A Associação para Promoção da Herança Madeirense e a Académica da Madeira promovem, no sábado, 16 de maio, a partir das 15:30, o evento “Café e Livros”, um encontro cultural de entrada livre que terá lugar no Jacafé, na rua dos Ferreiros, no Funchal.
“A ideia é simples e, talvez por isso, necessária”, como explica a organização. Pretendemos “juntar autores, leitores, café e conversa, sem palco, sem mesa de honra e sem o peso habitual das sessões formais”. O encontro foi pensado para aproximar quem escreve de quem lê, criando um ambiente em que a literatura possa ser falada com naturalidade, sem discursos longos nem distância entre convidados e público.
O evento surge num momento em que a leitura continua a enfrentar desafios importantes. Segundo o Eurostat, em 2022, apenas 52,8% da população da União Europeia com 16 ou mais anos declarou ter lido livros nos 12 meses anteriores, incluindo livros impressos, digitais e audiolivros. O mesmo levantamento indica que os jovens entre os 16 e os 29 anos foram o grupo etário com maior prática de leitura, com 60,1%, um dado que reforça a importância de criar formatos culturais mais próximos, informais e acessíveis.
Em Portugal, os sinais são mistos. O estudo Hábitos de Compra e Leitura de Livros em Portugal, encomendado pela Associação Portuguesa de Editores e Livreiros à Nielsen/GfK e apresentado em 2025, indica que 76% dos portugueses leram pelo menos um livro em 2024, acima dos 73% registados no ano anterior. Ainda assim, a média de livros lidos por pessoa desceu de 5,6 para 5,3, mostrando que há mais leitores, mas uma relação menos regular ou menos intensa com a leitura.
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O lançamento na Feira do Livro do Funchal foi no passado domingo, 26 de março. O novo livro foi editado pela CADMUS, uma das editoras da ACADÉMICA DA MADEIRA, da autoria de Andreia Baptista (texto) e Teresa Vieira (ilustração).
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Também o mercado do livro revela uma realidade que merece atenção. Os dados divulgados pela APEL, com base no painel GfK, acompanham regularmente a evolução das vendas em Portugal, com uma cobertura estimada de cerca de 85% do mercado auditado. Em 2024, segundo dados publicados pelo Jornal de Negócios a partir da informação do setor, o mercado livreiro português cresceu em valor, ultrapassando os 205 milhões de euros e aproximando-se dos 14 milhões de exemplares vendidos. É um crescimento relevante, mas que não resolve, por si só, o problema central da leitura enquanto hábito cultural quotidiano.
No plano europeu, a Federação Europeia de Editores estimou que o mercado do livro atingiu, em 2024, um volume nominal de 24,9 mil milhões de euros. O mesmo relatório assinala, porém, que o livro impresso continua a dominar, representando 82,9% do volume de negócios, enquanto as livrarias físicas continuam a ter um peso determinante, com 48,2% das vendas. Estes números ajudam a lembrar que, mesmo numa época marcada pelo digital, o encontro presencial, a livraria, o café e a conversa continuam a fazer parte da vida do livro.
É nesse espírito que nasce o Café e Livros. Durante cerca de uma hora, o público poderá conversar diretamente com autores publicados pelas chancelas editoriais da Herança Madeirense, a Imprensa Académica, a Cadmus e a Ícaro. Escritores, investigadores, ilustradores e editores estarão disponíveis para falar sobre livros, processos de criação, investigação, edição, ilustração e sobre tudo aquilo que raramente cabe numa apresentação formal.
A iniciativa resulta também da experiência vivida no espaço da Herança Madeirense durante a edição deste ano da Feira do Livro do Funchal. Ao longo dos dez dias de feira, a presença regular de autores das várias chancelas permitiu que muitos leitores contactassem diretamente com escritores, ilustradores e investigadores. As conversas espontâneas, muitas vezes nascidas de uma pergunta simples sobre um livro, mostraram que existe espaço para formatos mais próximos e menos rígidos.
O Café e Livros procura prolongar essa dinâmica, agora fora do calendário da feira e num espaço próprio. Reúne autores de diferentes áreas e percursos, incluindo investigadores e divulgadores de ciência, romancistas, contistas, dramaturgos, poetas e ilustradores. A proposta não é substituir os lançamentos, as conferências ou as apresentações públicas, mas acrescentar outro tipo de encontro, mais livre e mais próximo da forma como os livros entram, muitas vezes, na vida das pessoas.
As três chancelas presentes traduzem essa diversidade editorial. A Imprensa Académica tem publicado obras de investigação, ensaio e divulgação científica, procurando aproximar o conhecimento produzido em contexto académico de públicos mais alargados. A Cadmus dedica-se sobretudo à edição literária, com especial atenção ao romance, ao conto e à ficção. A Ícaro, cujas primeiras obras foram apresentadas na Feira do Livro do Funchal de 2026, aposta na literatura para a infância e para o público jovem, cruzando texto, ilustração e novas abordagens narrativas.
Em conjunto, estas editoras têm contribuído para valorizar a produção intelectual e criativa madeirense, dando visibilidade a autores emergentes e a vozes já estabelecidas. Essa afirmação ganha particular importância num território onde a edição, a distribuição e a relação regular com os leitores enfrentam obstáculos próprios, desde a escala do mercado até à distância em relação aos principais circuitos comerciais nacionais.
Mais do que um evento literário convencional, a organização pretende criar um espaço acessível a todos, mesmo a quem não costuma frequentar apresentações de livros. O público será convidado a circular, conversar e integrar os diferentes núcleos de diálogo que se forem formando ao longo da tarde. A leitura, neste caso, não será tratada como um gesto solitário, mas como ponto de partida para encontro, curiosidade e partilha.
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A escolha do Jacafé contribui para esse ambiente. Situado no número 138 da rua dos Ferreiros, em pleno centro do Funchal, o café integra o Jaca Hotel e distingue-se por um ambiente acolhedor e descontraído. O próprio nome, jaca, remete para a designação popular madeirense de um pequeno caranguejo tradicionalmente utilizado como isco na pesca de determinadas espécies, reforçando a ligação do espaço ao imaginário local.
A localização tem ainda um valor simbólico para as entidades promotoras. O Jacafé encontra-se entre dois pontos relevantes da vida cultural e académica da cidade, a histórica Livraria Esperança e o Colégio dos Jesuítas, onde estão disponíveis, na Gaudeamus, as obras publicadas pelas editoras participantes desde a sua criação.
Luís Eduardo Nicolau
Carlos Diogo Pereira
ET AL.
Com fotografia de Pj Accetturo.
