A Quinta do Monte

Pela mão de uma notável escritora, a casa assumiu, assim, a importância de uma personagem de romance – rara honra de que poucos monumentos do nosso património arquitectónico se podem orgulhar.

Da Quinta do Monte já só restam as paredes, calcinadas pelo desastroso incêndio que assolou a Madeira em Agosto de 2016. Também conhecida como Quinta Gordon, Cossart ou Rocha Machado, nela residiu e faleceu o Imperador Carlos da Áustria. A casa, que integrava uma propriedade de aproximadamente 6 hectares de jardins e mata, foi mandada construir por um próspero wine merchant, James David Webster Gordon, «conforme o plano dum arquitecto inglês», como refere Maria Lamas no Arquipélago da Madeira – Maravilha Atlântica. A construção teria tido início em 1826 sofrendo, ao longo do tempo, várias campanhas de obras, que não apagaram, todavia, o carácter erudito do seu traçado, como é possível constatar na bela gravura que dela fez Picken em 1840. Embora se desconheça o seu nome, a sofisticação do desenho de arquitectura faz supor, com efeito, que o projecto tenha sido concebido por um arquitecto: o encaixe da casa no terreno acidentado assumia um elevado grau de complexidade, sendo um bom exemplo do carácter mais informal que, em inícios do século XIX, a arquitectura das villas burguesas começava a manifestar.

Desdobrando-se em pisos e meios-pisos, fundindo-se com o jardim, a casa adaptava-se aos desníveis do lugar, garantindo sempre uma estreita proximidade física e visual dos compartimentos interiores com a envolvente. A relação de salas e quartos com o exterior, cuidadosamente ajardinado, era assegurada pelas chamadas «janelas à francesa», que proporcionavam aos moradores um contacto directo com o jardim. Era uma arquitectura que procurava responder às aspirações de uma classe social que, como escreveu um estudioso da casa inglesa, atingira um grau de sofisticação tal que lhe permitia dar-se ao luxo de pôr em causa os princípios da sua própria civilização, «regressando à natureza» – uma natureza edénica, disciplinada e afável que o jardim representava.

N’A Corte do Norte, Agustina Bessa-Luís, para descrever esta estreita relação que esta casa tecia com a sua envolvente, comparou-a a uma «flor desfolhada cuja forma se vai desmanchando […] uma grande rosa no chão, com as pétalas dos seus ovalados espaços projectados para fora como para recolher o jardim no ventre das salas». Mais adiante, referindo-se às suas «paredes em gomos» – as bow e bay windows que caracterizam muita da arquitectura que os ingleses deixaram na Madeira – compara-a à «forma de um pudim virada no meio do jardim». Pela mão de uma notável escritora, a casa assumiu, assim, a importância de uma personagem de romance – rara honra de que poucos monumentos do nosso património arquitectónico se podem orgulhar. Confrontadas com as palavras de Agustina, as paredes calcinadas da Quinta do Monte parecem hoje querer dar razão à célebre fórmula de Victor Hugo: «ceci tuera cela», a palavra escrita substituirá a arquitectura, uma forma de arte destronará a outra. Do esplendor da quinta de Webster Gordon nada restará, no futuro, senão o que sobre ela escreveu a escritora portuguesa? Esperemos que não.

Rui Campos Matos
Ordem dos Arquitectos – Secção Regional Sul (Delegação da Madeira)

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