Esfolar os joelhos ou ter calos nos dedos?
Entre brincadeiras dentro e fora de casa, como foi a tua infância? Ao falar com alguns dos estudantes da UMa, lançámos o desafio de nos responderem se preferiam esfolar os joelhos ou terem calos nos dedos, sendo os calos alusão ao uso de brinquedos tecnológicos desde pequenos. A maior parte dos estudantes teve uma infância passada a brincar em parques infantis e nos seus jardins. Poucos foram fechados em casa, por os pais os quererem proteger dos perigos da rua. Questionados sobre o acesso das crianças a tecnologias, quando comparada à sua própria infância, os entrevistados prontamente indicaram benefícios a ambos os tipos de educação. Brincar em jardins e em parques foi apontado como forma de estimular o sistema imunitário, de promover a actividade física e de desenvolver a criatividade, em contrapartida os brinquedos tecnológicos permitem maiores estimulação mental, aprendizagem e adaptação ao mundo tecnológico. No verso da medalha, apontaram como fonte dos malefícios, em ambos os casos, a desatenção dos pais. Se o único problema identificado na falta de vigilância nos jardins foi a criança poder magoar-se, a ausência de limitação paterna no uso da tecnologia foi tida como origem de dependência excessiva da tecnologia e o acesso não controlado à Internet como ponto de partida à exposição à violência, ao abuso sexual, entre outros. Para os estudantes da UMa os seus hábitos em criança influenciaram sua personalidade. Os que passaram a maior parte da infância em casa apontam-no como causa da dificuldade em se relacionarem com as pessoas, bem como de terem algumas dificuldades em se adaptarem socialmente ao mundo que os rodeia. Os que tiveram oportunidade de serem activos em pequenos, disseram que isso estimulou-os para a prática de uma actividade física, que os fez pessoas mais sociáveis e com espírito de aventura. Durante a discussão, surgiu várias vezes o tópico dos pais terem um papel fundamental no desenvolvimento da criança, visto que assumem a responsabilidade de garantirem que os filhos tenham acesso às novas tecnologias, mas também a momentos que estimulem a actividade física. Um dos problemas da sociedade moderna é a falta de tempo para a família, o que faz com que os pais acabem por tentar compensar a descendência com jogos virtuais e tempo dedicado à televisão, por exemplo. Isto reflete-se nos hábitos sedentários, que as crianças vão adquirindo e que influenciam a sua saúde, bem como a sua personalidade. No mundo globalizado em que vivemos, as pessoas encontram-se ligadas virtualmente, mas desligadas umas das outras no toque, no contacto presencial e, por vezes, na voz. Estes ficam esquecidos e perdem-se na utilização abusiva das tecnologias. Reconhecemos haverem jovens que façam das redes sociais as suas vidas e fiquem tão dependentes destas que deixam de estar, em parte, aptos a sobreviverem na realidade diária. Mas apesar de todas estas condicionantes a decisão é exclusiva de cada um, por isso põe-se a questão: E tu, preferes esfolar os joelhos ou ter calos nos dedos? Ester Caldeira Estudante da UMa
Mundial 2014, a emoção do futebol
Começou um novo ano e, com ele, novos projectos, desejos e sonhos. A nível desportivo, 2014 é marcado pelo Campeonato Mundial de Futebol a decorrer no Brasil, entre 12 de Junho e 13 de Julho. Enquanto os estudantes da Universidade da Madeira desfrutam do seu primeiro dia reservado a outras actividades antes da trabalhosa época de exames de recurso, a selecção portuguesa entra em campo pela primeira vez para fazer rolar a brasileira, ou seja, a brazuca. Nos últimos tempos muito temos ouvido falar da bola que será utilizada na competição. Nunca esta teve tanto destaque, ao ponto de ter uma conta própria no Facebook e no Twitter. Em Dezembro, a FIFA já a tinha enviado às 32 federações afiliadas para os jogadores se habituarem à nova bola. A alusão às famosas fitas de N.