Eleições europeias de 2014

A Europa atravessa um período conturbado e de muita incerteza no futuro do projecto Europeu, outrora idealizado pelo francês Robert Shuman, considerado quase unânimemente como o pai daquele sonho distante chamado Europa. A recente crise pela qual atravessam vários países da União Europeia abalou os alicerces que suportam o projecto de União dos países do “Velho Continente”, e os diferentes povos começam a olhar com alguma desconfiança para a crescente falta de solideriedade dentro da U.E. por um lado, e por outro manifestam desagrado quando há sinais dessa mesma solideriedade. Contradição? Nem por isso. Os países que passam por graves crises, tal como o nosso, muitas vezes vêem as potências económicas do nosso continente, nomeadamente a Alemanha, como um exemplo claro da falta de solideriedade anteriormente mencionada, enquanto que os alemães vêem os países do Sul da Europa como um conjunto que constituí um mau exemplo de gestão da res pública e que por essa má gestão, aqueles países que são financeiramente saudáveis terão que pagar os custos de uma crise, que segundo eles, não criaram.

Estamos portanto num dilema. De um lado estão os que acham que, apesar de todos os problemas, a União Europeia continua a ser a melhor solução para termos um continente europeu estável, politica e economicamente forte, para fazer face ao poderio norte-americano e uma China cada vez mais dominante em vários campos. Do outro lado da barricada encontram-se aqueles que vêem uma Europa cada vez mais débil, mais fraca, e que só entendem como benéfico o desmantelamento da União Europeia.

Há países mais problemáticos que outros, no que diz respeito ao rumo que a Europa tomará. Vejamos por exemplo o caso grego. A Grécia é porventura o país onde mais violentamente surgiu um sentimento anti-europeu, muito culpa da dificuldade da União em liderar com a crise que atravessa aquele que em tempos foi a maior nação do Mundo. Surgiram muitos movimentos contra a integração da Grécia na União Europeia, muitos deles radicais, tanto de extrema-esquerda, como de extrema-direita, que são semelhantes pelas acções de um verdadeiro ódio contra Bruxelas. Esse sentimento, embora algo recalcado e muito menos violento, foi transposto para uma grande maioria da população grega, que não vê qualquer ajuda externa a chegar ao país. Em Maio deste ano os gregos poderão escolher o seu futuro na Europa, e ao fazê-lo escolherão também enfraquecer ou fortalecer a Europa.

Neste momento constitui-se também como a grande incógnita aos olhos de uma Europa o desfecho da questão Ucraniana, sendo que ainda está em suspanse, e aguarda-se uma resolução definitiva do braço de ferro criado entre o povo da Ucrânia e os responsáveis pelos destinos do país. Será interessante observar quem será soberano nesta situação: os orgãos de poder, ou o povo que os elegeu para darem um rumo. A importância destas eleições europeias naquele país não pode ser ignorada. Face aos recentes eventos o povo ucraniano decidirá se irá seguir o rumo que o presidente do país decidiu tomar, aproximando-se da Rússia em detrimento de um acordo com a União Europeia, ou se vai seguir, como parece ser essa a sua vontade manifestada nas ruas das principais cidades deste país do Leste europeu, uma conduta muito mais pró-União Europeia, dando a vitoria nestas eleições aos partidos que defendem essa mesma conduta. Se a Ucrânia se voltar para a Rússia, levantando um pouco da velha cortina de ferro, então a União Europeia sofrerá um rude golpe num projecto que se quer coeso, sem divisões.

Outro país importante, e talvez o mais decisivo, para abordar é a França. Sim, o país do pai da União Europeia, é, neste momento, uma nação que está a causar apreensão no círculo de poder político europeu. Marine Le Pen, filha de Jean-Marie Le Pen, é, tal como o pai, profundamente nacionalista e defende questões controversas tais como a oposição à imigração, o regresso da pena de morte e a denúncia de supostos benefícios por parte do parlamento europeu que vão contra a austeridade imposta um pouco por toda a Europa. Sucedeu ao seu pai na liderança da Frente Nacional e tem vindo a crescer exponencialmente nas sondagens, gozando de uma popularidade que será complicada de combater até Maio. Caso a nacionalista ganhe as eleições frente a uma liderança francesa socialista enfraquecida, adivinha-se o começo de um desmantalar da União Europeia.

Por todas as questões enunciadas nos parágrafos anteriores, e mais algumas que também seriam pertinentes abordar, maio de 2014 será uma data fundamental para a o projecto europeu.

Maurício Ornelas

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