A ousadia em Toshio Matsumoto: Manifesto(s) LGBT+

Já dizia Gertrude Stein que “a única coisa que torna possível a identidade é a ausência de mudança, mas ninguém acredita de facto que se seja semelhante àquilo que se lembra”. Será, de facto, isto que acontece ao ser humano, quando se depara com a brutalidade da realidade? Quão interiormente estáveis seremos nós?

Certamente, na ótica de Toshio Matsumoto tais (des)ilusões são sentidas. Pelo menos é isso que faz transparecer na sua produção de 1969, Funeral das Rosas, quando através do personagem travesti, resolve desmitificar as inocências de um mundo em inconsciente mudança.

Trata-se de uma das duas sugestões desta semana do Screenings Funchal, numa parceria com os Cinemas NOS, e com o apoio da ACADÉMICA DA MADEIRA. Será exibido no sábado, 18 de junho. Os clientes NOS, portadores do seu cartão, se forem acompanhados, têm dois bilhetes pelo preço de 1. Se forem sozinhos, ao comprar um bilhete de cinema, têm a oferta de 1 menu pequeno de pipocas e bebida. Não há, portanto, desculpa para não aproveitar mais um momento de grande cinema que o Screenings Funchal proporciona.

Filmado numa mistura estilística e lúcida de preto e branco, e misturando estilos cinematográficos excentricamente vorazes, Funeral das Rosas é um dos muitos filmes de Matsumoto, que facilmente influencia toda a década de 60 e 70 do cinema internacional. A sua fragmentada e pesada narrativa, de temáticas explícitas, desde a nudez à violência, da droga ao erotismo, torna-a mais de quarenta anos depois, um fenómeno mistificado.

Toshia Matsumoto, foi um cineasta e artista visual, que apoiava os direitos LGBT+. É nessa base, que cria o ambiente de uma noite de Tóquio, na década de 1960, com personagens fora dos padrões sociais à época.

A partir daí, constrói-se uma estória em torno de Eddy, um jovem travesti que embarca num caso amoroso com um gerente de bar, após a morte da sua mãe. No entanto, é neste decorrer relacional que se forma um triângulo violento, ciumento, ainda que amoroso. O momento de viragem da narrativa acontece quando Eddy se confronta com memórias traumáticas que o levam à sua infância.

Num período temporal, que nos remete para o Japão no pós-Segunda Guerra Mundial, em que as influências externas culturais, como são os casos do rock, da pop art, dos Beatles e da geração hippie, tomam proporções extensas. Esta filosofia da celebração da juventude, das subculturas e contraculturas, dá base e consistência ao desenrolar do filme.

Nesta primeira longa-metragem de Toshia Matsumoto, há realmente um efeito de subversão e intoxicação para com o espetador, uma vez que manipula e distorce o tempo, para além de tornar a “obra” informal e exótica – confronta o género e a sexualidade, numa sociedade levitada pelo desastre.

Sinta-se também um membro destas manifestações assistindo ao filme. Mas antes, dê uma vista de olhos no trailer, e esteja a par das informações da longa-metragem aqui.

Luís Ferro
ET AL.

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