º Senhor do Bonfim, as cores e o design utilizados, bem como o facto de o nome ter sido escolhido por uma votação do público, fazem da brazuca uma bola muito comentada nas redes sociais. É, também, a bola mais testada de sempre, pois passou por cerca de 600 jogadores antes de ser oficialmente lançada. Em Portugal, a bola estreou-se na baliza do Marítimo em jogo que opôs a equipa insular à equipa dos estudantes, a Académica. Um pouco por todo o Mundo começa a ser falada esta grande competição que une nações dentro das 4 linhas do rectângulo de jogo. Estratégias, convocatórias, sorteios, organização, mascote, violência, pobreza, incentivos financeiros, manifestações várias e criadores de riqueza são temas recorrentes. As exigências e os caprichos são vários. A equipa nacional alemã, descontente com aquilo que encontrou no Brasil, decidiu construir de raiz um centro de estágio temporário. A austeridade também não entra no dicionário da FIFA. A organização anunciou que o montante a entregar em prémios às selecções só pela participação na competição aumentou em 37% relativamente ao Mundial 2010, totalizando esse valor em cerca de 7 milhões de euros/equipa. Contudo, os números que não devem aumentar dizem respeito ao número de pessoas que já perdeu a vida nas obras dos estádios que vão receber os jogos do Mundial. Em Dezembro eram 5 as famílias que choravam pelos seus familiares, pessoas que ninguém lembrará quando soar o primeiro apito a 13 de Junho de 2014. Andreia Nascimento Alumnus
Encontrar espaço
Há muito que se fala em modelo de desenvolvimento do Desporto Regional através do Plano Regional de Apoio ao Desporto (PRAD) que a Direcção Regional da Juventude e Desporto implementou. Após quase dois anos sobre a extinção do Instituto do Desporto da Região Autónoma da Madeira (IDRAM), a actividade desportiva na Região não mostra melhoras, quer financeira quer desportivamente. No que toca a dinheiros, a crise é resposta a tudo e portanto, estamos conversados. No plano desportivo, os vários quadros competitivos das diversas associações regionais de modalidades falam por si. A inércia de alguns agentes desportivos tem sido a nota dominante para a estagnação e diminuição de propostas válidas para o relançamento do desporto federado na região. Acredito que os obstáculos são muitos para que a reestruturação do modelo desportivo da região. Quebrar com o passado nunca é fácil, sobretudo quando se tem tudo e de repente, ficamos sem nada. Mas o caminho mais óbvio e simples será sempre esperar pelo desbloqueio de verbas estatais ou regionais para apresentar projectos de futuro. A luta intrínseca parece-me a batalha maior a vencer. Ideologias estereotipadas ainda ofuscam muitos pretendentes e amedrontam outros. A fixação por determinados objectivos são por vezes um travão para melhores projectos e ideias que pretendam revitalizar a actividade desportiva. Aliás, parece que o caminho escolhido pelos agentes desportivos madeirenses propicia dúvidas e desconfianças quanto ao seu verdadeiro papel na sociedade. É necessário outra visão e outra projecção num problema que é cada vez mais de todos os agentes desportivos. Felizmente, ainda existe quem queira “remar contra a maré” e quase “contra tudo e contra todos”, vai tentando implementar a sua filosofia. Aqui, a luta é muitas vezes contra esta sociedade capitalista em que tudo se transforma para gerar lucros e proveitos. Um compromisso que é levado ao extremo e onde as escolhas são feitas em detrimento de valores e princípios adquiridos. Este conflito de interesses cria barreiras difíceis de transpor e dificultam o sucesso desta luta entre “David e Golias”. A nossa história é escrita de actos e feitos que ninguém consegue apagar e as nossas intenções e pretensões acompanham cada momento em conformidade. Perante tal cenário, são poucos os que alcançam o sucesso e desenvolvem as suas actividades em prol de um Desporto mais “saudável”. O Desporto procura novamente o seu espaço numa comunidade madeirense cada vez mais resignada. A procura da vingança contra o sistema que nos levou ao estado actual da nossa sociedade, leva a crítica e o mal dizer ao extremo. O Desporto tem sido muito maltratado servindo de “bode expiatório” para justificar os erros de políticas irreais e insustentáveis do passado. O Desporto na Madeira ainda não encontrou o seu “habitat natural” e longe vão os tempos onde prosperavam artifícios do seu bem-estar. É tempo de definir o futuro. Arlindo Silva ACADÉMICA DA MADEIRA
Perder peso!
