Conjuntivo: Um Modo em Desudo

Há alguns anos, num estudo comparativo de relatos históricos, um de Fernão Lopes e outro de Alexandre Herculano, analisou-se a vitalidade do “conjuntivo”.

Conjugar verbos é um exercício gramatical primário que não é dominado por muitos adultos. Ouvir uma senhora dizer ao telemóvel “A gente come-se cedo.” é um exemplo significativo. Existem dicionários de conjugações verbais. São instrumentos de consulta preciosos que tiram dúvidas porque ninguém sabe tudo. Quem presta atenção a usos linguísticos quotidianos observa que o modo conjuntivo parece ser menos conhecido e empregue do que o indicativo. Em contextos que o requerem, é substituído. Sucede com “embora” e “talvez”, que exigem esse modo verbal (“Embora saiam esta noite, não vão contigo.”/ “Se queres saber, talvez dêem [“deem” com o último Acordo Ortográfico] um presente à avó.”), mas em que o indicativo vai aparecendo. Poderá significar o desaparecimento progressivo do conjuntivo na linguagem quotidiana? As opiniões divergem.

Na década de 90, numa breve investigação, compararam-se os discursos do cronista Fernão Lopes e do historiador Alexandre Herculano para estudar os usos do conjuntivo de ambos, num episódio marcante da História de Portugal. Concluiu-se que as ocorrências de conjuntivo tendiam a diminuir no texto do século XIX. Foi apenas uma brevíssima amostra e a abordagem quantitativa realizada foi simplista. Todavia, a conclusão que se tirou não foi descabida. Pela observação que se vai fazendo, o conjuntivo parece exigir mais esforço aos usuários da língua que o substituem, sem grandes problemas, pelo indicativo. Este processo leva a perdas linguísticas importantes e empobrece o património que constitui a Língua Portuguesa, delapidando-o. Quem sabe conjugar os verbos “sair” e “dar” em todos os modos, tempos e pessoas?

1.
Os jovens …………………….. todas as noites.

Preencher o espaço com a forma certa: saem / saiem/ saim/ saiam.

Solução: Os jovens saem todas as noites.

Explicação: As formas verbais de “sair” escrevem-se, ou não, com “i”? Esta vogal ocorre em todas as pessoas, tempos e modos verbais, salvo na terceira pessoa do plural do presente do indicativo (“eles saem”). Se se conjugar no conjuntivo, naquela pessoa gramatical e nas restantes, figura a vogal “i” (“que eles saiam”).

2.
Eles que …………………….. o que podem para resolvermos o problema.

Preencher o espaço com a forma certa: deiam / dêem/ deem/ dêm.

Solução:
(Sem o Acordo Ortográfico de 1990) Eles que dêem o que podem para resolvermos o problema.

(Com o Acordo Ortográfico de 1990) Eles que deem o que podem para resolvermos o problema.

Explicação: O verbo “dar” pode causar dificuldades de conjugação porque há tempos verbais em que a vogal “a” é substituída, dizendo simplesmente, por “e”. É o caso no conjuntivo. A terceira pessoa do plural do presente deste modo verbal é “dêem” (“que eles dêem”), para quem não seguir o Acordo Ortográfico de 1990. Quem escrever segundo aquele Acordo Ortográfico deve retirar o acento circunflexo, mas grafar, duas vezes, a vogal “e” (que eles “deem”).

Helena Rebelo
Professora da UMa

OS NOSSOS PARCEIROS
A NOSSA EQUIPA