Os protestos
Saudades de 2011? O PEC IV foi chumbado. O governo caiu. A troika impôs uma série de medidas. As eleições alteraram o panorama político português. Foram introduzidas novas medidas de austeridade. O euro tem o seu futuro em risco. A especulação continuou forte no mercado internacional. Várias economias europeias estão em crise. O desemprego é grande. O orçamento de Estado prevê vários aumentos. Os confrontos espalham-se pelo mundo. A revista Time elege o manifestante como a “Pessoa do Ano”. E 2012 promete ser ainda pior. E o mais grave é que muitos portugueses parecem padecer de um coma profundo que os afasta de toda a realidade nacional e internacional. Muitos continuam a exigir regalias que são incomportáveis. O país admite que a vergonha seja a característica de muitos políticos que mancham uma classe desacreditada, mas mandatada pela nação nas urnas. Vivemos e viveremos em grandes dificuldades. O ano que se segue pode sufocar por completo os povos que definham sob a aplicação de medidas desencontradas e ineficazes, ainda impávidos e serenos encontrando na greve e em passeatas, as únicas saídas para um protesto tímido. Os sufrágios encontraram altas taxas de abstenção de um povo que já não existe. Existe quem se manifesta pelo povo, quem grita pelo povo, quem diz que representa o povo e quem rouba o povo. O povo português parece que morreu. Luís Eduardo Nicolau Alumnus
Em Janeiro faço dieta!
Chegou! Após repetidas e incisivas promessas de controle alimentar, resultado dos “irresistíveis” exageros da época natalícia, chegou o momento de cumprir o que foi prometido! O mês de Dezembro é “desculpa” para muitos comportamentos alimentares menos saudáveis devidos à época festiva, justificando-se que em Janeiro resolve-se o assunto. Ouve-se frequentemente “Ano Novo, Vida Nova”. Os quilinhos ganhos em Dezembro, que tanto atormentam o início do novo ano, constituem o argumento para a mudança. A realidade é que, com alguma frequência, estas promessas são novamente adiadas para o mês seguinte, e seguinte, e seguinte… e a história repete-se sucessivamente… e nada de mudanças. Surgem os Reis… o Carnaval… a Páscoa…. Enfim, não faltam novos argumentos festivos para novos exageros alimentares e os quilinhos vão somando-se sucessivamente. Por isso, é importante não adiar a correcção do seu desajustado padrão alimentar! Por outro lado, não se justifica exagerar abusivamente para depois iniciar uma restrição muito rigorosa. Estas grandes oscilações podem comprometer o bom funcionamento do organismo. O conselho que aqui deixo é que tente manter o equilibrio alimentar ao longo de todo o ano, o que não invalida que possa comer um pouco mais num determinado dia ou época (desde que não sejam constantes!), dentro das tradições gastronómicas. É mais salutar que assim seja. UM FELIZ 2012! Bruno Sousa Nutricionista
A (in)utilidade das teses
De acordo com a Infopédia (2011), um mestrado é o “grau académico do ensino superior que […] é conferido a quem conclui o segundo ciclo de estudos”, um doutoramento é “[…] conferido a quem conclui o terceiro ciclo de estudos” e uma tese é o “trabalho original escrito para obtenção do grau de mestre ou doutor; proposição sustentada publicamente, numa escola superior ou universidade”. Os três conceitos estão intimamente ligados e, em Portugal, o Ensino Superior Público sustenta cerca de 1900 mestrados e mais de 650 doutoramentos. Segundo a Base de Dados “PORDATA” (2011), existem actualmente cerca de 135 000 alunos matriculados nestes graus académicos. Em 2009, a PORDATA afirma que 1399 indivíduos viram reconhecidas, por universidades portuguesas, as suas teses de doutoramento. Uma tese, independentemente da área de estudos ou grau académico a que pertence, tem como principal fim propor algo, tomar determinada posição, defender uma ideia baseada em pesquisas, estudos e teorias formuladas por quem a compõe. É, sem dúvida, um árduo trabalho, amplo, que desenvolve ideias, alimenta ou contra-ataca outras ideias e culmina num trabalho académico digno de se defender e tornar público. A principal questão prende-se com a sua utilidade ou falta dela. Por exemplo, das 1399 reconhecidas no ano de 2009, quantas teses estão a ser activamente aproveitadas, quantas têm uma aplicação válida e contribuíram para desenvolver aspectos das áreas a que estão ligadas? Quantos alunos têm o privilégio de ver os seus trabalhos finais, não como documentos que lhes irá conceder um determinado grau académico, mas como um passo vanguardista das suas áreas de intervenção ou formação? É um facto que os trabalhos defendidos e aprovados nas instituições universitárias em Portugal, e quiçá no Mundo, são os mesmos que se encontram fechados em bases de dados parcamente consultadas. Joana