Após alguns deslizes alimentares, os inevitáveis quilos a mais surgem, e agora há que voltar à linha! Mas cuidado! Nesta altura, muitas promessas e milagres muito aliciadores emergem, e frequentemente não passam de pura ilusão. Algumas pessoas podem estar mais sensíveis, por isso é sempre bom alertar para não se deixarem levar por certas cantigas com claros interesses económicos…, sem qualquer preocupação pela saúde! O importante é perder peso de forma equilibrada e depois…, conseguir manter esse peso. Enfim, ganhar saúde! Não existem comprimidinhos milagrosos! A solução passa por adequar a sua alimentação e a sua atividade física. Lembre-se de que para perder peso não é necessário passar fome nem deixar de comer aquilo de que tanto gosta. O que é preciso é adequar a alimentação às necessidades de cada um, também em função da atividade física. Assim conseguimos ter grandes resultados e alcançar o nosso objetivo! O apoio de um especialista nesta área é extremamente importante, pois é ele quem elabora o melhor plano tendo em conta os seus hábitos alimentares. Sim, adequado a si! Cada caso é um caso! As dietas-padrão, iguais para toda a gente, quer sejam altos ou baixos, jovens ou seniores, sedentários ou desportistas, nunca podem estar adequadas. O alerta fica dado! Peso adequado sim…, mas de forma equilibrada e sem riscos para a saúde! Bruno Sousa Nutricionista
O orgasmo cerebral
As longas horas de trabalho no final de cada semestre para o cumprimento de prazos dão azo ao acumular de stress, com todos os efeitos negativos que ele acarreta para a saúde do estudante. Este padrão de vida frenético é comum a milhões de pessoas em todo o Mundo que têm de dar o melhor de si para assegurarem o seu trabalho. Tal estilo de vida leva as pessoas a procurarem formas de descontracção desde práticas de lazer mais tradicionais até às que a moderna tecnologia pode oferecer. O maior acesso à informação científica, especialmente nas áreas da saúde, levou a que houvesse um desenvolvimento de novas formas de relaxamento que passam apenas pelo uso dos sentidos e que têm proliferado pela Internet nos últimos dois anos. A Resposta Sensorial Autónoma do Meridiano (na sigla inglesa ASMR) é uma nova moda virtual de relaxamento por estimulação tida como um orgasmo cerebral. Pouco se sabe da origem do termo, havendo na Internet uma vaga referência a Jenn Allen, trabalhadora numa instituição hospitalar de Nova Iorque, que o terá criado para definir a resposta prazerosa do sistema nervoso a certos estímulos. A ela atribui-se a criação de uma instituição não oficial que se dedica ao estudo do fenómeno, mas ao que a equipa da revista JA pode apurar, tal instituição não possui qualquer alojamento ou referência directa na Internet, nem divulgou qualquer trabalho. O fenómeno, mesmo que não recusado pela ciência formal, também não o é reconhecido oficialmente. Sabe-se, contudo, numa visão científica freudiana, que um simples tique infantil (como mexer no cabelo por exemplo) pode ser fonte de prazer, mas tal não significa que o é para todos os indivíduos. Alheias à Ciência, dezenas de pessoas em todo o Mundo assumem como verdadeiro o facto do seu sistema nervoso reagir com prazer a determinados estímulos e que essa resposta pode ser generalizada, partilhando as suas experiências com outros tantos milhares que os seguem nas redes sociais e em blogues. De entre os exemplos mais comummente encontrados, sugere-se ouvir alguém sussurrar, falar suavemente ou com uma voz gutural, roçar uma superfície ligeiramente áspera (como papel, tecido ou ardósia), tocar superfícies macias, ouvir sons ritmados e suaves e praticar qualquer actividade em que se tenha atenção pessoal exclusiva. Ao longo de 2013, a plataforma YouTube alojou centenas de vídeos de estimulação da ASMR que contam com centenas de milhar de visualizações, e vários comentários de apoio e classificações positivas. Os proprietários dos vídeos lêem livros em voz baixa, rasgam e amachucam papel, mexem em tecido, fazem simulações sonoras de massagens, de lavagem de cabeça e de corte de cabelo, ou praticam quase todo o género de actividades para o público, falando para ele através de sussurros. O grau de exploração da ASMR no YouTube leva ao próprio extremo de estimulação de prazer baseada numa falsa intimidade, através da simulação de conversas íntimas, em que o realizador interpreta o papel de melhor amigo ou mesmo de companheiro amoroso do ouvinte. Carlos Diogo Pereira Alumni
