Fuck you ability

“O que pretendemos neste espaço é destrinçar situações do quotidiano académico, e não só, que possam atentar, prejudicar ou cercear a nossa liberdade.”

A conferência Presente no Futuro, organizada pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, teve como tema central a liberdade e contou com uma emissão especial do programa Governo Sombra. Carlos Vaz Marques, habitual moderador da tríade de comentadores, anunciou o início do programa perante uma plateia aquém da grande capacidade do auditório: “Está reunido o Governo Sombra a partir do auditório repleto do Centro Cultural de Belém”. Pedro Mexia introduziu o título que roubaremos para esta coluna que pretendemos, até onde a nossa liberdade permitir, que seja assídua nesta revista.

“— O Pedro Mexia é um homem livre?

— A liberdade tem vários condicionantes, eu vou dar dois. Um deles tem a ver com o conceito semifilosófico… mais sociológico, cunhado pelo editor, o ex-editor, da revista Slate, que ele definiu a liberdade como a fuck you ability.

— Vamos traduzir?

— Não a fuck ability, que é conhecido o que isso quer dizer, mas a fuck you ability, ou seja, uma pessoa é livre quando pode, em português, mandar bugiar outra pessoa. Ora, a maioria das pessoas não pode mandar bugiar o patrão, etc. etc. Portanto, a liberdade tem algumas condicionantes da vida que a pessoa tem, da hierarquia, do estatuto…”

O que pretendemos neste espaço é destrinçar situações do quotidiano académico, e não só, que possam atentar, prejudicar ou cercear a nossa liberdade. Mas até onde cada um de nós, membros de pleno direito desta comunidade universitária, queremos ter liberdade ou nos preocupamos em pensar nela? Não estamos mais confortáveis a trabalhar sem que os nossos colegas notem a nossa passagem? Não será mais astuto utilizar canais anónimos para gritarmos e reclamarmos? Os meios virtuais não nos dão a amplitude necessária com o conforto da confidencialidade?

A quase bicentenária revista britânica Spectator, há poucas semanas, apresentou uma reportagem de capa sobre os estudantes robôs — Stepford students — que não parecem estar dispostos a discutir questões polémicas, preferindo a segurança e pacatez da sua zona de conforto.

“They look like students, dress like students, smell like students. But their student brains have been replaced by brains bereft of critical faculties and programmed to conform.”

Quando a América discutia as eleições intercalares, a revista The Economist questionava a razão pela qual os jovens não votam. O afastamento da juventude da política não é um caso exclusivo português. Nas eleições de 2010, apenas 21% — pasmem — dos jovens americanos, entre os 18 e os 24 anos, compareceram para votar. No Reino Unido a percentagem, nas últimas eleições gerais, foi de 44% dos jovens, contra 65% da população geral. A reportagem destacava:

“Today’s young people volunteer more than old people; they are much better educated; and they are less likely to drink excessively or use drugs than previous generations of youth.”

Então, porque não queremos discutir e nem queremos votar? De que adianta falarmos sobre a nossa capacidade de mandar bugiar se não estamos minimamente interessados em fazê-lo? Num dos vários locais que existem para exercermos a nossa liberdade de expressão, que é esta publicação, iremos lançar o caos que é sair da zona de conforto onde os jovens tanto gostam de estar. Incomoda discutir, chateia reclamar, é desconfortável dizer que não e é mais fácil abaixar a cabeça. Porque não acreditamos nisso? Porque vale a pena falar, discutir e até errar!

“The man who makes no mistakes does not usually make anything!”, já dizia o célebre William Magee. Antes que cheguemos aos números franceses, onde 22% dos jovens acreditam que os problemas da sociedade só se irão resolver com uma revolução — eram apenas 7% em 1990 — vamos promover a nossa fuck you ability. Ou será essa a nossa revolução?

Luís Eduardo Nicolau
ETAL.

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