Xavier Miguel nasceu na Madeira em 1993. Começou a sua formação nas artes de palco, no Conservatório – Escola Profissional das Artes da Madeira Eng. Luiz Peter Clode. Após esta formação, foi para o Porto, para fazer a licenciatura em Teatro na Escola Superior de Música e Artes do Porto. De volta à Madeira, fez o mestrado em Estudos Regionais e Locais na Universidade da Madeira.
Define-se como «um artista de rua» e fundou, em 2011, o Teatro Bolo do Caco. Como explica o autor: «A Literatura desde sempre foi uma grande paixão minha, em paralelo com o teatro, e ao longo do meu percurso estas duas áreas têm-se cruzado algumas vezes.» Em entrevista para a ET AL., Xavier Miguel fala sobre a obra A JUSTIÇA DE DEUS.
A Imprensa Académica apresenta HISTÓRIA DA MADEIRA de Rui Carita
HISTÓRIA DA MADEIRA reúne os seis volumes já publicados, entre 2014 e 2020, pela Imprensa Académica, chancela editorial da Associação Académica da Universidade da Madeira. Resulta de anos de investigação do historiador Rui Carita sobre os seis séculos de ocupação portuguesa do arquipélago atlântico.
Os FATUM com atuações no Reino Unido em janeiro e fevereiro
Durante 9 dias, os FATUM estarão pelo Reino Unido com várias atuações, destacando-se vários encontros com a comunidade madeirense radicada no
A obra que agora se (re)publica é da Coleção ILUSTRES (DES)CONHECIDOS. João Augusto de Ornelas era, para ti, um ilustre desconhecido?
Confesso que até o livro A MÃO DE SANGUE ser republicado nesta mesma coleção desconhecia por completo o nome deste senhor. No entanto, sempre fui ávido leitor deste género de romance de mistério, entre os livros de Camilo, um dos maiores autores portugueses neste estilo e de quem sou grande fã. Assim, logo fiquei rendido ao título e li-o vorazmente, em dois ou três dias. É para um público que gosta de mistérios a escrita deste senhor desconhecido; Estamos perante um autor do século XIX, e se para muitos leitores, os assuntos que trata não são atuais, é precisamente o retrato que faz da Madeira da sua época que me fascina enquanto leitor. Além disso, João Augusto de Ornelas tem uma linguagem profundamente marcada pelo romantismo, e explora emoções exacerbadas, situações macabras e enredos que misturam crimes, paixões, doenças, vinganças, e assassinatos, tudo isto referindo locais que qualquer madeirenses poderá reconhecer.
Se em A MÃO DE SANGUE a ação se passa em muitos locais do Funchal, A JUSTIÇA DE DEUS passa-se na Ponta do Sol, onde se desenrola mais uma história de crimes e vinganças passionais, onde o ódio e a violência dos antagonistas contrastam com o cenário rural ilhéu, revelando também alguns aspetos identitários madeirenses, como superstições e uma profunda religiosidade.
Ornelas será um escritor para quem gosta de romance histórico e de época, como eu, e que tenha oportunidade de ver e conhecer os locais que ele descreve, imaginando na sua mente de leitor as histórias e personagens que ele desenha com muita elegância. Por isso é uma feliz oportunidade reeditar mais uma obra deste autor, permitindo que mais pessoas o possam ler, e descobrir este grande autor madeirense.
Como ator e encenador, como vês o potencial dramático de A JUSTIÇA DE DEUS?
Um dos grandes desafios que o teatro impõe é a questão dos diferentes espaços em que a ação se passa. No teatro clássico, impunha-se um formato de cinco atos que pressupunha cinco cenários diferentes; no entanto, com o modernismo, começamos a dividir uma peça em quadros distintos e as regras de espaço começaram a ser difusas. Assim, existem diversos recursos cénicos que poderiam ser usados para transmitir os diversos locais da ação.
Quando adaptamos A MÃO DE SANGUE ao contexto de teatro radiofónico (num projeto do Teatro Bolo do Caco, CMF e 88.8 JMFM, em época pandémica) aproveitamos o formato áudio para dar largas à imaginação e criatividade, usando a maior variedade de espaços e locais possíveis na ficção da história (que se passa na Madeira, no Porto e no Brasil), não sendo uma preocupação representar visualmente esses espaços, mas transmitir através das falas e narração essa mesma informação. No mundo do cinema e da televisão, que é uma arte mormente visual, os espaços e locais são sobremaneira importantes. Nesse sentido, a Justiça de Deus tem um grande potencial cinematográfico, ainda para mais porque se desenrola em cenários rurais madeirenses.
Para o palco não seria descabido pensar numa peça de época com um enredo como estes, mas sem dúvida que traria uma boa dose de desafios à dramaturgia, que teria de resolver questões de espaço e tempo. Recordo-me da mais bela encenação que vi de ‘O Sonho de uma Noite de Verão’ numa velha quinta no Porto, em que toda a peça se passava nos jardins da quinta, e o público ia percorrendo esses cenários de jardim romântico, sentando-se em cenas mais longas. A meu ver (e também ao meu gosto, confesso), uma adaptação teatral de A Justiça de Deus precisaria que o palco fosse um jardim, uma quinta ou qualquer outro cenário, que permitisse ilustrar não apenas os locais da história, mas o ambiente romântico, que transpira a escrita de João Augusto de Ornelas.
Entrevista conduzida por Timóteo Ferreira.
ET AL.
Com fotografia de