A mal-amada gramática

Para qualquer cidadão, a Gramática é vital, mas praticamente ninguém a ensina porque quase ninguém gosta dela. Porquê?

Há muitos anos que pergunto aos estudantes que vêm do Ensino Secundário se gostam de Gramática. Ninguém gosta! Nas centenas com quem tenho trabalhado, apenas tive um estudante que respondeu que apreciava, e muito. Quando procuro compreender as causas deste desamor, encontro-as, sobretudo, na “valorização da ignorância”. Para quê saber o que é um pronome, um artigo ou uma preposição? Não tem qualquer utilidade! Isso não é bem assim.

Classificar elementos linguísticos sem qualquer outra preocupação, como se tem feito no ensino, não tem interesse nenhum. Agora, perceber por que motivo se classificam permite entender quando se podem usar e este pormenor faz toda a diferença. Por exemplo, “a” é um elemento ou mais do que um? Será igual ou diferente nas seguintes frases: “Hoje, compro a (1) casa dos meus sonhos. Não a (2) posso decorar nestes dias porque continuarei a (3) viver no apartamento, enquanto a (4) obra não terminar.”? Nas quatro ocorrências, apenas a primeira e a quarta são iguais: artigos. Porém, a maioria dos estudantes vê artigos em todas. Por ser um pronome, (2) está em posição proclítica (antes do verbo) devido ao advérbio “Não”. Como preposição, (3) liga os verbos “continuarei” e “viver” numa unidade perifrástica ou locucional.

Na análise generativista em sintagmas (constituintes frásicos), bizarramente, as preposições são núcleos sintagmáticos. Logo, alguém perguntava se os artigos poderiam ser núcleos de sintagmas. Não, não podem. Os artigos determinam nomes (substantivos). A preposição não admite plural, enquanto (1), (2) e (4) aceitam essa alteração. Porquê estas diferenças? A explicação estará na História da Língua. A origem desses elementos é diversa: “a”, enquanto artigo ou pronome, provém de “illa(m) – ille, illa, illud” e a preposição tem origem na latina “ad”. Saber Etimologia ajuda a compreender a Gramática, para falar e escrever adequadamente. Será o mesmo com “piaçá” e “pechisbeque”? Por que razão se escrevem assim?

1. ……………………… é um género de vassoura para a limpeza da sanita.

Preencher o espaço com a forma certa: priasaba/ piasaba/ piassába/ piaçá.

Solução: “Piaçá” é um género de vassoura para a limpeza da sanita.

Explicação: As dificuldades de grafia devem-se ao facto de ser um termo tupi. Na fonética histórica (cf. Houaiss, 2001), ocorreram diversas possibilidades: “1644 priasaba, 1678 piasaba, 1858 piassába”. Fixou-se em “piaçá”, embora “piaçaba” seja uma alternativa. A origem está numa palmeira do Brasil (Attalea funifera) usada no utensílio.

2. Isso brilha como um ……………………… e vê-se, logo, que não é ouro.

Preencher o espaço com a forma certa: pechisbeque / pinchebeque/ pixisbeque/ pichisbeque.

Solução: Isso brilha como um pechisbeque e vê-se, logo, que não é ouro.

Explicação: O vocábulo tem origem no antropónimo Christopher Pinchbeck, que era um relojoeiro inglês. Inventou uma liga de cobre e zinco a imitar o ouro, ficando esta com o seu nome. Antes da grafia fixada, teve várias outras: “pichisbeque, pinchebeque e pixisbeque”.

Helena Rebelo
Docente da UMa

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