Quando os grandes eram pequenos

Tinha 10 anos quando fui para o Porto Santo, mas até lá, a minha vida nesta nossa Madeira foi bem recheada. Os 8 anos na Ilha Dourada valeram-me o eterno apelido de “profeta”, mas mais do que isso, contribuíram grandemente para a pessoa que hoje sou.

Por entre raízes madeirenses e africanas fui aprimorando o meu gosto pela comunicação desde cedo. A minha avó lembra-se sempre dos momentos em que eu lhe fazia entrevistas na cozinha, por entre panelas e pratos, a mexer efusivamente as mãos. O meu avô, que toda a vida foi encadernador, viu-me crescer a revirar os seus papéis e a contactar com os livros desde cedo. A minha mãe conta e, ainda hoje confirma, que a personalidade forte (como eu gosto de chamar) ou o mau feitio (como outros lhe apelidam) nasceu comigo. O meu pai, a quem devo o tom “café com leite”, viu a sua sorte (ou azar, depende da perspectiva) duplicar quando a minha irmã Marta nasceu, há cinco anos, e quiçá verá a mesma triplicar, quando em Dezembro mais uma menina vier ao mundo. Os mesmos traços, a mesma perícia em refilar, as mesmas atitudes e manias!

Da menina calma deitada na alcofa passei para a refilona de serviço lá em casa. Fui ao Porto Santo, pela primeira vez, aos três meses… e fiquei numa tenda! O trauma deve ter ficado daí, pois acampar é algo que, hoje, não me seduz. Até ir viver para lá, devo ter ido uma dezena de vezes ao areal, normalmente nas férias, imbuídas de um sol imenso, banhadas por águas límpidas e refrescantes e abrilhantadas por uma boa lambeca.

Também desde os dois ou três anos fui com os meus avós e com a minha mãe ao continente, e dessas primeiras viagens tenho a vaga recordação de estar em Fátima com uma vela na mão, fato de treino cor–de–rosa, com a chuva a cair-me no rosto, ou então, de andar no metro e comer pastéis de nata, em Belém!

Fiquei com a minha avó até aos 4 anos e quando entrei na pré–primária, o país inteiro deve ter percebido, pelos meus berros e choros tradicionais pela manhã. Recusava-me a fazer a sesta, ficava a ver as minhas educadoras pintar as unhas, mas, tempos depois, passei a ser a defensora dos meus colegas e a voz activa da turma.

Muitas traquinices ficam desses tempos: as minhas infindáveis quedas, a minha apatia pela educação física e pela sopa de ervilhas, os meus argumentos para defender que a matemática era o ponto errado da minha vida. (A verdade é que a minha relação com os números nunca foi pacífica.) Recordo-me, também, de gostar de sapatos de salto alto e de batons, muitos! E de vestir o vestido de noiva da minha avó, imaculadamente guardado, até eu o ter descoberto.

Nos estudos, sempre fui uma menina aplicada, dizem! Completei a escola primária ainda na Madeira, e o secundário, no Porto Santo. Musicaep (como se denominava na altura), Desporto Escolar, concursos literários, apresentação de festas, actividades na natureza, participação na revista da escola e no clube de rádio, música, entre muitas coisas fizeram parte do meu percurso escolar. Tudo isto marcado pela minha atitude e teimosia, que me conceberam episódios bem cómicos. (Mas como diz a Guilherme, isso agora não interessa nada!)

Há sempre muito para dizer sobre a infância de alguém. Dos tempos da primária restam poucos conhecidos, com quem ainda mantenho contacto. Do secundário, filtraram-se os amigos para a vida. Os verdadeiros, de quem a distância e o mar não me conseguiram separar. Aqueles que, desde que entrámos na vida académica, voltam à velha base, todas as férias, para matar as saudades, relembrar velhos momentos e compor histórias para o futuro. São eles e a minha família, a minha verdadeira paixão.

Do Porto Santo, fica-me na memória, o ninho pequeno, tão pequeno que no início me fazia confusão, onde tive de aprender a viver, a aproveitar o pouco mas essencial que aquela terra nos pode dar. Também, durante aqueles 8 anos, esta ilha foi o ponto de partida para as minhas grandes e marcantes viagens: Bélgica e Chipre, o frio e o calor, os opostos de histórias e vivências, que trouxe comigo guardados nas malas. Guardam-se-me, igualmente, a entrada tímida nas lides partidárias, que continuo, com toda a garra que posso, noutros palcos, porventura mais activos, mais sedutores e extasiantes, dos quais me orgulho, apesar de todos os apesares.

Entrar na universidade, e numa área de estudo pela qual me fui apaixonando (a Psicologia), foi o melhor que me podia ter acontecido. A UMa marcou a minha vida e terá sempre um papel fulcral no meu futuro. Sobre a minha mui nobre academia sempre disse que primeiro estranha-se e depois entranha-se. Que, sem darmos conta, esta passa a ser a nossa segunda casa, ou talvez a primeira, onde “se vive enquanto se estuda” (Beja, 2011), onde se praxa, se amadurece, se chora e se ri, aquela casa que nos dá o passaporte para o mundo lá fora, onde se conhecem grandes pessoas, amigos, exímios professores, todos estes, mestres e inspirações desta jornada, a quem, todos os dias, devo um obrigado por existirem.

Também nesta casa, descobri uma outra família, a da AAUMa, que me lançou para as parcerias da rádio, para o JA e para o meu estimado “Pátio dos Estudantes”. Desde as reportagens e entrevistas, até ao Carpe Diem, e aos estúdios da RTP, tudo tem passado num ápice e de todo esse todo, tenho bebido as melhores experiências, a mais bela inspiração, o esforço e o empenho de uma equipa que me recebeu e ensinou da melhor forma.

Sou eu. Às vezes perguntam-me de onde vem a inspiração, até a racionalidade com que conduzo aspectos da minha vida e a dicotómica emocionalidade que paira sobre mim. Não tenho resposta. Talvez porque a verdadeira essência da felicidade está na vida, a fulcral inspiração sou eu e tu que lês, tu que ouves, tu que sorris, tu que choras, tu que magoas e tu que me amas.

A mesma vida que me fere e queima, é a mesma que presenteia com os mais simples gestos, que me envolve nos momentos mais únicos e especiais. Um dia tudo será o livro daquilo que eu amei, senti e vivi.

Vera Duarte
Colaboradora da AAUMa

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