Correia, a frequentar a licenciatura em Psicologia, na Universidade da Madeira, afirma que “com o Processo de Bolonha, houve uma banalização das teses de mestrado/doutoramento, mas em contrapartida aumentou a sua diversidade em temáticas, sendo por isso contributos importantes para a comunidade científica.” Quanto à utilidade posterior diz que “se trata de mais uma fonte de estudo e material para todos aqueles que ainda estão no seu percurso académico e/ou todos aqueles que pretendam adquirir informação de fontes fidedignas.” Diana Nunez, aluna de Psicologia na mesma academia, defende, por seu lado, que deveria existir uma ferramenta que permitisse a toda a sociedade aceder a estes trabalhos, independentemente do seu tema ou academia. Rodrigo Silva, a frequentar o Mestrado em Psicologia da Educação, em Rio Maior, diz-se “um pouco céptico nesta matéria de teses, tal como nos trabalhos lectivos de licenciatura e do fazer por fazer. “Na minha opinião todos estes estudos, deveriam ser uma resposta a uma necessidade real, seja ela colectiva, social, cultural, empresarial ou mesmo singular. Só trabalhado casos reais é que nos aproximamos da realidade e saímos do tubo de ensaio que é o ensino.” Esquecimento, pouca adequação às necessidades da sociedade, mas também, aumento das temáticas trabalhadas e de fontes de informação fidedignas, são algumas das características fundidas no actual sistema de mestrados e doutoramentos em Portugal. Perante isto, outra questão aprimora-se: qual a solução para este panorama? Crozier (1970), no seu livro “A Sociedade Bloqueada”, assegura que “a universidade e a sociedade vivem naturalmente em simbiose.” Realmente, como o autor afirma “uma universidade isolada fica cega”. Por essa razão, na nossa humilde opinião de estudantes, urge uma mudança. O bom português gosta de se acomodar, mas vivemos num mundo em permanente alteração, que nos obriga a caminhar em passos rápidos, adequando o nosso passo ao dos demais. Há que criar oportunidades. E se estas existem, têm de ser aproveitadas, quanto mais não seja para nos apercebermos que há um mundo fora das paredes das academias e que trabalhamos, não também, mas preferencialmente para ele. A resposta, a mudança, o reconhecimento verdadeiro está nas mãos de todos. Nós e o mundo somos os responsáveis da (in)utilidade do nosso trabalho. Vera Duarte Alumnus
Escrever profissão do coração
Aprender a gostar de ler não foi difícil. Na verdade, devo dizer que ler foi uma necessidade. Todos os fins-de-semana, após o almoço, eu e o meu irmão éramos obrigados a dormir. E eu, metida dentro do quarto e sem vontade de cumprir a ordem dos meus pais, ia sempre à estante buscar um livro. Os anos foram passando e a necessidade transformou-se em prazer. Da leitura à escrita foi um pequeno passo: eu adorava fingir-me outras pessoas e descobri que na escrita poderia ser quem quisesse. Desde muito nova, portanto, soube que a minha profissão teria que estar ligada às letras e, quando passou a fase do “quando for grande quero ser professora”, decidi que o Direito seria a escolha certa. No secundário, deixei as composições de lado e passei a escrever só para mim, nos meus diários. Dediquei-me aos estudos e aos 17 anos, já com a ideia em seguir Magistratura, entrei em Coimbra. A mudança, a falta, a saudade, o choque entre o facilitismo do 12.º ano e a exigência da faculdade despertaram em mim a urgência em escrever. Abri um blog e despejei a minha imaginação nele. Pouco a pouco, os leitores foram chegando, criticando, incentivando e eu, cada vez mais desiludida com o Direito, fui aprimorando a minha escrita e redescobrindo um amor que estava escondidinho há algum tempo. Aos 19 anos, em plena época de exames do terceiro ano, acordei com uma ideia a pulsar-me na cabeça. Confesso que, na época, pensei que não estaria à altura do desafio. Mesmo assim, nasceu o Distúrbio, um livro que aborda a pedofilia. Muita gente pergunta-me o porquê do tema. A pedofilia foi um assunto que, não obstante causar um certo desconforto, sempre me despertou o interesse. Eu, revolucionária, optimista e ingénua, julguei que poderia salvar todas as crianças ao longo da minha futura carreira profissional. Em Direito aprendi que pouco se fala sobre o abuso sexual de menores, que somos máquinas do sistema e, como máquinas que somos, trabalhamos com vista a um fim, sem sentimentos, sem remorsos, sem sonhos de paz e amor no mundo. Na minha escrita eu poderia falar. Abordei a pedofilia – e não só – da forma mais crua que consegui. Coloquei na Rossana, a personagem principal, toda a minha frustração e angústia. Durante cinco meses, aproveitava todo o tempo livre para escrever, para voltar atrás, para pesquisar e assimilar, para apagar e reescrever. Foi um processo