Nós et al.

Et al. é abreviatura da expressão latina et alii (“e outros”) e utiliza-se nas referências bibliográficas, para identificar uma obra com mais de seis co-autores. É, assim, uma forma de abreviar o que, de outro modo, se tornaria demasiado extenso. A referência de uma obra da autoria de J. Santos, T. Rodrigues, F. Silva, D. Peres, R. Faria, L. Pimentel e H. Freitas, publicada em 2004, será, de acordo com as normas da American Psychological Association, que são as normas bibliográficas mais utilizadas nas Ciências Sociais e Humanas, identificada como Silva et al. (2004).

Et al. é, assim, a forma de referir os últimos autores, que por esta razão não são nomeados. É abreviatura dos que não são identificados e que são, assim, votados ao anonimato. Como em tudo na vida, há quem se chegue à frente e dê a cara e há os outros, os que preferem manter-se na sombra, mas que são tão importantes como os primeiros.

Historicamente votaram-se ao anonimato as chamadas classes mudas da sociedade: as mulheres, as crianças, os idosos, as minorias étnicas. Também a história se faz principalmente com os que se mostraram, com os que deixaram registo do seu nome e das suas obras, mas a civilização cresceu tanto com os que vieram para a luz como com os que permaneceram nas trevas.

Os alii, os outros, são com frequência aqueles que não se nomeiam, que não se identificam, que não deixam memória da sua vida. Os outros são aqueles que não aparecem, que se remetem a um silêncio social e cultural que oblitera a sua identidade.

Alii são aqueles de quem se faz tabula rasa. Tabula rasa significa “tabuinha raspada”. Os Romanos escreviam em tabuinhas de madeira cobertas de cera, que se raspavam a fim de se escrever novamente por cima. Fazer tabula rasa de algo significa esquecer o que aconteceu para começar de novo. Implica obliterar para construir algo diferente. E isto não é um assunto de lana caprina, isto é, não se trata de matéria de pouco valor, como o da lã das cabras. Quando obliteramos a identidade do outro, retiramos-lhe a oportunidade de ser reconhecido, de receber o crédito que lhe é devido pelo seu labor, pelo seu esforço, pelo seu trabalho. E aí reside o busílis da questão.

“Busílis” é uma palavra com uma história engraçada. Um estudante de Latim com algumas limitações, ao ler num manuscrito sem separação de palavras a expressão latina in diebus illis (no manuscrito apareceria em capitais: INDIEBUSILLIS), que significa “naqueles dias”, separou INDIE que pensou significar “os índios” de BUSILLIS, que não conseguiu perceber, porque obviamente não se trata de uma palavra latina… O busílis de uma questão é, portanto, aquilo que não conseguimos decifrar, compreender ou solucionar. E os outros constituem para nós com muita frequência um desafio, uma dificuldade, um enigma.

Tantas vezes consideramos o outro persona non grata, tantas vezes o julgamos com base em preconceitos e agendas escondidas… Agendas no seu significado etimológico, ou seja, “as coisas que temos de fazer” e que normalmente registamos num caderno ou num aparelho electrónico para não esquecermos. Aceitar o outro implica respeito e reconhecimento, implica a tolerância de qualquer qui pro quo, expressão latina que significa “um pelo outro”, isto é, não entender correctamente uma palavra ou um acto.

Mas errare humanum est sed perseverare diabolicum (“errar é humano, mas perseverar [no erro] é diabólico”) ou, citando Cícero: cuiusvis est errare: nullius nisi insipientis errore perseverare (“errar é próprio de qualquer um, de ninguém senão do ignorante perseverar no erro”). Com efeito, nada é mais notável no ser humano do que a sua capacidade de errar e de aprender com os seus erros, de cair e de se levantar. No que diz respeito aos alii, é em relação a eles que o ser humano mais erra: porque é mais cómodo projectar no outro o que é estranho, o que é incompreensível ou inaceitável.

Como nome de revista académica et al. será certamente um indicador do que a academia tem de mais precioso: a busca do conhecimento, da compreensão, da mudança, busca que resulta inevitavelmente em inclusão e tolerância. O que é a universidade senão um reflexo do mundo? Uma projecção de nós et alii? De nós e dos outros?

Cristina Santos Pinheiro
Professora da UMa

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