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População da Macaronésia une-se em defesa da noite e da biodiversidade

População da Macaronésia une-se em defesa da noite e da biodiversidade

A luz artificial tem transformado as noites da Macaronésia, mas agora, a própria população está a liderar a mudança.

Entre 2022 e 2023, um inquérito realizado no âmbito deste projeto, coordenado pela Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA), ouviu mais de dois mil residentes destes arquipélagos e revelou uma vontade clara: as pessoas querem noites mais escuras — e mais vivas.

Com 95% dos participantes a manifestar-se dispostos a alterar hábitos de iluminação para proteger as aves marinhas e mais de 90% abertos a mudanças nas suas localidades, os resultados confirmam uma sensibilidade crescente aos impactos da luz artificial na biodiversidade noturna. A preocupação com as aves marinhas, especialmente vulneráveis à poluição luminosa, destaca-se como símbolo desta nova consciência.

“É inspirador ver que as pessoas estão dispostas a mudar em nome da vida selvagem”, comenta Cátia Gouveia, coordenadora da SPEA Madeira e do projeto. “A luz que para nós é conforto, pode ser uma armadilha mortal para muitas espécies.”

Em 2025, uma nova ronda do inquérito foi lançada, esperando-se resultados ainda mais expressivos. “Queremos medir o impacto destas ações na perceção pública e verificar até onde conseguimos chegar. As pessoas já mostraram que querem fazer parte da solução”, acrescenta Cátia Gouveia.

Guardiões da noite: Conservação de insetos noturnos na Macaronésia

Os insetos fazem parte de um vasto grupo de invertebrados que garantem o normal funcionamento dos ecossistemas. Além disso, os seus serviços são indispensáveis à sobrevivência humana. No entanto, o declínio da biomassa e diversidade de insetos permanece alarmante desde as últimas décadas.

A sensibilização tem sido um dos pilares do projeto LIFE Natura@night, que desde 2022 promove uma nova forma de olhar para a noite, sob o lema “Por uma noite com mais vida”. Mas o projeto não se fica pelas palavras. A 16 de maio de 2025, no Dia Internacional da Luz, foi celebrado o terceiro ano desta iniciativa, com uma conquista de peso: seis novos Planos Diretores de Iluminação do Concelho (PDIC).

Estes documentos, adotados pelos municípios do Funchal, Santana e Câmara de Lobos (Madeira), Santa Cruz da Graciosa (Açores), e Mogán e Buenavista del Norte (Canárias), são ferramentas técnicas essenciais para garantir uma gestão sustentável da luz noturna, conciliando segurança, eficiência energética e proteção da biodiversidade, e que estão em vias de criarem regulamentos com base nestas diretrizes.

Antes do projeto, apenas dois concelhos contavam com regulamentação específica sobre iluminação: Santa Cruz e Machico. Hoje, os avanços são visíveis e os objetivos ambiciosos: chegar a mais municípios e inspirar mudanças a nível nacional. Cátia Gouveia sublinha a importância desta transformação: “Cada residente destes arquipélagos paga cerca de 30 euros por ano em luz desperdiçada. O custo é ambiental, económico e até para a saúde humana. Está na hora de repensarmos a forma como iluminamos o mundo”.

Complementando estes esforços, o projeto desenvolveu ainda três manuais de boas práticas, dirigidos a públicos distintos: gestores de áreas protegidas, comunidade piscatória e costeira. Estes manuais oferecem orientações claras e práticas para reduzir a poluição luminosa, com exemplos concretos de soluções adaptadas aos diferentes contextos dos arquipélagos. Ao capacitar os vários intervenientes com conhecimento acessível e aplicável, os manuais reforçam o compromisso coletivo com uma iluminação mais sustentável e amiga da biodiversidade.

Biodiversidade noturna ameaçada pela Poluição Luminosa

“A poluição luminosa é um problema global e que afeta não só a biodiversidade com hábitos noturnos, incluindo o ser humano, como também a atividade astronómica. As zonas urbanas sofrem mais com este problema, de tal modo que do centro das nossas cidades é quase impossível observar estrelas”, afirma Cátia Gouveia, coordenadora da SPEA Madeira e do projeto LIFE Natura@night.

A interferência da poluição luminosa com os ritmos naturais dos ecossistemas é uma realidade cada vez mais estudada. Animais noturnos perdem orientação, habitats ficam fragmentados e até os humanos veem os seus ciclos de sono e saúde afetados. O projeto LIFE Natura@night junta ciência, políticas públicas e participação cidadã para enfrentar este desafio, promovendo soluções integradas que beneficiam todos os que partilham a noite.

O projeto LIFE Natura@night é cofinanciado pelo programa LIFE da União Europeia, coordenado pela SPEA, e tem como parceiros a Câmara Municipal de Câmara de Lobos, a Câmara Municipal do Funchal, a Câmara Municipal de Santa Cruz, a Câmara Municipal de Machico, a Câmara Municipal de Santana, a Câmara Municipal de Santa Cruz da Graciosa, a Direção Regional de Políticas Marítimas, o Instituto das Florestas e Conservação da Natureza, o Instituto de Astrofísica de Canárias, o Instituto Tecnológico de Canárias, a ALARED, a Fluxo de Luz e a Sociedade Espanhola de Ornitologia.

Os resultados detalhados do inquérito, planos diretores de iluminação e outras informações estão disponíveis no site oficial do projeto.

Elisa Teixeira
Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves
Com fotografia de Neide Paixão.

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