de crescimento pessoal que me fez ver que escrever não é só sentar e deixar as palavras fluírem nos dedos: é preciso ter a humildade para ver o que está mal e mudar; de ler o que está bom e não se deixar ficar por aí; é preciso ler muito, aprender novas formas de escrita, abrir caminhos na nossa mente; ter a consciência de que não somos Deus apesar de acharmos que a ideia é boa e que temos um bocadinho de jeito. Quando o terminei, imprimi-o e entreguei-o à minha mãe que o leu numa noite. E, ao contrário do que possam pensar, a reacção dela não foi das melhores. Ela ficou chocada e várias vezes repetiu o facto de não conseguir encaixar um livro tão forte – palavras dela – na minha personalidade. Essa foi a melhor crítica que me poderiam fazer. Escrever é estar além do que somos, é fingir e imaginar, é deixarmos a nossa pessoa num outro estádio e partir para a história que criámos. Depois da minha mãe, muitas outras pessoas leram. Até que um dia pensei em tentar publicá-lo. Enviei-o para várias editoras que, ou recusaram, ou ofereceram-me um contrato editorial demasiado pesado para os meus bolsos de estudante. Uma noite, na internet, conheci a Estronho, um editora brasileira. Fiquei, desde logo, encantada, tanto pela criatividade dos temas, quanto pela qualidade das capas mas, principalmente, pelas oportunidades que dão aos novos autores, e tratei de tentar a minha sorte nas antologias que são organizadas por eles. Ao fim de pouco tempo, fui seleccionada para algumas e, um dia, o editor M.D. Amado perguntou se eu não teria nenhuma obra a solo que quisesse mandar para avaliação. Enviei o Distúrbio e esperei. O livro foi aprovado e lançado em Dezembro de 2011, em São Paulo. Foi prefaciado pelo editor e apresenta uma arte gráfica belíssima. Escrevo muito, todos os dias, sempre que posso. E, embora não me pague as contas, escrever é, sem qualquer dúvida, a minha profissão do coração. Pois, neste momento, faço parte de treze antologias de contos, algumas lançadas em 2011 (Cursed City; PsyVamp; Lugares Distantes e A Polémica Vida do Amor) e outras a sair este ano (Série VII Demónios – Gula, Inveja, Soberba, Preguiça, Avareza e Ira; Eu acredito; E se Al Capone fosse mulher? e Le Monde Bizarre). Para além disso, escrevo para quatro revistas – Magazon, Benfazeja, Infektion Magazine e JA. O Distúrbio, para quem esteja interessado, pode ser adquirido na livraria on-line da editora http://estronho.com.br/loja ou directamente comigo, através do e-mail vpsf88@hotmail.com. Valentina Silva Ferreira
A espiritualidade
Perante o stress do trabalho, a falta de dinheiro e por vezes a doença, são cada vez mais as pessoas que procuram um refúgio espiritual na oração e na meditação. A Escola de Yoga do Funchal (EYF) é, além de uma escola, uma comunidade espiritual. A revista JA foi saber mais acerca da espiritualidade através da professora da EYF, Ana Isabel Freitas. JA: A EYF é um projecto feito a pensar em quem? Quais são as suas mais-valias? AIF: A Escola não pode existir sem alunos logo, ao criá-la, tive como objectivo transmitir os meus conhecimentos a outros para que possam desfrutar dos benefícios de “ser-se Yoguin” (praticante de Yoga). Os benefícios são imensos: o Yoga leva o praticante a encontrar-SE, a saber tratar de si e a viver uma vida mais harmoniosa e realizada. JA: O Yoga é muitas vezes associado à actividade física, no entanto vai muito além disso. Em que consiste? AIF: O Yoga é uma filosofia e uma prática de vida, é também uma ciência, pois usamos metodologias e técnicas cientificamente desenvolvidas e com resultados comprovados. A própria ginástica saiu do Yoga. JA: Pode explicar-nos que actividades são realizadas na Escola? AIF: Temos aulas práticas diárias em que se praticam várias técnicas: exercícios respiratórios, posturas psico-físicas, relaxamento, mantras, exercícios de purificação, de visualização e cromoterapia. Além das aulas, temos um calendário mensal que inclui: ritual de purificação pelo fogo (yagna), ritual de purificação pela água (abishekam), círculos de cura pelo OM, aula para Pais & Filhos/Bebés, orações da manhã e da tarde (mantras e bhajans), meditações. Fazemos também 2 retiros por ano e outras atividades no exterior, como Yoga na montanha ou a Saudação ao Sol Nascente. JA: Um tipo de preconceito visível na sociedade é a religião. O Yoga, tendo como componente essencial a espiritualidade, rejeita crenças religiosas diferentes? AIF: O Yoga não é uma religião, é a ciência das religiões: preconiza uma visão espiritual da vida usando uma abordagem prática e científica. O Yoga acolhe qualquer religião que preconize os princípios éticos universais como a não-violência, a verdade. Uma pessoa judia, muçulmana, cristã ou taoista pode praticar Yoga sem nenhuma