Fogo que arde e se vê

Não é a primeira vez que, este ano, me expresso publicamente sobre os incêndios no nosso país.

Aliás, quando o fiz, em tempos, havia dito, o Primeiro-Ministro, António Costa, que “só não há incêndios se a mãozinha humana não provocar incêndios. Portanto, aquilo que temos que fazer é mesmo evitar o incêndio.” O que acontece é que, ano após ano, Portugal arde e corre atrás do prejuízo. Evitar o incêndio vai muito além da mão humana que, reconheço, em missão e responsabilidade coletivas pode ajudar. Mas esta vontade não chega para combater o flagelo que tem atingido o nosso país e as nossas gentes. É fogo que arde e que se vê.

O problema cresce à velocidade das chamas e, mais do que nunca, tornou-se um imperativo público que cabe a quem governa Portugal dirimir. Não se trata de uma opinião político-partidária, ainda que isso possa estar subjacente por ser impossível ignorar a realidade e o contexto governativo do nosso país, mas, sim, acima de tudo, um apelo de e para todas as gerações.

Desde janeiro, segundo dados recentes do Sistema Europeu de Informação sobre Incêndios Florestais, os incêndios devastaram mais de 662 mil hectares de florestas europeias, sendo Portugal o país com maior percentagem de área ardida na Europa em relação à sua dimensão. Quase 1% do território português ardeu este ano. A nossa área ardida, até meados de agosto, já triplicou a de todo o ano passado. E os incêndios continuam a deflagrar. O problema é complexo e grita por soluções articuladas.

Há vários fatores a ter em conta.

Julho, por exemplo, foi o mês mais quente dos últimos 81 anos. Ora, as alterações climáticas são um tema do qual já nenhum país pode fugir, tendo, indubitavelmente, de aprender a lidar com ele. O quanto antes. Outra questão prende-se com o número de terrenos privados onde existem incêndios. É certo que o Estado pode tomar várias medidas, como a posse administrativa da área para defesa do interesse público, mas importa atualizar o cadastro, como forma, até, de esclarecer proprietários e envolver todos quanto possível na prevenção do problema, através, por exemplo, da limpeza dos seus terrenos.

Outra perspetiva, meramente ilustrativa deste macroproblema, é a falta de visão para o interior. Portugal tem dias que se assemelha a uma terra de ninguém. A aposta no interior e no ordenamento do território também evita catástrofes. Em 2017, após aquele que foi o maior incêndio florestal e o mais mortífero de sempre em Portugal – o de Pedrógão Grande – o Governo da República prometeu um projeto piloto florestal e a maior mudança na floresta desde os tempos de D. Dinis.

Só em 2021, o Conselho de Ministros veio aprovar instrumentos relacionados com o ordenamento do território, ordenamento da paisagem ou intervenções ligadas à gestão do espaço rural. Este ano, devido ao incêndio na Serra da Estrela, António Costa voltou a colocar em cima da mesa mais um estudo.

À primeira vista, até parece um ciclo vicioso. Esperemos que não. Porque como reitera a publicidade, “Portugal chama. Por si. Por todos”.

Vera Duarte
Alumnus da UMa
Com fotografia de Raquel Raclette.

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