Gonçalo M. Tavares e os clássicos em os velhos também querem viver

Em Sarajevo ou numa polis grega, o mito de Alceste é sempre desconcertante. A reflexão sobre a morte, em forma de sacrífico estóico, torna-se também uma meditação sobre o valor da vida. Na verdade, revisitar um mito clássico é mergulhar na nossa memória colectiva.

O legado da Antiguidade Clássica tem-se exprimido, ao longo de muitos séculos, por meio de várias realizações humanas. Constituindo-se como elemento identitário, a mitologia é, sem dúvida, um dos melhores exemplos dessa pervivência. Continuamos a ouvir expressões como “bonito como Adónis”, “veloz como Aquiles”, “forte como Héracles”, “esperto como Ulisses”, “bela como Helena”, “canta como as Musas e toca como Orfeu”… Podemos, ainda, conduzir um “Clio”, aproveitar o programa passageiro frequente “Ícaro”, nadar no centro “Neptuno”, passear o cão “Argos”, comprar uma peça “Pandora”, beber uma água da marca “Fonte de Castália” no café “Apolo”, para de seguida ir ao estúdio de arquitectura “Dédalo”. Não faltam, de facto, exemplos. O nosso propósito, neste breve texto, porém, é o de nos concentrarmos no exercício intertextual de um autor da nossa literatura: Gonçalo M. Tavares (GMT).

Uma das marcas temáticas da escrita de GMT, talvez o autor da nova geração de escritores da literatura portuguesa mais lido e premiado, é a do diálogo com a cultura clássica, sobretudo nas obras Histórias falsas, Uma viagem à Índia e, mais recentemente, Os velhos também querem viver. É precisamente sobre esta última que vos escrevemos.

Inspirando-se na tragédia Alceste de Eurípides, GMT propõe-nos em forma de peça teatral – já levada à cena pela Companhia Cão Danado, com encenação de Cristina Carvalhal – a conhecida e dramática história da mulher (Alceste) que dá a vida pelo marido (Admeto). Sim, trata-se de uma história de amor que nos catapulta para, nas palavras de Frederico Lourenço, o “trágico no superlativo”, como sucede, por exemplo, na história de Hécuba, a mãe que assiste à morte da filha (Políxena) sem nada poder fazer e que encontra a boiar na praia o cadáver do filho mais novo, Polidoro, mas que depois se vinga, obviamente, no superlativo: não só arranca, com as suas próprias mãos, os olhos a quem lhe matara Polidoro, como, se isso não bastasse, ainda lhe mata os filhos. Muito chocante ou horrendo? Então é melhor nem falarmos das mães filicidas, Medeia e Procne! O trágico grego é, de facto, muitas vezes essa torrente irresistível que deixa o leitor/espectador desconcertado com a dimensão (des)humana.

Apesar de usar a estrutura Prólogo>sequência de 4 cenas>Epílogo, integrando também a participação tão clássica do Coro, a verdade é que o texto literário de GMT não atinge a dimensão lírica do drama trágico grego, sobretudo ao nível do ritmo métrico. Deixando de parte estes e outros pormenores técnicos, directamente relacionados com o género literário, interessa-nos aqui, sobretudo, abordar a temática da obra. O título, Os velhos também querem viver, pode levar o leitor a pensar que se trata de uma reflexão gerontológica, numa altura em que tanto se fala e escreve sobre o envelhecimento da população europeia. Nada disso. GMT recupera um dos paradigmas do amor conjugal da mitologia clássica, a relação de Admeto e Alceste, para reflectir sobre temas universais, como o amor (conjugal, paternal, filial), a vida, a morte, a guerra ou o sacrifício. A história não decorre numa polis grega, mas em Sarajevo, umas das cidades mais massacradas pela Guerra dos Balcãs. Como milhares de homens, Admeto é atingido por um sniper. Prestes a morrer, Apolo permite-lhe viver, se em troca alguém morrer por ele (“A Morte tem de levar alguém, já se sabe”, p. 19). Em aflição, pergunta se alguém em Sarajevo quer morrer por ele, “mas ninguém aceitou, nem amigos, nem pai, nem mãe.” (p. 16). Só Alceste se sacrifica pelo marido. Esta aceitação gera uma dialéctica entre a morte moderna e a antiga, notando-se, parece-nos, na reflexão de GMT algumas marcas do pensamento filosófico de Séneca.

Antes de transitar para lá da vida, a serva conta que Alceste pediu aos deuses que cuidassem das suas duas crianças e que fosse dado um casamento e glória para o filho e um casamento e honra para a filha. Além disso, suplicou que não morressem cedo e que não fossem felizes antes do tempo, se possível na terra pátria. GMT aproveita este momento, de nítida tensão dramática, para interromper a narração e, como num estásimo (uma das partes da tragédia grega), falar da realidade tão presente, nos nossos tempos, dos filhos que têm de sair de casa e do seu país. Mas Alceste tem também palavras para Admeto, seu marido: recorda-lhe que nem o pai, nem a mãe, aceitaram morrer por ele, mesmo sendo filho único (“Mesmo velhos, preferiram viver”, p. 29). Com essa opção, impediram, segundo Alceste, que os filhos crescessem com a mãe. Em troca do seu sacrifício, exige que Admeto jure nunca mais dar uma segunda mãe aos filhos. E, num ápice, morre. Este é, de facto, o momento, o clímax desta obra, bastante antecipado em relação ao que costuma ser normal no género. Não cabe neste espaço explorar outros elementos interessantes que ocorrem até ao final da obra: Admeto irado com o pai, Feres, por não ter dado a vida por ele; Feres a justificar ao filho que um velho também tem direito a viver e que já lhe tinha dado a vida, coisa que o filho jamais lhe poderia restituir; a intervenção de Hércules (grafia usada por GMT, embora, neste contexto helénico, ‘Héracles’ fosse mais correcto), qual deus ex machina, que resgata Alceste dos infernos para a fazer regressar à vida.

O mito de Alceste, como se percebe, torna-se perturbante a vários níveis. Sendo Admeto um mortal, como permitiu, para adiar a morte certa, o sacrifício da sua mulher e, assim, deixar duas crianças sem a mãe? Como tem coragem Alceste para abandonar os filhos em prol do marido? É a vida de um jovem mais valiosa do que a de um velho? São estas e outras as encruzilhadas dos mitos clássicos. Imitados, renovados ou transformados nas várias áreas do saber e da produção cultural, os mitos conduzem-nos pelo fascinante e enigmático sentido da natureza humana.

Joaquim Pinheiro
Docente da UMa

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