contradição. JA: Ao longo da sua vida tem viajado pela Índia. Conte-nos a realidade que lá encontrou. AIF: A Índia para mim é ‘casa’, tem uma ‘carga’ espiritual magnífica. Existem diferenças culturais grandes, no entanto, o Yoga preconiza o respeito pelo outro e aceitação da diferença. A pobreza e a falta de recolha de lixo são problemas que um Yoguin reconhece mas que não ofusca o que a Índia tem de mais brilhante. As pessoas são pobres mas não são depressivas como aqui tendem a ser.. quem é mais pobre? É o que pergunto… JA: Uma das implicações desta actividade é aprender a aceitar o que a vida nos traz. Ao longo da sua experiência tem lidado com alunos cujos problemas (doença, morte…) os tenham conduzido até à Escola? AIF: Os alunos vêm para a Escola quando têm problemas que não podem resolver sozinhos, quer tenham maior ou menor consciência disso. Na nossa ‘inconsciência’ sabemos muita coisa! O nosso eu superior sabe o que o ser necessita e aproxima-nos de pessoas, de lugares que estão de acordo com as nossas necessidades e energia. JA: Como é que o Yoga os ajuda a ultrapassá-los? AIF: A pessoa torna-se mais consciente do que se passa consigo e à sua volta. Torna-se mais orientada e positiva, começa a conseguir resolver problemas em vez de acumulá-los, aumenta a capacidade de aceitação. Ter consciência e saber aceitar são grandes máximas do Yoga e condimentos essenciais para ser feliz. Para perceber é preciso experimentar, porque não marcar uma aula experimental gratuita? Fica aqui o convite. Carolina Martins
Transportes públicos
A ilha da Madeira é coberta, em todo o seu território, por transportes públicos que, na maioria dos casos, seguem para o centro do Funchal. No entanto, e apesar desta cobertura, temos notado que o uso do automóvel próprio tem vindo a crescer e que o Funchal é quem mais sofre as consequências desse aumento. Quem se lembra de passar pelo centro do Funchal e não sentir o efeito das horas de ponta, que já começam a tornar-se em dias de ponta. A pergunta é, porquê este grande aumento de tráfego? Será porque temos melhores condições de vida e já podemos ter o nosso automóvel? Será porque a política dos transportes públicos não é a melhor? Pois bem, a única certeza que fica é que já sofremos o stress das filas de trânsito e o ambiente, nomeadamente a atmosfera, sofre as consequências deste aumento de tráfego com a emissão de fumos. O ar torna-se menos respirável e para correr ou passear a pé já temos de escolher bem os locais para o fazer. As consequências do aumento do uso do automóvel ligeiro são grandes e graves quer para o meio ambiente quer para a população em geral (devido aos efeitos na sua saúde e no gasto do seu dinheiro). Por isso, é necessária uma maior consciencialização por parte da população para o uso dos transportes públicos e também uma maior exigência às autoridades para uma política de transportes mais vantajosa para todos os cidadãos. O conforto, a rapidez e o preço são os factores encorajadores do uso do transporte público que têm obrigatoriamente que ser melhorados. O conforto em toda a rede de transportes tem de ser melhorado quer com a renovação dos autocarros quer com uma melhor formação por parte de todos os motoristas para que tenham uma condução segura e delicada tendo em conta todo o tipo de passageiros, jovens, velhos, mulheres com crianças, grávidas e outros. A rapidez, não a velocidade com que se conduz, depende do cumprimento de horários e do ajustamento das carreiras conforme a procura, tendo em atenção as horas em que há mais utentes. É importante que se cubram as necessidades dos utentes, o que nem sempre equivale a que sejam só de manhã e à tarde. Existem horas durante o dia em que há necessidade de uma grande mobilidade, mas os autocarros não correspondem. E por fim temos o preço. Talvez este seja o maior factor dissuasor da pouca adesão ao transporte público e até da perda de mais utentes. Um bilhete na Horários Funchal custa 1,10 €, na Carris (Lisboa) custa 1, 05 €; um passe estudante na Horários Funchal custa 35,50 €, na Carris custa 16, 00 €. Estes são só alguns exemplos de como o transporte público na Região é extremamente caro, isto para não falar nos preços de outras companhias regionais que cobram valores exorbitantes. Seria importante que o Governo Regional tivesse uma aposta mais eficaz no que respeita a este importante serviço público. Seria essencial que houvesse uma baixa nos tarifários praticados, o que talvez fosse possível se o Governo Regional apoiasse mais este sector imprescindível para a melhoria da qualidade de vida dos cidadãos e também para a qualidade ambiental e turística da Região. É necessário rever prioridades e os transportes públicos têm de estar no topo dessas prioridades. Idalina Perestrelo Quercus-Madeira
