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“Será mesmo necessário avaliar conhecimentos em áreas como estas para um curso de medicina? Tenho muitas dúvidas”

Esta semana, milhares de estudantes conheceram os resultados da da 1.ª fase do Concurso Nacional de Acesso (CNA). Em agosto, a ET AL. conversou com João Costa e Silva, responsável pelo Gabinete do Ensino Superior.

Mais de mil estudantes realizaram, em 2023, na Região Autónoma da Madeira, o exame nacional de Português ao Ensino Secundário, que é a prova que mais estudantes abarca por ser comum aos diferentes cursos deste nível de ensino. Terminado o Secundário, este jovens candidataram-se em agosto às vagas abertas nos cursos da UMa e de outras universidades e politécnicos nacionais, cujos resultados foram divulgados há poucos dias.

A orientá-los, desde a candidatura, está o Gabinete do Ensino Superior da Secretaria Regional de Educação, Ciência e Tecnologia e localizado no Palácio do Governo Regional, à avenida Zarco, cujo diretor é João Costa e Silva.

Num Ensino Superior internacional cada vez mais voltado para análise de perfil de candidatos às universidades – em que são ponderados currículos, cartas de apresentação e até entrevistas com candidatos – considera adequado o atual modelo português de Acesso, baseado fundamentalmente em médias do Ensino Secundário e nas classificações obtidas em algumas provas específicas?

Concordo que as classificações obtidas no ensino secundário possam determinar a entrada no ensino superior, mas nunca exclusivamente.

Em relação às provas de ingresso, acredito que sendo validadas através de exames nacionais não são a melhor solução. Repare-se no caso do curso de medicina, em que são fixadas provas onde são avaliados os conhecimentos dos estudantes em Matemática, Física e Geologia. Será mesmo necessário avaliar conhecimentos em áreas como estas para um curso de medicina? Tenho muitas dúvidas.

Por outro lado, parece-me que a aptidão e a vocação dos estudantes deveriam ser também avaliadas, através de provas de seleção ou entrevistas.

Quantos não são os estudantes que ingressam em determinados cursos do ensino superior, nos quais as classificações de entrada são elevadas, apenas porque conseguiram essas mesmas classificações e, mais tarde, acabam por desistir desses mesmos cursos, não por falta de capacidades, mas por falta de aptidão e gosto para os frequentar?

Apesar de não integrar a escolaridade obrigatória em Portugal, é inegável a vantagem do Ensino Superior para os jovens na procura do primeiro emprego e no desenvolvimento de uma carreira profissional. Neste ponto, como vê a desarmonia no acesso e na frequência deste nível de ensino face aos outros, perante os encargos financeiros imputados ao estudante, de que são exemplos as propinas cobradas, o transporte diário para as instituições de Ensino e o alojamento dos estudantes deslocados?

É obvio que para muitos cidadãos, a frequência do ensino superior, nomeadamente para aqueles que têm de se deslocar para longe da sua área de residência, constitui um enorme encargo económico e financeiro para as suas famílias.

Mesmo com acesso a vários apoios sociais, nomeadamente bolsas de estudo e residências universitárias, há estudantes que dificilmente conseguem suportar as despesas que decorrem da sua deslocação e instalação em cidades distantes das suas residências familiares. E essa dificuldade é ainda maior nos tempos de hoje, tendo em consideração os custos atuais do alojamento.

Uma solução pode e deve passar pelo aumento urgente da dotação orçamental das instituições de ensino superior, por forma a que os seus Serviços de Ação Social consigam criar condições para alojar mais estudantes em novas residências.

Em 2023, o Porto Canal indicou as Universidades de Lisboa e do Porto como as menores taxas de bolseiros do país (10,99% e 15,89%), sendo que a UMa detentora das mais elevadas (com 39,5%), como indicado pelo seu administrador, Ricardo Gonçalves, que indicou à RTP-Madeira em maio último. O novo contingente prioritário estabelece 2% das vagas das licenciaturas como reservadas a estudantes carenciados economicamente (1.º escalão do abono de família), já abaixo da taxa de bolseiros. Considerando a perda de poder económico das famílias portuguesas e o agravamento da situação dos estudantes, que importância tem este novo contingente especial?

Trata-se de uma medida através da qual se pretende promover e assegurar a entrada no ensino superior de estudantes provenientes de estratos socioeconómicos mais desfavorecidos, os quais, muitas vezes, não usufruem das mesmas condições de trabalho e de estudo que outros que, por usufruírem delas, conseguem obter classificações mais favoráveis ao acesso a este nível de ensino,

Desta forma, espera-se que este novo contingente prioritário possa contribuir para de alguma forma reduzir a sub-representação dos estudantes beneficiários da ação social escolar no ensino superior.

O calendário do Concurso de Acesso ao Ensino Superior pode ser consultado na página da Direção-Geral do Ensino Superior, onde também é possível realizar a candidatura para as restantes fases.

Na semana em que milhares de estudantes conheceram os resultados da 1.ª fase do CNA, a ET AL. preparou vários artigos sobre os temas mais importantes para os estudantes que ingressam nas Universidades e nos Politécnicos portugueses, com destaque para a Universidade da Madeira (UMa).

Entrevista conduzida por Carlos Diogo Pereira.
ET AL.
Com fotografia de Brett Jordan.

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