desempenhar um papel decisivo na vida dos futuros profissionais. Acreditamos que só devemos ter voz para registar o que está errado, sem salutar o que existe de bom e incentivar a sua continuidade. Acabamos por deixar morrer os que lutam contra a maré.

Enquanto não exigirmos qualidade, que também não é o sinónimo de um massacre nas notas, com chumbos a rondar os 99%, para indicar que o docente é exigente, competente e atroz, continuaremos pouco exigentes e carregaremos esse fardo pela vida. Os inquéritos não servem para o seu propósito, não deveriam ser iguais para todos os ciclos de estudos, cursos e unidades curriculares. Enquanto o processo de avaliação não sofrer uma alteração profunda, que exija que o avaliador pense, pondere e entenda o que está a fazer, continuaremos a perpetuar um sistema eficaz em esconder o falhanço dos profissionais despreparados para ensinar e seguiremos o caminho para punir e vingar os nossos desgostos.

Luís Eduardo Nicolau
ET AL.

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