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Cortes dos EUA ameaçam travar combate global ao VIH e causar milhões de mortes

Cortes dos EUA ameaçam travar combate global ao VIH e causar milhões de mortes

Cortes no financiamento internacional liderados pelos Estados Unidos ameaçam reverter décadas de progressos no combate ao VIH, podendo causar milhões de novas infecções e mortes até 2030.

Os cortes no financiamento norte-americano ao combate internacional ao VIH podem reverter décadas de progresso e provocar consequências devastadoras, especialmente em regiões como a África subsariana. Um estudo recente, publicado na The Lancet HIV, alerta que, se forem concretizadas as reduções propostas pelos Estados Unidos e por vários países europeus, o número de novas infecções poderá atingir os níveis de 2010. No pior cenário, até 2030, poderão registar-se mais de dez milhões de novas infecções e perto de três milhões de mortes, sobretudo entre as populações mais pobres e vulneráveis.

Grande parte do financiamento global contra o VIH provém dos Estados Unidos, que só em 2023 destinaram cerca de 5300 milhões de euros a esta área. No entanto, o novo executivo de Donald Trump colocou em causa programas cruciais como o PEPFAR, criado por George W. Bush, e o apoio da USAID, afectando gravemente o acesso a medicamentos antirretrovirais e a serviços de prevenção. Estes cortes, a par de decisões semelhantes por parte do Reino Unido, França, Alemanha e Países Baixos, poderão deixar milhões de pessoas sem cuidados básicos, comprometendo os avanços alcançados nas últimas duas décadas.

O impacto será particularmente severo em países com menos recursos, onde a ajuda internacional tem permitido reduzir de forma significativa as infecções e mortes por VIH. Nestes contextos, a interrupção abrupta de apoio pode levar ao colapso de programas de testagem e tratamento, aumentar o risco de transmissão vertical — de mãe para filho — e agravar ainda mais as desigualdades. Como sublinha a investigadora Paula Meireles, o progresso feito nestas regiões poderá perder-se, com implicações não só na saúde pública, mas também no desenvolvimento económico local.

Apesar do cenário preocupante, os autores do estudo deixam uma nota de esperança: se os governos nacionais reforçarem os seus próprios sistemas de saúde, e se a União Europeia e outros parceiros intensificarem a cooperação, poderá ser possível mitigar parte dos efeitos. Ainda assim, o tempo é curto. Os cortes já começaram a produzir efeitos e, sem uma resposta célere e coordenada, corremos o risco de assistir a um retrocesso sem precedentes na luta global contra o VIH.

Carlos Diogo Pereira
ET AL.
Com fotografia de Claudio Schwarz.

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