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Candidaturas às bolsas batem recordes enquanto financiamento continua insuficiente

Candidaturas às bolsas batem recordes enquanto financiamento continua insuficiente

As candidaturas às bolsas Marie Skłodowska-Curie mais do que duplicaram em dois anos, enquanto a taxa de sucesso caiu para cerca de 7,4%.

A investigação europeia enfrenta uma procura sem precedentes pelos seus principais programas de financiamento, sem que o investimento disponível acompanhe o crescimento das candidaturas. Em 2026, as bolsas de pós-doutoramento das Ações Marie Skłodowska-Curie (MSCA) receberam 21.627 candidaturas, o número mais elevado registado em quatro décadas de programas-quadro europeus. Este valor representa um aumento de 26,7% relativamente a 2025, quando tinham sido apresentadas 17.066 propostas. Em 2024, o número situava-se nas 10.360. Apesar do crescimento, a dotação indicativa para este ano é de 399 milhões de euros, suficiente para financiar aproximadamente 1600 investigadores. A taxa de sucesso deverá, assim, cair para cerca de 7,4%, depois de ter atingido 16,6% em 2024 e aproximadamente 10% no ano passado.

A situação repete-se nas bolsas de arranque do Conselho Europeu de Investigação (ERC), destinadas a investigadores em início de carreira. As candidaturas aumentaram de 3474, em 2024, para 4807, em 2026, reduzindo a taxa de sucesso para menos de 9%. As perspetivas para 2027 são ainda mais preocupantes, com 7710 candidaturas apresentadas e uma estimativa de apenas 373 projetos financiados, o que poderá representar uma taxa de sucesso de 4,8%. A dimensão do problema levou a Comissão Europeia a anunciar um reforço de 210 milhões de euros para as bolsas de pós-doutoramento das MSCA, permitindo apoiar mais 700 investigadores em 2026 e 2027. Ainda assim, os responsáveis europeus reconhecem que os recursos adicionais dificilmente conseguirão acompanhar o crescimento da procura.

Reter jovens, reter ciência

Diogo Nuno Freitas escreve na edição de hoje do DIÁRIO sobre a “retenção de talento científico” que “exige abordagens específicas que vão além das medidas gerais para manter os jovens no país”.

A utilização da inteligência artificial na preparação das candidaturas surge como uma das explicações para este aumento, embora os investigadores ouvidos pelo PÚBLICO rejeitem que seja a única causa. Marta Agostinho, diretora da EU-LIFE, aliança europeia de centros de investigação em ciências da vida, considera que a insuficiência de financiamento já era evidente antes da generalização destas ferramentas. “Já antes do advento dos processos com inteligência artificial, a taxa de sucesso das MSCA e das bolsas de arranque do ERC estava a níveis demasiado baixos para se poder investir suficientemente nas propostas excelentes que surgem de todos os cantos da Europa e do mundo”, afirmou ao PÚBLICO. A investigadora considera que os concursos “são um grito de ajuda, porque evidenciam quão escassas oportunidades os investigadores têm de construir uma carreira de sucesso”. Gabi Lombardo, da Aliança Europeia das Ciências Sociais e Humanidades, reconhece que a inteligência artificial facilitou a elaboração de propostas, sobretudo para investigadores cuja língua materna não é o inglês, identificando também a redução do financiamento nacional como um fator determinante.

A precariedade das carreiras científicas constitui outra explicação para a procura crescente de financiamento europeu. Anna Zhelnina, investigadora da Universidade de Utrecht, considera que a inteligência artificial não explica a persistência de propostas de elevada qualidade sem financiamento. “A inteligência artificial pode ter um papel no aumento do volume, claro, mas não explica porque é que propostas avaliadas como excelentes continuam a não conseguir financiamento: a inteligência artificial ainda não consegue escrever propostas excelentes”, declarou ao PÚBLICO. A investigadora defende que a resposta passa por reforçar os sistemas nacionais de investigação, garantindo oportunidades de emprego e financiamento nas universidades, incluindo para projetos de menor dimensão. A sua própria experiência ilustra as dificuldades existentes, depois de ter sido contratada como professora auxiliar nos Países Baixos e de os fundos nacionais aos quais esperava candidatar-se terem sido reduzidos poucos meses depois.

Em Portugal, as dificuldades de financiamento também são apontadas como um incentivo à procura de bolsas europeias. Catarina Seabra, investigadora da Universidade de Coimbra, antiga bolseira Marie Skłodowska-Curie e avaliadora destes concursos, considera que “as oportunidades de emprego científico estável e de financiamento para desenvolver investigação continuam a ser limitadas e muito competitivas”. Marta Agostinho acrescenta que “Há vários países, como Portugal, que não investem o suficiente – nem com uma estratégia clara e de longo prazo – em investigação e inovação. Isso faz com que os investigadores tenham de procurar outras opções”. Os números mostram que os investigadores radicados em Portugal representam aproximadamente 3% das candidaturas às MSCA, correspondentes a cerca de 650 propostas. A crescente procura internacional também se reflete no aumento de 185% das candidaturas provenientes dos Estados Unidos, embora estas continuem a representar menos de 2% do total.

O futuro do financiamento científico europeu permanece incerto, numa altura em que os Estados-membros discutem uma redução de 10% relativamente ao orçamento inicialmente proposto pela Comissão Europeia para o próximo programa-quadro, que vigorará entre 2028 e 2034. Gabi Lombardo considera contraditória esta orientação, num momento em que a Europa procura reforçar a sua capacidade científica. “A Europa, neste momento, precisa de mais unidade do que nunca e de mais recursos, sobretudo de conhecimento partilhado”, afirmou ao PÚBLICO. A Comissão Europeia já introduziu restrições às candidaturas apresentadas em anos consecutivos e limites relacionados com a experiência dos investigadores, procurando gerir a procura. Contudo, um porta-voz da instituição reconheceu que “quaisquer recursos adicionais não conseguem compensar totalmente o crescimento sem precedentes da procura”. A discussão sobre o próximo orçamento europeu será, por isso, determinante para perceber quantos dos projetos científicos considerados de elevada qualidade poderão efetivamente receber financiamento nos próximos anos.

Carlos Diogo Pereira
ET AL.
Com fotografia de Bee Naturalles.

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