De mochila às costas em Atenas
Poço de cultura e história, Atenas encanta-nos com todo o esplendor da sua antiguidade. Entre templos imaculadamente conservados e ruínas que nos fazem sonhar com a sua verdadeira forma, percebemos, à chegada, que a capital grega é um espaço moderno e único. Para os amantes de história, Atenas é um must que todos têm de visitar. Perdemo-nos pelos espaços, pelas ruelas, sentimo-nos parte daquilo que lê-mos nos livros de história. O momento alto da minha estadia foi sem dúvida a visita à Acrópole e ao seu museu. No museu conseguimos observar vários achados arqueológicos, como esculturas e utensílios utilizados há mais de dois mil anos pelos atenienses, mas também descobrir e digerir um pouco da história da grande elevação onde se situa a Acrópole. Depois de algumas horas perdidas no museu, apenas a alguns minutos de distância, podemos fazer a nossa subida ao monumento. Para além de termos uma vista única sobre a cidade, aqui temos acesso aos mais diversos templos da antiguidade, como o de Athena Nike e o Partenon, tal como os teatros de Dionísio e o de Herodes Ático. Imperdível. Já no centro da cidade as praças de Monastiraki, zona cheia de movimento com pequenas lojas e restaurantes típicos onde podemos provar o tão famoso Souvlaki (fast-food grego), e a de Syntagma, zona do parlamento grego e do Túmulo do Soldado Desconhecido (com a peculiar troca de guarda), enchem a cidade de movimento e fazem turistas perderem-se. Atenas não desilude. Fascina-nos e faz-nos querer voltar. Rúben Castro Alumnus da UMa
Co-adopção: filhos por amor
A co-adopção constitui-se, nos dias de hoje, como um factor de discussão dada a pluralidade destas realidades. Em Maio de 2013, a proposta do PS que defendia, precisamente, a co-adopção, foi aprovada, mesmo chumbadas as propostas do BE e d’ Os Verdes que sustentavam a possibilidade de adopção por casais do mesmo sexo. Este projecto-lei permitirá que casais homossexuais, com idades superiores a 25 anos, partilhem a responsabilidade parental, sendo que, tal facto poderá estar pendente da decisão do filho, caso o menor seja maior de 12 anos. Mesmo aprovada, para que esta proposta integre a realidade prática, tem de haver discussão na especialidade, votação final global e promulgação do Presidente da República, e a JSD já propôs a realização de um referendo sobre a co-adopção e a adopção por casais homossexuais, casados ou unidos de facto. Desde a aprovação da proposta socialista, em Maio do ano passado, muitas entidades têm-se pronunciado, abarcando distintos pontos de vista, neste que é, mediante activistas gays, um passo pequenino numa escadaria enorme. Luís Villas Boas, Psicólogo, Presidente do Grupo de Trabalho para a Agenda Criança e Director do Refúgio Aboim Ascensão, afirmou que a co-adopção é “uma inexistência legal que não pode acautelar o superior interesse da criança”, um facto “preocupante para o desenvolvimento” infantil. Isilda Pegado, pertencente à Federação Portuguesa pela Vida, defende que qualquer criança merece e tem o direito a ter um pai e uma mãe. D. Jorge Ortiga, Arcebispo de Braga, afiançou que a co-adopção não é uma prioridade do país e que se deviam “discernir os autênticos problemas da sociedade portuguesa”. Também o Padre Manuel Morujão, porta-voz da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) reiterou que apenas um casal formado por um homem e uma mulher tem, verdadeiramente, “a estrutura antropológica objectiva para a educação harmoniosa de uma criança”. Por outro lado, Pedro Vieira, Vice-Presidente da associação Não Te Prives, realçou que este é um “passo na protecção de centenas de crianças que existem em Portugal e não tinham legalmente as suas famílias reconhecidas”. Paulo Corte-Real, da Associação de Lésbicas, Gays e Transexuais de Portugal, revelou que esta aprovação era “particularmente urgente”, que se eleva como uma “vitória dos direitos humanos”. A Associação Novos Rumos – Homossexuais Católicos considera, igualmente, que este “é um passo importante no sentido de vir a alargar as famílias com capacidade de adopção aos casais do mesmo sexo. Finalmente, a