Compreender a diferença e aceitar a diversidade
“Não há, não, Duas folhas iguais em toda a criação. Ou nervura a menos, ou célula a mais, não há, de certeza, duas folhas iguais.” – António Gedeão Ao longo do ano vemos assinaladas no calendário várias efemérides, as quais vão sendo comemoradas de diferentes formas. O Dia Nacional da Pessoa com Deficiência celebra-se a 9 de Dezembro. Nesse dia, importa olharmos também para dentro de nós porque a inclusão faz-se de dentro para fora, ou seja, a forma como sentimos e pensamos a diversidade vai traduzir-se em comportamentos, vai condicionar relações e movimentos sociais. No contexto educativo todos os alunos necessitam de diferentes estratégias pedagógicas, quer do tipo humano, técnico e material, com o objetivo de assegurar os fins da educação, por exemplo, atingir a autonomia. Contudo, ao longo do percurso escolar, para alguns alunos, poderão surgir eventualmente necessidades educativas especiais (NEE). Assim, quem são os alunos com necessidades educativas especiais? São os alunos que devido a uma problemática específica, além das estratégias mais comuns atrás referidas, necessitarão de outras complementares mais específicas e personalizadas, com metas singulares e progressivas (Batista, 1997).No que concerne às metas e objetivos, é importante referir que estas devem ir ao encontro das particularidades de cada aluno, independentemente de este estar inserido numa turma de ensino regular ou especial. Tem-se vindo a assistir, de fato, a uma passagem de um ensino “discriminatório”, que privilegia os alunos que obedecem aos padrões estandardizados, para um ensino mais inclusivo e aberto à diversidade a todos os níveis. Na construção de uma escola mais inclusiva, é cada vez mais comum a participação e a cooperação dos diferentes elementos que compõem a comunidade educativa, assim como todos aqueles que interagem com o aluno. O importante é compreender o aluno numa perspetiva ecológica. O enfoque do ensino não tem como objetivo primordial formar alunos recetáculos de informação e grandes conhecedores teóricos, mas sim, pelo contrário, formar pessoas capazes de utilizarem e praticarem o conhecimento adquirido e aceitarem a diferença. É imperativo, mais do que conhecer as vantagens da escola inclusiva, praticar e contribuir para um ensino mais inclusivo. Reconhecendo que não existe fórmula mágica que nos permita ficar imunes a qualquer tipo de dificuldade quer seja como consequência do envelhecimento, de acidente ou de outras circunstâncias, é necessária esta consciencialização para não avaliar negativamente o impacto das necessidades educativas especiais em todas áreas da vida da pessoa (Fernandes, Almeida & Mourão, 2007). Embora se reconheça a importância de uma escola inclusiva, no sentido de que alunos com diferenças (raciais, NEE, físicas, étnicas, religiosas, entre outras) sejam integrados, ainda parece utópico pensar numa inclusão em plenitude. Mas sabemos que é por aí que devemos avançar, urge à sociedade ser inclusiva, e cada um de nós pode começar já com gestos singulares no quotidiano, percebendo a riqueza e o colorido da diversidade. Referências Bibliográficas Baustista, R. (Coord.) (1997). Necessidades Educativas Especiais. Lisboa: Dinalivro. Fernandes, E. M., Almeida, L., & Mourão, J. (2007). Inclusive university education viewed by the non disable students. The International Journal of Diversity in Organizations, Communities and Nations, 7(1), 169-178. Dina Freitas Carla Rodrigues Raquel Santos Tatiana Nunes Catarina Faria Estagiárias de Psicologia da Educação
Pensar além fronteiras
“Está preparado para ser independente?” Vivemos na era da globalização, em que cada vez mais urge pensar além-fronteiras, algo bem patente na mobilidade dos estudantes universitários. No entanto, tem-se verificado um fenómeno paralelo na sociedade atual: a regionalização das universidades portuguesas e a saída mais tardia dos jovens de casa dos pais, o que vem colocar inúmeras questões relativas à conquista da independência, autonomia e ajustamento a um mundo em constante mudança. Estarão os estudantes preparados para esta nova perspetiva de vida: pensar além-fronteiras? Pensar além-fronteiras pode permitir ao estudante desenvolver-se a nível pessoal e intelectual, por se deparar com novos problemas e situações, que requerem que seja criativo. No entanto tal implica uma preparação atempada, na medida em que a autonomia e a independência precisam ser conquistadas. Atingir determinada idade ou sair de casa dos pais não significa que os estudantes estejam preparados para serem independentes, tal como o facto de permanecer em casa dos pais não significa que o estudante tenha fracassado em se tornar um adulto maduro e