A vontade de estudar aspectos regionais

No âmbito da Semana das Artes e Humanidades, foi realizada, no passado dia 13 de Maio, a pré-apresentação do e-book "Estudos Regionais e Locais: 13 anos de Mestrado (2009- 2022)", que celebra os 13 anos de criação desse Mestrado na Universidade da Madeira. Helena Rebelo (HR), Diretora do Mestrado, e Lúcia Pestana (LP), Mestre em Estudos Regionais e Locais, foram, enquanto autoras, as responsáveis pela apresentação da obra e falaram-nos sobre a iniciativa e a importância desta área de estudo.

A ET AL. publica, aqui, a segunda parte da entrevista.

Que áreas são definidas pelo conceito de “Estudos Regionais e Locais”? Em 13 anos, quais as áreas de maior interesse ou relevância na investigação realizada?

LP: Segundo o Regulamento Específico do 2.º Ciclo em Estudos Regionais e Locais, as áreas definidas para a elaboração da dissertação, no âmbito dos Estudos Regionais e Locais, são: História, Linguística, Geologia, Arte, Cultura, Literatura e Gestão. No entanto, os estudantes podem juntar áreas científicas diferentes como tem acontecido ao longo dos anos. As investigações dos estudantes são importantes contributos para a comunidade em geral e, sobretudo, para a científica. Muitas vezes, são trabalhos inovadores que enriquecem e dignificam o domínio dos Estudos Regionais e Locais.

HR: Os Estudos Regionais e Locais não são de uma área científica específica. Estudar “regiões” e “localidades”, o que estas duas dimensões territoriais, em princípio, tanto geográficas, como geológicas, implicam transcende qualquer disciplina científica, havendo necessidade de muitas para as compreender e investigar.

As comunidades regionais e locais são dinâmicas e complexas. Têm uma população com um passado e instituições governativas. Possuem uma língua, ou mais, e identidade própria. As suas singularidades registam-se na cultura, na arte, na literatura e nas vivências do quotidiano, incluindo a parte da economia e do turismo, se, como acontece com as ilhas da Madeira e do Porto Santo, recebem milhares e milhares de turistas ao longo do ano, há séculos.

Todo este manancial obriga a olhar para as localidades ou as regiões sob diversos prismas e isso é o que se faz no Mestrado em Estudos Regionais e Locais, incidindo, sobretudo, como é óbvio, no caso da Região Autónoma da Madeira (RAM), por ser o território onde a Universidade da Madeira se situa e por haver necessidade de desenvolver investigação sobre a RAM.

As Dissertações, cujos títulos e resumos são compiladas no livro, evidenciam bem a diversidade temática e a pluralidade de interesses que os estudantes, enquanto investigadores, foram tendo, no âmbito dos Estudos Regionais e Locais.

Que espaço encontra o estudo dos meios regionais e locais no meio académico?

LP: É um espaço que merece ser mais amplo e valorizado, dada a sua importância.

HR: Que eu saiba, não há, no nosso meio académico, um curso tão importante para os Estudos Regionais e Locais como o mestrado criado no início do século e que se tem mantido com 8 edições, bienais até 2018-2019 e anuais desde 2019-2020. Passando a ter edições todos os anos, começou a ter um Conselho de Curso com dois docentes e dois discentes, estando aberto às iniciativas de todos.

O propósito deste curso de formação avançada é formar para a intervenção nas comunidades locais e regionais, com competências multidisciplinares. Concilia História, Identidade, Literatura, Arte, Gestão, Turismo, Geodiversidade, Insularidade, Sociedade, Cultura, Linguística, Património Cultural Material e Imaterial, Património Natural e Património Linguístico. Esta riqueza de saberes e competências não se encontra em nenhum outro mestrado da UMa, embora haja ofertas formativas também elas ricas e diversas.

É preciso sublinhar que os próprios mestrandos dos Estudos Regionais e Locais são, igualmente, de áreas distintas, vindo a valorizar o curso com a pluralidade das suas formações de base.

Que interesse tem demonstrado o grande público por estas áreas do conhecimento?

LP: Ao longo dos 13 anos de curso, o interesse tem sido diversificado. É um facto que pode ser comprovado através da análise feita a todas as edições do curso.

HR: O público em geral tem revelado um interesse crescente pelos Estudos Regionais e Locais. Há cada vez mais a vontade de estudar aspectos regionais. Aliás, muitas pessoas vão percebendo que, vivendo numa região tão diversificada como a RAM, os estudos a desenvolver podem ir desde as tradições até às instituições, desde acontecimentos históricos passados a fenómenos do presente, desde a análise de documentos antigos e escritos à descrição de um falar particular de um determinado grupo profissional.

