“Tenho a preocupação de aproximar os mais jovens do Parlamento Europeu”

Sara Cerdas, madeirense e médica, foi, em 2019, eleita eurodeputada ao Parlamento Europeu. No início de fevereiro, a eurodeputada recebeu vários jovens da Madeira no Parlamento Europeu, reforçando a importância para aproximar a "Região dos centros de decisão".

Em fevereiro, Bruxelas recebeu a visita de vários jovens, a convite da eurodeputada Sara Cerdas.

Neste momento de aproximação do Parlamento Europeu a jovens madeirenses, a eurodeputada foi a anfitriã de A Journey to Paradise, uma ação de promoção da Madeira que congregou duas iniciativas da ACADÉMICA DA MADEIRA: o lançamento da obra MADEIRA ILUSTRADA por Andrew Picken, uma nova edição do livro originalmente publicado em 1840, em Londres; e uma exposição fotográfica, inspirada na obra de Picken, com paisagens do Arquipélago.

O Turismo é, atualmente, um dos pilares económicos da Região. Que importância têm as atividades de promoção do destino Madeira também dentro do Parlamento Europeu?

As Regiões Ultraperiféricas (RUP) – como é o caso da Madeira – enfrentam desafios muito particulares, por isso todas as iniciativas são uma importante montra para dar a conhecer este tipo de problemáticas que afetam milhares de cidadãos europeus que vivem nelas, aos decisores políticos europeus.

Enquanto deputada ao Parlamento Europeu, tenho primado por defender estes nossos interesses, mas também por aproximar a Região dos centros de decisão e divulgar um pouco da Madeira e das nossas tradições aqui em Bruxelas. Este tipo de iniciativas vai muito além de mostrar a gastronomia e os costumes locais, ou a própria decoração do meu gabinete com paisagens da nossa ilha, mas também de mostrar a importância que a Europa tem no desenvolvimento regional e das suas populações.

Neste mandato, tenho a destacar a visita de uma comitiva de eurodeputados, da Comissão de Transportes e Turismo do Parlamento Europeu (TRAN), à Madeira, em abril de 2022, após o meu convite e o apoio dos restantes grupos políticos. A visita foi uma oportunidade única para os parlamentares conhecerem em primeira mão os principais desafios e oportunidades da região.

Outra iniciativa a destacar, já este ano, na primeira semana de fevereiro, em parceria com a Académica da Madeira, é a exposição que estamos a organizar no Parlamento Europeu, intitulada “A Journey to Paradise”, composta por 10 imagens de paisagens das ilhas da Madeira, Porto Santo e Desertas. O objetivo dos eventos é mostrar um pouco mais do que se faz na Madeira, mostrar que a Madeira é um centro de oportunidades e de grandes talentos.

Com a pandemia, o setor do turismo sofreu um forte abalo, consequência do encerramento de fronteiras e das restrições de voos nos nossos principais mercados. A União Europeia reagiu de imediato às necessidades da retoma económica, com programas importantes para o setor do turismo, no âmbito do Quadro Financeiro Plurianual 2021-2027 e do “Next Generation UE”, fundos que muito ajudaram à retoma económica. Mas será preciso fazer mais, como a criação de um programa de financiamento específico para o Turismo a nível europeu, inexistente até à data. Todo o financiamento é necessário para a recuperação e adaptação de um setor tão importante para Regiões, como a Madeira, e para fazer face aos novos desafios, como a transição digital e ambiental do setor, mas também em busca de novas ferramentas de valorização e formação dos trabalhadores.

Em declarações ao Diário de Notícias da Madeira, indicou que o “Ano Europeu da Juventude representou uma oportunidade sem igual de aproximarmos a União Europeia aos jovens”, bem como que recebeu “no Parlamento Europeu 100 jovens, maioritariamente da Madeira”.

De que forma aproximar os jovens às instituições europeias é importante? Na Madeira, como perceciona o conhecimento que os jovens têm da importância da União Europeia?

Quando se vive numa ilha, pela distância natural entre o território insular e o continente, existe uma espécie de sentimento de orfandade das instituições europeias para com os nossos problemas e desafios. Também o facto de já termos nascido dentro da União Europeia, faz-nos esquecer o quão imprescindível ela é para a nossa vida e o quanto já fez e faz por nós. É por isso importante assegurar que a juventude se sente parte, que os seus direitos são defendidos por quem trabalha diariamente nas instituições europeias.

