Toponímia do Funchal: largo do Chafariz

O largo do Chafariz, nas imediações da Sé do Funchal, é ladeado pelas ruas do Aljube e dos Ferreiros. Ali confluem também a rua do Estanco Velho e o beco de São Sebastião.
Foi anteriormente conhecido por largo de São Sebastião e largo do Comércio.

O nome primitivo provém da capela de São Sebastião, ali edificada no século XV. Refira-se que, em 1523, São Sebastião e São Roque foram eleitos segundos protetores do Funchal contra a peste, tendo o Senado da Câmara e o Cabido a obrigação de celebrar as respetivas festas com solenidade.

Assim, a 20 de janeiro de cada ano, o Cabido, acompanhado da edilidade e do povo, dirigia-se em procissão à capela do Santo Mártir e aqui se cantava missa com sermão.

Por ordem do governador D. José Manuel da Câmara, a capela de São Sebastião foi demolida em janeiro de 1803, conjuntamente com duas casas contíguas, para dar lugar à construção de um mercado. Esta atitude suscitou o protesto do prelado funchalense e a indignação popular.

Em 1821, na sequência da aclamação no Funchal da Revolução Liberal, verificou-se a tentativa de reedificação da antiga capela, com prejuízo das barracas do mercado. Mas o pardieiro, então levantado, veio a ser arrasado por determinação da Câmara, de 1826, tendo o município construído, de seguida, o chafariz que lhe deu a denominação atual, com reutilização de peças do fontanário do Jardim Pequeno.

De início, o mercado que, neste largo se realizava, era, essencialmente, destinado aos produtos hortícolas. No Natal, a animação era grande e vendia-se a verdura para ornamentar as lapinhas e as casas.

Alberto Artur Sarmento (1878-1953), deixou-nos, em Das Artes e da História da Madeira, singular testemunho do Largo do Chafariz na véspera da Festa, dos seus tempos de estudante:

“O largo de S. Sebastião era calçado aos retângulos contornados a pedrinhas brancas, com números ao centro, parecendo o pano duma mesa de roleta. Explorava então a Senhora Câmbra (Municipal) por esse tempo, uma renda assessória, pelo Natal, para venda ao ar livre: lá estavam galinhas e frangos de pés atados, estendidos num tabuleiro, de paliçada, abrindo o bico com sede e lá mesmo o chafariz a brotar água contínua pelas beiçudas carrancas; acocoradas velhas vendiam ovos; arcas continham pano de linho da terra; enormes chapéus-de-sol, de cobertura azul, ensombravam verduras borrifadas, para não emurchecer; vilões, com barretes de orelhas, ofereciam à venda bordões, réstias de alhos, cabos de cebolas, rosários de pimentas, da terra, bicudas.

Ó couves, ó nabos! maunças de agriões, violetas e junquilhos aos raminhos odorantes…

Alinhados renques de bota chã, feita de pele de cabra, com ourelo vermelho, era esta acertada na escadaria do largo […]” (II: 9, 1951, p. 2)

Nos anos vinte do século passado, no largo do Chafariz vendia-se apenas calçado característico da ilha, fabricado principalmente em Câmara de Lobos. Alguns postais ilustram esse tempo de “mercado das botas” de um largo que hoje se apresenta como simples zona pedonal.

Nelson Veríssimo
Professor da UMa

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