responsável. Muitos dos jovens que deixam a casa dos pais à procura da sua independência, acabam por ficar dependentes destes a nível económico e emocional. Quais os fatores que podem constituir obstáculos na procura pela independência? Muitos jovens dizem não serem capazes de estudar fora do seu país ou da sua zona de residência por não se sentirem preparados para se autonomizarem. Na verdade, ser capaz de morar longe da família e gerir todos os compromissos, académicos e outros, assume-se como uma demonstração acrescida de responsabilidade. No entanto, não são raros os casos em que é a própria família que não apoia o crescimento do jovem neste sentido, alegando falta de maturidade. O que acontece é que a relação entre pais e filhos necessita de confiança na separação. Quando as relações entre pais-filhos são saudáveis, o apoio à autonomia é maior e a confiança do jovem cresce. É importante analisar quais são as reais motivações e expectativas do estudante ao tomar esta decisão e o que espera alcançar. Alguns jovens saem de casa para tentarem fugir aos problemas ou à autoridade dos pais, focando a sua atenção no que estão a deixar para trás e não naquilo que querem alcançar e para onde querem ir. Tal poder-se-ia comparar a conduzir um automóvel olhando apenas para o retrovisor, não vendo o caminho que surge adiante. Caso esteja a ponderar estudar fora aqui ficam algumas dicas essenciais: – Não se concentre apenas no querer sair de casa, mantenha o olhar fixo num objetivo que seja relevante para si. A decisão de sair de casa e ser independente, pela sua importância, não deve ser tomada precipitadamente. – Converse com os seus pais e pese os benefícios esperados e os possíveis desafios. – Seja honesto ao analisar as suas motivações. Se acha que está preparado, então talvez esteja na altura de tomar o seu próprio rumo na vida. Serviço de Consulta Psicológica da UMa
Quando os grandes eram pequenos
Tinha 10 anos quando fui para o Porto Santo, mas até lá, a minha vida nesta nossa Madeira foi bem recheada. Os 8 anos na Ilha Dourada valeram-me o eterno apelido de “profeta”, mas mais do que isso, contribuíram grandemente para a pessoa que hoje sou. Por entre raízes madeirenses e africanas fui aprimorando o meu gosto pela comunicação desde cedo. A minha avó lembra-se sempre dos momentos em que eu lhe fazia entrevistas na cozinha, por entre panelas e pratos, a mexer efusivamente as mãos. O meu avô, que toda a vida foi encadernador, viu-me crescer a revirar os seus papéis e a contactar com os livros desde cedo. A minha mãe conta e, ainda hoje confirma, que a personalidade forte (como eu gosto de chamar) ou o mau feitio (como outros lhe apelidam) nasceu comigo. O meu pai, a quem devo o tom “café com leite”, viu a sua sorte (ou azar, depende da perspectiva) duplicar quando a minha irmã Marta nasceu, há cinco anos, e quiçá verá a mesma triplicar, quando em Dezembro mais uma menina vier ao mundo. Os mesmos traços, a mesma perícia em refilar, as mesmas atitudes e manias! Da menina calma deitada na alcofa passei para a refilona de serviço lá em casa. Fui ao Porto Santo, pela primeira vez, aos três meses… e fiquei numa tenda! O trauma deve ter ficado daí, pois acampar é algo que, hoje, não me seduz. Até ir viver para lá, devo ter ido uma dezena de vezes ao areal, normalmente nas férias, imbuídas de um sol imenso, banhadas por águas límpidas e refrescantes e abrilhantadas por uma boa lambeca. Também desde os dois ou três anos fui com os meus avós e com a minha mãe ao continente, e dessas primeiras viagens tenho a vaga recordação de estar em Fátima com uma vela na mão, fato de treino cor–de–rosa, com a chuva a cair-me no rosto, ou então, de andar no metro e comer pastéis de nata, em Belém! Fiquei com a minha avó até aos 4 anos e quando entrei na pré–primária, o país inteiro deve ter percebido, pelos meus berros e choros tradicionais pela manhã. Recusava-me a fazer a sesta, ficava a ver as minhas educadoras pintar as unhas, mas, tempos depois, passei a ser a defensora dos meus colegas e a voz activa da turma. Muitas traquinices ficam desses tempos: as minhas infindáveis quedas, a minha apatia pela educação física e pela sopa de ervilhas, os meus argumentos para defender que a matemática era o ponto errado da minha vida. (A verdade é que a minha relação com os números nunca foi pacífica.) Recordo-me, também, de gostar de sapatos de salto alto e de batons, muitos! E de vestir o vestido de noiva da minha avó, imaculadamente guardado, até eu o ter descoberto. Nos estudos, sempre fui uma menina aplicada, dizem! Completei a escola primária ainda na Madeira, e o secundário, no Porto Santo. Musicaep (como se denominava na altura), Desporto Escolar, concursos literários, apresentação de festas, actividades