Ordem dos Psicólogos Portugueses, num relatório entregue aos deputados, atesta que “os resultados das investigações psicológicas apoiam a possibilidade de co-adopção por parte de casais homossexuais, uma vez que não encontram diferenças relativamente ao impacto da orientação sexual no desenvolvimento da criança e nas competências parentais”. De acordo com o que Zambrano (2006) e muitos outros autores alegam, a verdade é que a parentalidade não é sinónimo de filiação e parentesco, pelo que pode ser exercida por indivíduos sem qualquer tipo de vínculo legal ou até mesmo de consanguinidade para com a criança. Independentemente de qualquer factor, uma boa parentalidade é a qualidade do relacionamento mantido com os filhos e a capacidade de cuidar, e não a sexualidade dos pais. Vera Duarte Alumnus
A origem das comemorações do Fim do Ano na Madeira
É senso comum que o espectáculo pirotécnico teria começado pelo ano de 1921, sendo promovido pelo Reids Palace Hotel, por iniciativa do seu dinâmico director, o italiano Luigi Gandolfo, que se manteve no cargo até 1939. Mas a verdade estará acima de todos os relatos, apesar da oralidade se aceitar como fonte histórica, que passam de geração em geração e deve ser a primordial preocupação de quem escreve sobre a História da Madeira. Por respeito aos nossos antepassados, aos protagonistas que são os madeirenses, não devemos propalar falsidades aos vindouros. Na verdade, A Festa faz parte da cultura madeirense e é o período do ano de intensa vivência harmoniosa, caracterizado pela unidade familiar e pela solidariedade, preocupada com as carências sociais. Mas é também, pelo consumismo, uma espécie de compensação das dificuldades sentidas ao longo do ano, num passado não muito distante. Infelizmente, essas dificuldades são idênticas às que hoje nos invadem e preocupam, dada a conjuntura que atravessamos. Pela ansiedade de encetar outro ciclo, após 12 meses de labutas, o povo madeirense agarrou-se à esperança de que o ano novo seria sempre melhor que o anterior e daí as manifestações culturais, onde se misturam o profano e o religioso, terem surgido como iniciativas espontâneas que, pela espectacularidade, se tornaram tradicionais. Estará, neste caso, a predilecção dos madeirenses em manifestar-se “estrondosamente”, com recurso à pirotecnia típica dos arraiais, como forma de assinalar o início, momentos solenes e o seu fim. As fontes históricas remetem-nos para as comemorações da canonização dos símbolos Jesuítas, Inácio de Loyola e Francisco Xavier, a 12 de maio de 1622, com recurso ao fogo-de-artifício, e a imprensa funchalense identifica o ano de 1866 como o início dos festivais pirotécnicos de 31 de Dezembro, no Funchal. Com o decorrer dos anos, a competitividade entre vizinhança levou ao empenho e esforço financeiro de vários sítios e famílias para serem notícia na imprensa funchalense. No ano de 1908, deu-se realce às exibições pirotécnicas da Quinta Mãe dos Homens, residência do Visconde do Cacongo, e Vila Alice, moradia de Silvestre Quintino de Freitas, no Alto da Pena. O Funchal, cidade cosmopolita e terceira do país, tinha a actividade turística consagrada e era reconhecida pelo epíteto de Pérola do Atlântico. Criaram-se os Casinos, para diversão dos Turistas, combatidos ferozmente pela mentalidade retrógrada do século XIX. Tudo o que se pretendia, em termos de desenvolvimento urbano, era o alindamento ou aformoseamento da cidade, com a indissociável construção do porto d’abrigo e da sua marginal, implementando serviços fundamentais, em especial, uma alfândega com capacidade de armazenamento, capaz de prestar serviço organizado e célere. Portanto, a preocupação de bem receber para atrair os estrangeiros, visitantes sazonais ou em trânsito, significava, no “dia de São Vapor”, movimento na cidade e consumo nas casas de bordados, de vinhos e comércio em geral, com a venda de artefactos, obra de vimes, embutidos de madeira, chapéus de palha e tartarugas embalsamadas e envernizadas. Por isso, é naturalmente que surge uma comemoração fantástica, a passagem do ano associada ao termo feérico, como se escrevia nos meados do século XX, a adjectivar o espectáculo pirotécnico. No segundo quartel desse século, especialmente na década de 1930, nota-se uma evolução. Com o apoio da