Gosto de bibliotecas

Sinto-me indissoluvelmente ligada a elas. A memória da primeira que frequentei desde a primeira infância quase supera afectivamente os outros dois espaços de vivência – a casa e a escola. Porque a ida à biblioteca era sempre acto festivo, fosse qual fosse a sua regularidade.

Não me recordo de outros leitores. Talvez me cruzasse com eles, mas nesse espaço apenas contavam os livros e o bibliotecário, por quem eu tinha um misto de respeito e receio, por nele ver o guardião e censor.

Havia três espécies de interditos: a inadequação à faixa etária do leitor, o tamanho exagerado do livro, e o calendário escolar. Mais entendível o primeiro, os dois outros eram motivo para o meu questionamento. Não podia a dimensão do livro interferir no número de exemplares requisitados, julgava eu, ao preencher o minúsculo formulário, salvo-conduto para a saída dos preciosos exemplares. Afinal havia dúvidas quanto à minha voracidade e velocidade de leitura? E ainda tinha que ouvir no acto de devolução a pergunta vexatória: “Leste tudo? Tenho dúvidas…”

Vencida a resistência quanto ao número de exemplares a requisitar, a minha estratégia era escolher livros volumosos para que demorasse mais a acabar a leitura, sobretudo quando se avizinhava o calendário proibido – e esse era o escolar. Se acontecesse de ser eu a distrair-me, como foi o caso uma vez, tentando abastecer-me de livros, na véspera do começo das aulas, lá estava atento o bibliotecário, a dizer não. É que ele seguia à risca as instruções da minha mãe e não se distraía com as datas. Era como se, afinal, a biblioteca tivesse um regulamento geral, o do seu funcionamento, e um outro específico adaptado às singularidades de alguns leitores.

Depois deste preâmbulo, as sugestões de leitura que vos faço só poderiam ter como tema as bibliotecas. Escolhi autores e géneros diversos, e por entre a talvez esperada ficção, tive que conferir um lugar especial à não-ficção de Alberto Manguel.

Alberto Manguel (Buenos Aires, 1948 – )

A Biblioteca à Noite. (2016). (Rita Almeida Simões, Trad.). Lisboa: Edições Tinta da China.

Título original: The Library at Night (2008)

“Um livro chama outro, inesperadamente, e cria alianças entre diferentes culturas e séculos. Uma frase semirecordada ecoa noutra por razões que, à luz do dia, permanecem obscuras. Se a biblioteca de manhã sugere um eco da severa e razoavelmente ilusória ordem do mundo, a biblioteca à noite parece rejubilar na essencial e alegre desordem do mundo.”

A Biblioteca de Manguel começa por ser a dele mesmo e a dos milhares de livros por desencaixotar, à espera do lugar que os albergará mas já com o destino certo, num espaço secular ao sul do Loire.

É esse o pretexto para uma deambulação do bibliófilo-leitor e daqueles que com ele viajam desde a biblioteca mítica de Alexandria às da contemporaneidade.

Pensar a biblioteca é acompanhar a sua criação, alcance e significado, é deter-se no livro e questionar a sua ordenação, o seu lugar no espaço, no tempo, nas emoções e afectos. Pensar a biblioteca passa também por nos posicionarmos face ao seu conteúdo e à sua identidade que é, muitas vezes, também, a de quem concebeu ou planeou a forma e o lugar, fez escolhas e exclusões.

Cada título de capítulo é uma promessa que não engana. Em cada um deles, como leit-motiv, achamos A Biblioteca: A Biblioteca como Mito;

Podemos começar a leitura por onde quisermos, indo de imediato ao capítulo cujo título nos parecer mais estimulante.
Acho que vou começar pela Biblioteca como Sobrevivência.
Foi a partir da leitura deste capítulo de Manguel que Antonio G. Iturbe pesquisou a matéria que ficcionalizaria em A Bibliotecária de Auschwitz.

Antonio G. Iturbe
Saragoça, (1967 -)

(Título original):
La biblioteca de Auschwitz (2012)

A Bibliotecária de Auschwitz. (2013). (Mário Dias Correia, Trad.) Lisboa: Planeta.

“Dita pega no livro com amor, acomoda as pregas soltas e ajeita as páginas tortas. Demora tanto quanto necessário … a bibliotecária passa os dedos pelas páginas para as alisar com o mesmo mimo com que uma mãe pentearia a filha.”

Auschwitz continua a ser lugar de inspiração fecunda para a criação romanesca, seduzindo leitores, movidos e comiserados por relatos que se avolumam enquanto memorial de atrocidades que o tempo não quererá esquecer, como forma de prevenir a repetibilidade.

A Bibliotecária de Auschwitz (Prémio Troa a Novelas com Valores, 2013) é uma história de sobrevivência pelos livros. No pavilhão 31, cenário da maior parte da narrativa, nasce uma improvável biblioteca. São oito livros, apenas, também eles sobreviventes de magros despojos de pertences clandestinos, tesouro incomensurável, de cuja guarda ficará incumbida a jovem Dita.

Além dos livros vivos, em que se metamorfoseiam alguns dos prisioneiros, chamando a si o reconto de leituras passadas que evocam, os prisioneiros do pavilhão poderão agora contar com Dita que terá que guardar e gerir, arriscando a própria vida, alguns poucos livros mutilados.

Os livros são perigosos. Permitem sonhar e aceder ao saber e são alimento esperançoso do porvir, mas estão vedados aos prisioneiros de Auschwitz.

Umberto Eco
Alexandria (1932 – 2016)

(Título original): Il Nome della Rosa (1980)

O Nome da Rosa. (1983). (Jorge Vaz de Carvalho, Trad.). Lisboa: Gradiva.

“Mas a construção labiríntica deste edifício nega uma verdadeira função da biblioteca, pois é elaborada para prevenir a disseminação do conhecimento, ao invés de facilitá-lo. “

Recuemos alguns séculos, até 1327, ano em que decorre O Nome da Rosa, tendo como pano de fundo as querelas político-religiosas sob o papado de João XXII.

E é ainda sob o signo da interdição que penetramos na maior biblioteca da cristandade, sita numa abadia beneditina, do norte de Itália. Uma biblioteca à qual só o bibliotecário pode aceder, ele, também, o único com autoridade para facultar ou não a leitura de determinados livros aos monges que trabalham no scriptorium.

Guillaume de Baskerville – que leitor não se lembrará de Sherlok Holmes? – acompanhado do secretário Adso, é chamado a desvendar uma série de mortes inexplicáveis na abadia.

Contra algumas das hipóteses que apontavam para a possibilidade de serem os hereges os presumíveis assassinos, a resolução do mistério pode, afinal, residir num livro e na sua leitura…

Agraciado com vários prémios literários, O Nome da Rosa converteu-se num best-seller, sendo, também, adaptado ao cinema.

Maria Teresa Nascimento
Docente da UMa

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