Em Português Escorreito

Brasileiro, o Antônio é do Nordeste, onde vive. Residente no Funchal, o António é um açoriano do Nordeste. Sendo nordestinos, é puro engano pensar que são conterrâneos. Quando não sabemos, confundimos tudo. Não é o caso deles. O Antônio diz que o seu homônimo é “um cara super bacana, n’é”. O António repete que o amigo é “um gajo muito fixe, mesmo porreiro, pá”, mas não é seu homónimo. Se o fosse, o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990, que quis uniformizar a Ortografia (?), sem o conseguir, tinha resolvido a questão da dupla acentuação (acento circunflexo ^/acento agudo ´) e outras afins.

É uma confusão! Quem o leu sabe-o. O Antônio vai continuar a escrever e a dizer que tem “boas características”, que possui “muitos contatos em vários setores” e que “os fatos não são ternos”. O António, que não usa “ternos, mas fatos”, não sabe como escrever. É “características ou caraterísticas”, “contatos ou contactos”, “sectores ou setores”, “factos ou fatos”? O WORD aceita todas as possibilidades. Então, vai escrever como quiser. O tal acordo deu a autorização e permitiu que fosse “legal” em Portugal. No Brasil, ainda estão a decidir como fazer… É quase certo que nada mudará. Todos os acordos ortográficos provocaram alterações em Portugal e não foi assim no Brasil. A História repetir-se-á? Em 1990, houve políticos e linguistas que, desejando simplificar (?) para uniformizar (?), agravaram a situação ortográfica. Isso não atingiu a amizade do Antônio e do António. Não querem saber de questões políticas ou linguísticas porque, em Português, se entendem, não confundindo, por exemplo, “inúmero”/“enumero” ou “discrimino”/“descrimino”.

1.

…………………….. os elementos da lista porque o grupo de indivíduos parece
……………………..

Preencher os espaços com a forma certa: inúmero / enumero / inumero / enúmero.

Solução: Enumero os elementos da lista porque o grupo de indivíduos parece inúmero.
Explicação: Por que confundimos “inúmero” e “enumero”? São vocábulos, gráfica e fonicamente, próximos, mas diferentes porque “enumero” (conto vários elementos um a um) é uma forma do verbo “enumerar” e “inúmero” (difícil de contabilizar) é um adjectivo. A sílaba tónica não é coincidente. Na forma verbal do presente do indicativo, é “me” e, no adjectivo, o acento gráfico em “nú” indica-a. Embora os dois termos estejam relacionados com “número”, nunca se usarão no mesmo contexto. Raciocinando, é impossível confundir “inúmero” (=inumerável) e “enumero” (=contabilizo).

2.

Perante a acusação, ……………………… todos os indivíduos porque, pela
aparência, não os ……………………..

Preencher os espaços com a forma certa: discrimino / discremino / descrimino / descremino.

Solução: Perante a acusação, descrimino todos os indivíduos porque, pela
aparência, não os discrimino.
Explicação: Por que hesitamos entre “discrimino” e “descrimino”? É porque são palavras parónimas. Da área do Direito, o sentido de “descrimino” é restrito. Em contrapartida, “discrimino” tem uma significação mais ampla. Etimologicamente, os dois verbos remeterão para um latino, equivalendo a “crivar”. Todavia, divergiram dele. O verbo “descriminar” (=descriminalizar) aponta para “isentar do crime”, enquanto “discriminar” (=diferenciar) significa “distinguir, separando”. Este ganhou, inclusive, o sentido negativo de “segregar indivíduos”.

Helena Rebelo
Professora da UMa

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