imprensa local, um grupo de cidadãos organiza-se em Comissão Executiva das Festas da Cidade, no ano de 1932 e, quatro anos depois, foi criada a Delegação de Turismo da Madeira. Mas as raízes deste cartaz turístico encontram-se nos meados do século XIX, como se disse. Depois, é também com naturalidade que se associaram os transatlânticos e os navios de cruzeiro, dando fogo e apitando à farta. Hoje, são presença imprescindível, como ficou demonstrado pelos doze navios que trouxeram ao Funchal cerca de 20.000 passageiros no último dia do ano de 2013. O clima ameno também propicia, normalmente, um excelente espectáculo, contaminando os assistentes de entusiasmo e alegria. Para ilustrar este evento, recorro a um excerto do livro, Lágrimas correndo Mundo, do escritor madeirense Horácio Bento de Gouveia, que diz: “ (…) Quatro grandes paquetes iluminados em arco embelezavam a baía calma. Para se sentir a azáfama da respiração do mar, o ouvido devia concentrar-se e os olhos acompanharem o espreguiçamento soluçante das águas em desmaio, cingindo o cais, e apegando-se e despegando-se da cintura do litoral. (…) Borboleteiam penachos de lantejoulas em coruscações estranhas que depois se extinguem sob outra revoada relampagueante de matizes. Despetalizam-se corolas de flores de lumes ao mesmo tempo que explodem, acolá e mais distante, em toda a curvatura do relevo que envolve a cidade, centenas de girândolas que são novas corolas a desferirem sensações. Os automóveis apitam e os sinos das torres das igrejas tocam, despedindo-se do ano que não torna a ser vivido. Guardam os olhos a vista de irrealidade, alucinação que não mais se repete, da noite de São Silvestre, em que o céu do Funchal é uma das maravilhas do Mundo. (…) ” Temos mais um percurso de quatro trimestres em 2014 para vencer novas dificuldades, é o nosso Fado, mas garantimos aos visitantes a vitalidade da nossa cultura, a criatividade em eventos renascidos e outro feérico espectáculo no próximo 31 de Dezembro. José Luís Ferreira de Sousa ACADÉMICA DA MADEIRA
Em Português Escorreito
Um dicionário é uma autêntica caixa de Pandora! Quando se abre, nunca se sabe o que se vai encontrar. Contudo, em vez do caos, a ordem estabelecer-se-á porque há palavras para todos os gostos e feitios, em número suficiente para reordenar o mundo. Das mais pequenas às maiores, das mais antigas às mais recentes, consoante a idade do dicionário consultado, há-as para todas as ocasiões. A fim de tratar de qualquer assunto, temos, à escolha, um vasto conjunto de termos. Cada um aguarda pacientemente para ser usado e se tornar útil a qualquer falante. Desconhecemos metade (ou mais) dos vocábulos que existem na Língua Portuguesa e se encontram compilados nos dicionários. Isso sucede com qualquer idioma e não é específico do Português. Assim, muitos termos vão caindo em desuso, nas línguas vivas. Quem, sobretudo nas camadas mais jovens, conhece e emprega regularmente, por exemplo, “parcimónia” e “acrimónia”? 1- Vamos agir com …………….., poupando o mais possível. Preencher o espaço com a forma certa: parcimónia / parsimónia / parcerimónia / pracerimónia. Solução: Vamos agir com parcimónia, poupando o mais possível. Explicação: O substantivo feminino “parcimónia” vem do Latim, como acontece com grande parte do vocabulário português. Interligado com o adjectivo “parco”, o seu significado está, portanto, relacionado com o sentido de “sóbrio”. Consequentemente, compreende-se por que razão remete para “o hábito de fazer economias, isto é, poupar”. Em época de crise, o termo “parcimónia” deveria usar-se mais vezes, mas isso não acontece. 2- A …………….. daquela pessoa é impressionante. Nunca é afável! Preencher o espaço com a forma certa: acerimónia / acirimónia / acrimónia / acremónia. Solução: A acrimónia daquela pessoa é impressionante. Nunca é afável! Explicação: Tem origem no Latim, o substantivo feminino “acrimónia”, estando relacionado com o adjectivo “acre”, sinónimo de “azedo” e “amargo”. Deste sentido, foram surgindo outros, aplicados a várias situações. A nível figurado, aponta, por isso, para a noção de “comportamento indelicado”, “aspereza” e “severidade”. Possui, então, um forte cunho negativo, devendo evitar-se a “acrimónia” nos relacionamentos. Helena Rebelo Professora da UMa
Observar (pra) quê?