na natureza, participação na revista da escola e no clube de rádio, música, entre muitas coisas fizeram parte do meu percurso escolar. Tudo isto marcado pela minha atitude e teimosia, que me conceberam episódios bem cómicos. (Mas como diz a Guilherme, isso agora não interessa nada!) Há sempre muito para dizer sobre a infância de alguém. Dos tempos da primária restam poucos conhecidos, com quem ainda mantenho contacto. Do secundário, filtraram-se os amigos para a vida. Os verdadeiros, de quem a distância e o mar não me conseguiram separar. Aqueles que, desde que entrámos na vida académica, voltam à velha base, todas as férias, para matar as saudades, relembrar velhos momentos e compor histórias para o futuro. São eles e a minha família, a minha verdadeira paixão. Do Porto Santo, fica-me na memória, o ninho pequeno, tão pequeno que no início me fazia confusão, onde tive de aprender a viver, a aproveitar o pouco mas essencial que aquela terra nos pode dar. Também, durante aqueles 8 anos, esta ilha foi o ponto de partida para as minhas grandes e marcantes viagens: Bélgica e Chipre, o frio e o calor, os opostos de histórias e vivências, que trouxe comigo guardados nas malas. Guardam-se-me, igualmente, a entrada tímida nas lides partidárias, que continuo, com toda a garra que posso, noutros palcos, porventura mais activos, mais sedutores e extasiantes, dos quais me orgulho, apesar de todos os apesares. Entrar na universidade, e numa área de estudo pela qual me fui apaixonando (a Psicologia), foi o melhor que me podia ter acontecido. A UMa marcou a minha vida e terá sempre um papel fulcral no meu futuro. Sobre a minha mui nobre academia sempre disse que primeiro estranha-se e depois entranha-se. Que, sem darmos conta, esta passa a ser a nossa segunda casa, ou talvez a primeira, onde “se vive enquanto se estuda” (Beja, 2011), onde se praxa, se amadurece, se chora e se ri, aquela casa que nos dá o passaporte para o mundo lá fora, onde se conhecem grandes pessoas, amigos, exímios professores, todos estes, mestres e inspirações desta jornada, a quem, todos os dias, devo um obrigado por existirem. Também nesta casa, descobri uma outra família, a da AAUMa, que me lançou para as parcerias da rádio, para o JA e para o meu estimado “Pátio dos Estudantes”. Desde as reportagens e entrevistas, até ao Carpe Diem, e aos estúdios da RTP, tudo tem passado num ápice e de todo esse todo, tenho bebido as melhores experiências, a mais bela inspiração, o esforço e o empenho de uma equipa que me recebeu e ensinou da melhor forma. Sou eu. Às vezes perguntam-me de onde vem a inspiração, até a racionalidade com que conduzo aspectos da minha vida e a dicotómica emocionalidade que paira sobre mim. Não tenho resposta. Talvez porque a verdadeira essência da felicidade está na vida, a fulcral inspiração sou eu e tu que lês, tu que ouves, tu que sorris, tu que
À conversa com Isabel Silva
Espiritualidade Dimensão do ser humano A espiritualidade é um conceito complexo e multidimensional. Utilizando a analogia de alguns autores, imaginemos uma bola de futebol: a espiritualidade constitui-se de diferenças dimensões (hexágonos que revestem a bola) todas ligadas umas às outras formando a pessoa (bola). Cada porção de revestimento (cada hexágono) representa um aspecto diferente da espiritualidade que está intimamente ligado e relacionado com os outros biopsicossociais, conferindo a cada um a mesma importância no funcionamento do conjunto. Momentos existem em que a bola esvazia e precisa ser cheia de ar. Também em momentos intempestivos da vida, muitas vezes alheios ao controlo do homem, a pessoa sente-se vazia e necessita alimentar o seu espírito através de meios que lhe devolvam sentido à existência. Esta linguagem metafórica esclarece o carácter complexo da espiritualidade e a sua relação com as outras dimensões do ser humano. A ser assim não pode ser destacada ou entendida de forma isolada. Estamos evidentemente a adoptar a percepção global da pessoa humana, em que as várias dimensões que a constituem influenciam e são influenciadas umas pelas outras pois a espiritualidade recusa qualquer tipo de reducionismo. Utilizamos o termo Pessoa porque este nos remete para o Ser em relação. Enquanto Pessoa, o ser humano concretiza-se relacionando-se com os outros, reconhece as suas circunstâncias, procura o sentido da sua existência e por isso singular, único e complexo. Deste modo, a espiritualidade desenvolve-se em duas dimensões: a horizontal, que se expressa na procura de sentido na existência pessoal em relação com os outros e o exterior; a vertical, que se expressa na procura de uma entidade superior ou fenómenos transcendentes que concedam à existência esse sentido e significado. Nas interrogações que tantas