Estórias do arco da velha

Hoje acordaste em mim. Não necessariamente mais que nos outros dias, mas hoje senti-te no meu nariz. É estranha essa característica humana de recordar coisas que deveriam ser passageiras: como o teu cheiro. Farejei-te no ar, como um cão faminto e caí em mim quando reparei que te procurava por todos os cantos da casa, uma casa que não conheceste. Como é possível o teu cheiro estar aqui?

Pergunto-me se ainda pensas em mim; se relembras as nossas manhãs a arrastar as bilhas de leite e eu olhando-te por debaixo da saia, procurando um esconderijo longe do teu velho, onde me agarravas com paixão e encantamento. Às vezes, ainda me deito com a mesma sensação de antes, quando adormecia com a necessidade de querer acordar rápido, para poder ver-te, tocar-te, desmaiar-me para dentro dos teus olhos azeitona ou adormecer na maciez dos teus lábios.

Ainda gostas de sorvete de melancia? O ritual era sagrado: rodeavas-me com os braços, beijavas-me nas orelhas, percorrendo o contorno da barba e levavas-me pela mão para o teu sítio secreto. E, por entre colheradas, lábios lambuzados, gargalhadas e suspiros, tu entregavas-te sempre com a mesma ânsia de querer ser minha.

Mas, depois, veio essa mania de querer ser bem-sucedida e foste estudar, deixando-me sozinho, com o coração negro e uma saudade que me manchava a alma de bolor.

Sempre me prometeste que seríamos a adição de dois corações. Mentiste-me e eu magoei-te. Quando deixarei de ver o teu sangue na ponta dos meus dedos?

Valentina Silva Ferreira
Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra

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