Desde o início do meu mandato que tenho a preocupação de aproximar os mais jovens do Parlamento Europeu, porque senti que estes estavam um pouco desligados do projeto europeu. Esta aproximação faz-se com visitas recorrentes de grupos de visitantes, que podem in loco conhecer o meu trabalho e o que se faz diariamente para melhorar a vida dos cidadãos. Mas não fica por aqui, desde 2019, criei o projeto “Europe Calling”, onde todos os anos os alunos do ensino secundário da Madeira são convidados a fazer um curto vídeo sobre um tema da atualidade. Os dois melhores trabalhos ganham uma visita ao Parlamento Europeu. Esta iniciativa tem como objetivo consciencializar os jovens para as temáticas europeias, bem como promover a sua participação ativa na vida democrática da Europa. O sucesso do projeto tem sido crescente e o número de equipas a participar todos os anos tem aumentado, o que significa que os jovens querem participar e envolver-se mais.

Também em 2022, no Ano Europeu da Juventude, a delegação do PS no Parlamento Europeu organizou um evento inédito: o “9 for Youth”. 200 jovens vieram de todos os cantos de Portugal, incluindo da Madeira e dos Açores, e tiveram como desafio definir as 9 principais prioridades para a União Europeia. Em plenário, em Estrasburgo, fui porta-voz destas mesmas prioridades, num apelo à Comissão Europeia para a sua implementação.

É membro da Comissão do Ambiente, da Saúde Pública e da Segurança Alimentar e da Comissão Especial sobre a Pandemia de COVID-19, não contando com as delegações que integra.

Quais os principais desafios que sente como Membro do Parlamento Europeu?

Tenho abraçado inúmeras causas diretamente ligadas às RUP, em especial em tudo o que diga respeito à Madeira. A maior dificuldade, por vezes, é mostrar que uma ou outra proposta pode ser muito importante para o futuro destas Regiões e que será necessário ter um olhar mais cuidadoso na discussão. Um exemplo prático: uma questão ligada ao mar reveste uma importância enorme para a Madeira, mas não tanto para a Alemanha.

O último grande desafio, por exemplo, foi a adoção de derrogações para as Regiões Ultraperifericas (RUP) para o setor marítimo e aéreo, no âmbito do pacote legislativo “Fit for 55”. Estas derrogações na proposta de regulamento do Comércio de Licenças de Emissão (ETS) protegem estas regiões na transição climática e energética. Visto que a Comissão não previa nenhum regime especial para as RUP na sua proposta inicial, estas derrogações resultaram de uma grande força de negociação pelo Parlamento e representam um importante passo para o reforço da coesão territorial e transição justa. Em breve o acordo final será votado em plenário, mas, até ao momento, não se prevê que o voto seja negativo.

A Saúde Mental é uma das áreas da Saúde com menor financiamento. Que importância tem a conscientização da população para este problema que afeta 20% a 25% das crianças e jovens da União Europeia, como indicou o Euroactiv em outubro último?

A pandemia, as crises e os conflitos mundiais colocaram enorme pressão sobre a saúde mental e o bem estar de toda a população, com o aumento de sintomas de ansiedade e depressão, em especial entre os mais jovens, sendo hoje a segunda causa de morbilidade. Precisamos de eliminar o estigma e discriminação que está associado à doença mental.

Urge uma aposta na criação de estratégias para implementar programas que promovam a saúde mental e o bem-estar ao longo da vida, e ao mesmo tempo aumentar os serviços de apoio social e de cuidados de saúde mental que respondam às necessidades da população, em especial os mais vulneráveis. O objetivo principal prende-se com um profundo debate deste problema de saúde pública e um reforço das iniciativas legislativas. Mas só conseguiremos isso com uma estratégia europeia conjunta, tal como tenho consecutivamente apelado à Comissão Europeia.

Felizmente, já existe o compromisso de uma nova iniciativa sobre saúde mental na União Europeia, prevista para junho deste ano. As expectativas são altas – estarei atenta à proposta e, se adequado, apresentarei as devidas sugestões de melhoria.

 

Entrevista conduzida por Carlos Diogo Pereira.
ET AL.
Fotografia do Gabinete da eurodeputada.