O vírus da virtude: lutar para (re)memorar

Ao analisar a doença de Alzeihmer e a aproximação da morte na série This Is Us, Roberta Busch, mestre em neurociências pela Universidade Federal de São Paulo, descreve-as como uma “espécie de neblina [que] obscurece a memória de uma personagem que tenta se lembrar, sem sucesso de uma certa palavra”. Esta visão é usada em muitas produções cinematográficas, através da negação e da dificuldade em aceitar a inexistência espiritual de um ente querido. Gaspar Noé é um desses muitos exemplos, contemplando a fragilidade do ser humano intensamente, em Vortex.

É Vortex a sugestão do Screenings Funchal, numa parceria com os Cinemas NOS, e com o apoio da ACADÉMICA DA MADEIRA, para sexta e sábado, 20 e 21 de maio. Em particular para os clientes NOS, portadores do seu cartão, se forem acompanhados, têm 2 bilhetes pelo preço de 1. Se for sozinho, ao comprar 1 bilhete de cinema, tem a oferta de 1 menu pequeno de pipocas e bebida. Não há, portanto, desculpa para não aproveitar mais um momento de grande cinema que o Screenings Funchal proporciona.

Este drama francês de 2021 é dirigido por Gaspar Noé e foi filmado em três dias sob uma técnica em split screen. Distingue-se por permitir a movimentação de memórias de uma das partes do cérebro para outra. Funciona quase como uma terapia, pois ao ver um filme nesse ângulo, ajuda o espectador a entra mais facilmente num estado de hipnose, saindo do momento real e entrando numa dimensão desconhecida. Acabamos por contracenar com a espontaneidade do autor em relembrar à audiência de que estão a ver um filme, como acontecera com outros filmes seus. É o caso de Irreversível, Enter the Void ou Clímax, que exaltam a provocação cinematográfica e rebeldia técnica com que produz.

Gaspar Noé elucida-nos sobre o destino bifurcado de um casal, que, após ter vivido maravilhas conjugais, vive o drama do envelhecimento na doença que devora a virtude. Em Vortex uma psicanalista aposentada, Françoise, sofre um AVC, apresentado sinais de demência nos anos posteriores. O seu marido, Dario, produtor cinematográfico trabalha num livro sobre cinema. O filme desenvolve-se em torno da vida deste casal, a partir de um ecrã repartido e seguindo quotidianos diferentes. Enquanto de um lado, Dario procura rejeitar o que se passa com a mulher, esta deambula, perdida nas ruas parisienses.

Qualquer um que se enfrente com uma situação clínica como a retratada na película reconhecerá o horror que é a desorientação e ausência de resposta na lembrança dos pequenos e ternurentos momentos de vida. Estas situações influenciam muitos artistas, o que inclui Noé, cujos pais e avós tiveram gratificante papel na produção – uma representação fictícia e vibrante, mas ao mesmo tempo desgastante e arrebatadora e, que, demonstra o longo caminho até à aceitação e cura que é a dor da perda.

Sem desvendar mais da trama, Vortex pinta-nos um retrato cinematográfico sobre aquilo que é a efemeridade da vida e de que tudo aquilo pelo qual lutámos. Acaba por se configurar como um forçado álbum de fotografias e de pequenos fragmentos analógicos, sendo uma luta pela manutenção da memória vegetal perdida pelo preço do materialismo que a sociedade dos dias de hoje tanto depende.

Assiste, aqui, ao trailer do filme e garante o teu lugar na sala de cinema.

Luís Ferro
ET AL.

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