Com a difícil aprovação do Orçamento de Estado 2014, a equipa da Revista JA resolveu abordar uma das temáticas mais frágeis do OE 2013, a dos observatórios públicos. Os observatórios criados em Portugal fazem-nos pensar o quão ludibriados andamos. De onde vêm e quais os seus objectivos? A moda dos observatórios surgiu nos EUA, nos anos 90, com a finalidade de resolver os chamados “problemas difíceis”. Mas é do conhecimento comum que, actualmente, em Portugal, a informação veiculada por muitos observatórios raramente serve para apoiar a decisão política, e por diversas vezes é tratada como um modo pessoal de arrumar dados, contribuindo para um currículo bonito. Em 2009, na realização da sua tese de mestrado em Ciência Política, apresentada ao ISCSP-UTL, Patrícia Barbosa concluiu haverem cerca de 155 observatórios no nosso país. Referia a pretendente a Mestre que o Estado desconhecia quais estavam, de facto, activos e salientava que, além dos observatórios sem funções, outras organizações desempenhavam esse papel sem qualquer reconhecimento oficial. Seguindo a lei à risca, deveriam estas entidades serem contabilizadas como verdadeiros observatórios, somando o seu total ao dos que assim eram denominados. Em Abril último, o Jornal de Negócios publicou que o Ministério das Finanças, pelo gabinete do então Ministro Vítor Gaspar, reconhecia apenas o registo de três observatórios, dois na administração central e um no Governo Regional dos Açores. A mesma publicação mostrava que nada havia mudado desde que Patrícia Barbosa se havia tornado Mestre em Ciências Políticas, referindo exemplos de vários observatórios públicos ou que prestavam serviços ao Estado cuja acção não estava bem definida, nem a actividade conhecida da tutela. O MF defendeu-se salientando a obrigatoriedade da inventariação dos observatórios financiados pelo Estado determinada no OE 2013, e o próprio Jornal de Negócios iniciou essa lista com algumas das instituições que assistiam a outros ministérios. Se nem sempre há despesas em ordenados nesses organismos, os estudos a eles encomendados constituem sempre encargos financeiros aos contribuintes e existem observatórios ligados aos vários níveis da administração pública e, até, a dezenas de instituições públicas autónomas, como as universidades. A extinção de observatórios sem qualquer utilidade é complicada e difícil, pois a manutenção destes é justificada em estudos de fenómenos sociais que, pela sua natureza, são morosos. Se tal não bastasse, estes produzem conclusões sem interesse a decisores políticos que sucedem aos que encomendaram os estudos, ou então, esses mesmos estudos estão desactualizados sendo necessária nova investigação sem que hajam frutos proveitosos. Noutras ocasiões, a sua concepção baseia-se em funções duplicadas das de outras entidades, sobrepondo-se informação, atingindo-se resultados distintos e dificultando-se o combate aos problemas sociais, o seu principal objectivo. Serão estes casos meros reflexos de gestão pública defeituosa, ou os observatórios são tão merecedores de confiança? Natália Barbosa