A (in)utilidade das teses

De acordo com a Infopédia (2011), um mestrado é o “grau académico do ensino superior que […] é conferido a quem conclui o segundo ciclo de estudos”, um doutoramento é “[…] conferido a quem conclui o terceiro ciclo de estudos” e uma tese é o “trabalho original escrito para obtenção do grau de mestre ou doutor; proposição sustentada publicamente, numa escola superior ou universidade”.

Os três conceitos estão intimamente ligados e, em Portugal, o Ensino Superior Público sustenta cerca de 1900 mestrados e mais de 650 doutoramentos. Segundo a Base de Dados “PORDATA” (2011), existem actualmente cerca de 135 000 alunos matriculados nestes graus académicos. Em 2009, a PORDATA afirma que 1399 indivíduos viram reconhecidas, por universidades portuguesas, as suas teses de doutoramento.

Uma tese, independentemente da área de estudos ou grau académico a que pertence, tem como principal fim propor algo, tomar determinada posição, defender uma ideia baseada em pesquisas, estudos e teorias formuladas por quem a compõe. É, sem dúvida, um árduo trabalho, amplo, que desenvolve ideias, alimenta ou contra-ataca outras ideias e culmina num trabalho académico digno de se defender e tornar público.

A principal questão prende-se com a sua utilidade ou falta dela. Por exemplo, das 1399 reconhecidas no ano de 2009, quantas teses estão a ser activamente aproveitadas, quantas têm uma aplicação válida e contribuíram para desenvolver aspectos das áreas a que estão ligadas? Quantos alunos têm o privilégio de ver os seus trabalhos finais, não como documentos que lhes irá conceder um determinado grau académico, mas como um passo vanguardista das suas áreas de intervenção ou formação? É um facto que os trabalhos defendidos e aprovados nas instituições universitárias em Portugal, e quiçá no Mundo, são os mesmos que se encontram fechados em bases de dados parcamente consultadas.

Joana Correia, a frequentar a licenciatura em Psicologia, na Universidade da Madeira, afirma que “com o Processo de Bolonha, houve uma banalização das teses de mestrado/doutoramento, mas em contrapartida aumentou a sua diversidade em temáticas, sendo por isso contributos importantes para a comunidade científica.” Quanto à utilidade posterior diz que “se trata de mais uma fonte de estudo e material para todos aqueles que ainda estão no seu percurso académico e/ou todos aqueles que pretendam adquirir informação de fontes fidedignas.” Diana Nunez, aluna de Psicologia na mesma academia, defende, por seu lado, que deveria existir uma ferramenta que permitisse a toda a sociedade aceder a estes trabalhos, independentemente do seu tema ou academia. Rodrigo Silva, a frequentar o Mestrado em Psicologia da Educação, em Rio Maior, diz-se “um pouco céptico nesta matéria de teses, tal como nos trabalhos lectivos de licenciatura e do fazer por fazer. “Na minha opinião todos estes estudos, deveriam ser uma resposta a uma necessidade real, seja ela colectiva, social, cultural, empresarial ou mesmo singular. Só trabalhado casos reais é que nos aproximamos da realidade e saímos do tubo de ensaio que é o ensino.”

Esquecimento, pouca adequação às necessidades da sociedade, mas também, aumento das temáticas trabalhadas e de fontes de informação fidedignas, são algumas das características fundidas no actual sistema de mestrados e doutoramentos em Portugal. Perante isto, outra questão aprimora-se: qual a solução para este panorama?

Crozier (1970), no seu livro “A Sociedade Bloqueada”, assegura que “a universidade e a sociedade vivem naturalmente em simbiose.” Realmente, como o autor afirma “uma universidade isolada fica cega”. Por essa razão, na nossa humilde opinião de estudantes, urge uma mudança. O bom português gosta de se acomodar, mas vivemos num mundo em permanente alteração, que nos obriga a caminhar em passos rápidos, adequando o nosso passo ao dos demais. Há que criar oportunidades. E se estas existem, têm de ser aproveitadas, quanto mais não seja para nos apercebermos que há um mundo fora das paredes das academias e que trabalhamos, não também, mas preferencialmente para ele.

A resposta, a mudança, o reconhecimento verdadeiro está nas mãos de todos. Nós e o mundo somos os responsáveis da (in)utilidade do nosso trabalho.

Vera Duarte
Alumnus

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