Procurar
Close this search box.
Procurar
Close this search box.

Ensaios clínicos crescem nos relatórios, enquanto os hospitais continuam à espera

Ensaios clínicos crescem nos relatórios, enquanto os hospitais continuam à espera

João Conde questiona os resultados das estruturas criadas para dinamizar os ensaios clínicos em Portugal e defende que o investimento deve chegar às equipas que trabalham diretamente nos hospitais.

Portugal tem multiplicado plataformas, programas e iniciativas destinadas a acelerar a investigação clínica, embora João Conde considere difícil perceber quanto dessa atividade produziu mudanças concretas nos hospitais. Num artigo de opinião publicado no PÚBLICO, o investigador questiona quantos ensaios académicos multicêntricos foram efetivamente desbloqueados, quantos contratos passaram a ser celebrados mais depressa e quantos centros conseguiram equipas permanentes. Sem respostas mensuráveis, escreve, “o ecossistema torna-se o palco perfeito para uma comédia de enganos”.

Parte da crítica dirige-se às soluções digitais apresentadas como instrumentos de modernização. Portais que centralizam informação, guias, barómetros e programas de aceleração sucedem-se, sem que desapareçam obstáculos antigos à realização de ensaios. João Conde observa no PÚBLICO que os coordenadores continuam “a lutar com folhas de Excel bizarras porque o sistema inovador da consultora não comunica com o sistema informático jurássico do hospital”. Também os portais disponíveis são criticados por permitirem pesquisar ensaios ativos sem possibilitarem a inscrição direta de doentes pelos respetivos médicos.

Os números utilizados para demonstrar o crescimento da investigação clínica merecem igualmente reservas. O autor questiona como se sustentam aumentos anuais pouco superiores a 5% quando investigadores e promotores continuam a descrever processos demorados. A explicação estaria, em parte, na contabilização de submissões, alterações ou expansões como sinais de nova atividade. Um crescimento reduzido em números absolutos pode assim adquirir outra dimensão quando apresentado em percentagens. “Com uma base miserável, qualquer espirro estatístico parece uma revolução industrial”, escreve João Conde.

A alternativa proposta passa por deslocar recursos para quem executa os ensaios. Em vez de continuar a financiar aquilo que classifica como “ciência do PowerPoint”, João Conde defende carreiras estáveis para coordenadores de investigação, tempo protegido para os médicos investigarem e maior autonomia financeira dos serviços hospitalares. Considera igualmente necessário apoiar Contract Research Organizations competentes e Clinical Trial Offices capazes de acompanhar submissões, contratos, orçamentos, farmacovigilância, recrutamento e gestão de dados. São estas estruturas, conclui, que podem “transformar um protocolo num ensaio executável” e aproximar a investigação clínica dos doentes que dela poderão beneficiar.

Carlos Diogo Pereira
ET AL.
Com fotografia de Michael Schiffer.

Palavras-chave