À medida que as edições do 2.º Ciclo em Estudos Regionais e Locais se vão sucedendo, maior parece ser o interesse das pessoas em geral, tanto fora da academia como dentro dela. A Semana das Artes e Humanidades onde decorreu a pré-apresentação do “e-book” foi também uma oportunidade para, por exemplo, o mestrando Nuno Dias da presente edição dar a conhecer um trabalho que desenvolveu sobre o rum madeirense e para, noutro exemplo, o Museu Etnográfico da Madeira trazer à UMa três exposições muito importantes para o Património Regional e Local Madeirense. Uma era sobre os arraias e festas com especificidades curiosas, em que fiquei a conhecer a charola de Santana. Outra era dedicada ao cuscuz e à sua confecção a nível regional. A terceira abordava o “bolo de noiva” (diferente de “bolo da noiva”), que envolve toda uma tradição que estará, por certo, em vias de extinção. Esta colaboração como Museu Etnográfico da Madeira foi extremamente valiosa. O contacto que se empreendeu com a AMRAM (Associação de Municípios da Região Autónoma da Madeira) foi produtiva.

Outro exemplo da relação do curso com o meio, aqui a nível regional e nacional, foi a acção com a Comissão Nacional de Eleições. Em colaboração, o Mestrado organizou um Seminário sobre a importância do voto, numa altura em que houve várias eleições, tanto a nível regional, como nacional. Portanto, a comunidade, ou seja, o grande público, vai conhecendo o curso e as áreas que envolve, à medida que o mestrado se vai dando a conhecer e vai desenvolvendo actividades.

Que balanço fazem destes 13 anos de Mestrado em Estudos Regionais e Locais?

LP: O balanço é positivo uma vez que existem 31 mestres em Estudos Regionais e Locais formados pela UMa.

HR: O balanço é francamente positivo para o Mestrado em Estudos Regionais e Locais. As 8 edições do curso, desde 2009-2010, tiveram mais de 100 inscritos e produziram, até 2019-2020, um número considerável de trabalhos registados e defendidos. Como disse a Lúcia, foram 31 as Dissertações, resultantes de investigações, produzidas e defendidas até Janeiro de 2021.

Um grande número de estudantes decidiu ficar-se pela pós-graduação que constitui o primeiro ano do curso, finalizando-a com sucesso, optando por não seguir para o segundo ano. Contudo, o verdadeiro objectivo para quem dirige este 2.º Ciclo é mesmo que os estudantes completem os dois anos, com uma Dissertação.

Estão de parabéns todos os que chegaram ao fim do curso. Os trabalhos são importantes para eles próprios, enquanto profissionais com intervenção no maio regional ou local, mas também para a Universidade da Madeira e para a RAM.

Que perspectivam para o futuro?

LP: Perspetivamos que o mestrado consiga captar o interesse de mais estudantes, de maneira que os Estudos Regionais e Locais possam reforçar a sua importância na sociedade e, essencialmente, junto da comunidade académica.

HR: Depois de dois anos académicos à frente da direcção do curso, penso ter feito tudo para que se mantivesse enquanto oferta formativa sólida e consistente. Estamos a aguardar a avaliação do curso pela A3ES. Foram avençadas algumas alterações para que o mestrado possa ganhar uma unidade curricular onde a investigação se faça em conjunto, envolvendo todos os docentes e discentes.

Como docente de Património Linguístico, ao longos destes anos, propus a alguns estudantes publicações e vi que esse procedimento poderia ser alargado a todo o curso. Por exemplo, este nosso livro em formato “e-book” sobre o curso poderia ter sido um trabalho mais alargado, fruto da intervenção de mais pessoas. De qualquer forma, outras publicações conjuntas, ou eventos, se poderão realizar congregando vontades.

Resta, agora, aguardar pela avaliação do mestrado. Espero que o 2.º Ciclo em Estudos Regionais e Locais possa continuar a formar jovens e adultos, no sentido de servir a RAM, através do Departamento de Línguas, Literaturas e Culturas e da Faculdade de Artes e Humanidades.

Entrevistas conduzidas por Luís Ferro
ET AL.
Com fotografia de Maia Habegger.

Nota dos editores: o título deste artigo é da responsabilidade do portal ET AL., sendo retirado de uma frase das entrevistas aqui reproduzidas. As entrevistas seguem a grafia anterior ao Acordo Ortográfico de 1990.

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