vezes formulamos sobre a existência ou não de uma entidade superior, deixamos em aberto a possibilidade dessa existência pelo simples facto de questionar e meditar sobre o assunto. A espiritualidade como dimensão humana reporta-nos ao transcendente, permitindo compreender quem somos e não somente o que somos. Transcender é procurar entender a existência. Existir é também partilhar desejos e crenças em algo que, como seres singulares possuímos e que, como pessoas humanas, universalmente sentimos. São variadas as formas de viver a espiritualidade neste nosso século. A espiritualidade como procura de sentido na existência transforma–se na força impulsionadora para o alcance da harmonia e felicidade. Está presente no movimento constante de aproximação e inter- relação com os outros pares, nos eventos e rituais que dão sentido à nossa vida. Assim sendo, um momento de crise pode ser a primeira oportunidade de encontrarmo-nos como seres espirituais, a primeira oportunidade de sentir o significado da própria existência. É nas situações intempestivas da vida que a mobilização e expressão da dimensão espiritual é feita de forma mais intensa. Manifesta-se nestes momentos pelas expressões de crenças, valores, atitudes, comportamentos e sentimentos. Quantas vezes a angústia da busca perante tantas incertezas que a razão instrumental científica não “dá conta” de explicar e, mesmo quando explica, não plenifica o ser humano nas suas necessidades profundas de coração e alma! Viktor Frankl, em observações decorrentes da sua experiência em campos de concentração, como prisioneiro, durante a segunda guerra mundial, pode perceber que, mesmo num ambiente em que as pessoas se encontravam em situação ímpar, com ínfimas possibilidades de sobrevivência, conseguiam superar a situação de intensa adversidade. Isso é possível porque o ser humano possui uma capacidade única de conservar a sua liberdade de espírito, área que ele considera de domínio exclusivo de cada um, na qual ninguém pode interferir ou modificar a sua decisão. Considerando que para Frankl a dimensão espiritual envolve a capacidade de decidir, essa dimensão permite-lhe, mesmo havendo apenas um resquício de esperança, buscar sentido no sofrimento, na dor e na morte, que desafiam a inteligência humana desde tempos imemoriais. Assim, “se a vida tem sentido, o sofrimento necessariamente também terá”. Nesta reflexão introduzo a importância de reconhecer que a espiritualidade não está somente relacionada com a teologia e as crenças, mas com o usual e mundano. Pensar a espiritualidade remete-nos, deste modo, para o que fazemos no dia-a-dia e que sequencialmente realiza o filme da nossa vida e lhe dá plenitude de sentido. O ser humano é um ser histórico porque possui a capacidade de contemplar o seu passado e o seu presente, podendo assim influenciar o seu desenvolvimento como pessoa, colaborando para que os aspectos de sua vida estejam ligados à sua história e às estruturas sociais. Isto revela-o como um ser multidimensional, bio-psico-sócio-político e espiritual. Embora o enfoque desta reflexão seja a dimensão espiritual, torna-se oportuno trazer uma breve distinção entre os conceitos de espiritualidade, religiosidade e misticismo, que com frequência percebemos haver dificuldade na sua compreensão. A espiritualidade, como vimos, juntamente com a liberdade e a responsabilidade são elementos essenciais na existência humana de onde transcende o logos. A palavra religião, no seu sentido originário, significa ligar e re-ligar tudo com todos, ou seja, a sua prática possibilita a contínua ligação com Deus. A religião molda e codifica a experiência com Deus. Neste sentido a religiosidade é expressão da religião que pode ser demonstrada por meio de dogmas, rituais e a institucionalização do poder religioso. Em relação ao misticismo, é um estado que permite ter acesso directo a Deus pela experiência. A compreensão do significado destes termos: espiritualidade, religiosidade e misticismo, pode colaborar para que se perceba e distinga as diferentes formas de expressões da dimensão espiritual. Assim estaremos mais abertos e mais permeáveis às mais diversas experiências que o ser humano tem ao expressar a sua espiritualidade. Percebemos que as questões que envolvem a dimensão espiritual nem sempre são evidenciadas, avaliadas e questionadas suficientemente, pois a actualidade está mais voltada para a relação do ter do que a relação do ser e, dessa forma, os valores, credos e significados que são inerentes à natureza humana passam despercebidos para muitos. Lentamente, perdeu-se a visão do ser humano como ser de relações ilimitadas, ser de criatividade, de ternura, de cuidado, de espiritualidade, portador de um projecto infinito. Cada vez mais centrados