A capela do Corpo Santo do Funchal

A confraria do Corpo Santo apoiava os seus confrades na doença e em acidentes, como naufrágios e ataques de corsários, tal como depois nos enterros dos seus membros, às viúvas e aos filhos dos mesmos.

Corpo Santo é a denominação popular de S. Pedro Gonçalves Telmo (1190-1246), religioso da ordem dos dominicanos e Prior de S. Domingos de Guimarães. O seu culto aparece associado ao fogo-de-santelmo, eflúvio luminoso que aparece nos mastros dos navios em determinadas condições atmosféricas, e espalhou-se pelas comunidades marítimas do centro e do norte de Portugal e na Galiza, sendo o padroeiro, por exemplo, da diocese de Tui-Vigo.

A capela do Corpo Santo do Funchal deve ser uma das mais antigas da cidade, devendo datar dos finais do séc. XV, sendo referência toponímica desde 1497. Entre os finais do séc. XV e os inícios do XVI, os pescadores e marítimos madeirenses organizaram-se em confrarias religiosas sob a devoção do Corpo Santo, devendo a confraria do Funchal ser a mais antiga da ilha. Pouco depois, provavelmente ter-se-iam organizado os marítimos da Calheta, que tiveram uma capela junto da praia, e os marítimos de Câmara de Lobos, na capela da Conceição, cuja reconstrução pagaram. Os marítimos de Santa Cruz e a sua confraria nunca tiveram instalações próprias, funcionando num altar matriz e os de Machico, integraram-se nas confrarias ligadas à Misericórdia daquela vila, na capela dos Milagres. Os do Porto Santo organizaram-se na confraria de S. Pedro, tal como os da Ribeira Brava, dado este santo ser tradicionalmente também o protetor dos pescadores.

A confraria e a capela do Corpo Santo do Funchal devem ter gozado de um certo desafogo económico, fruto dos tradicionais “quartões” do pescado feito pelos seus membros, para as campanhas de obras a que capela foi sendo sujeita. O edifício que chegou até nós é dos mais interessantes do Funchal, com um portal de arquivolta apontada, muito simples, por certo do séc. XV e o interior, já produto das reformas dos séculos XVI e XVII. A tábua pintada do orago no retábulo-mor, da primeira metade do séc. XVI, apresenta o Santo a abençoar uma caravela manuelina e deve ser a mais antiga representação de uma embarcação na Madeira. No teto da capela-mor, totalmente coberto por pinturas sobre tela, ainda aparece o santo a acudir um naufrago de uma grande nau, com o pormenor de apresentar as armas de Portugal na popa e um estandarte dos Habsburgo no mastro principal, indicando assim ter sido pintado nos anos da União Ibérica, por volta de 1616.

A confraria do Corpo Santo apoiava os seus confrades na doença e em acidentes, como naufrágios e ataques de corsários, tal como depois nos enterros dos seus membros, às viúvas e aos filhos dos mesmos. Nessa área, os marítimos madeirenses estiveram na base da fundação do mutualismo moderno, a partir de 17 de outubro de 1897, quando decidiram a instalação de uma caixa de montepio marítimo. A capela do Corpo Santo encontra-se habitualmente aberta ao público, sendo uma das visitas obrigatórias num périplo pela Zona Velha feita de dia, pois que à noite outros interesses se impõem.

Rui Carita
Docente da UMa

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