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Helga Nowotny defende financiamento independente para a ciência e a defesa na Europa

Helga Nowotny defende financiamento independente para a ciência e a defesa na Europa

Uma das fundadoras do Conselho Europeu de Investigação alerta para os riscos de subordinar a investigação fundamental às prioridades militares.

A Europa prepara o próximo programa de financiamento da investigação, que vigorará entre 2028 e 2034, num contexto marcado pela pressão para aumentar a despesa militar. Helga Nowotny, socióloga austríaca de 89 anos, uma das fundadoras do Conselho Europeu de Investigação (ERC) e sua presidente entre 2010 e 2013, considera que as novas prioridades geopolíticas não devem comprometer o investimento na ciência fundamental. Em entrevista ao PÚBLICO, realizada em Bruxelas durante as comemorações dos 30 anos das Ações Marie Skłodowska-Curie, defendeu que a União Europeia precisa de encontrar mecanismos próprios para financiar a defesa, preservando a autonomia da investigação científica. A discussão ganha particular importância numa altura em que o futuro programa europeu, conhecido como FP10, continua a suscitar dúvidas quanto às verbas disponíveis e à orientação dos investimentos.

A antiga presidente do ERC reconhece que a guerra na Ucrânia alterou profundamente as necessidades de segurança europeias. O reforço da capacidade militar tornou-se uma prioridade, levando alguns países a adaptar parte da sua produção industrial ao setor do armamento. Nowotny considera legítima essa preocupação, embora rejeite a aproximação entre os fundos científicos e militares através do conceito de “dupla utilização”, que procura favorecer projetos com possíveis aplicações civis e de defesa. “Mas o meu apelo é mesmo o de separar o financiamento da defesa do financiamento da ciência”, declarou ao PÚBLICO. Para a investigadora, exigir aplicações militares à investigação fundamental contraria a própria natureza da descoberta científica, cujos resultados não podem ser antecipados. “Não se sabe o que se vai encontrar e, por vezes, surgem produtos muito úteis 20 anos depois. Urge uma separação clara: precisamos de defesa, mas precisamos de continuar a financiar a ciência fundamental”, acrescentou.

O financiamento dos programas europeus constitui outra preocupação. Instrumentos como as bolsas ERC e as Ações Marie Skłodowska-Curie continuam a atrair um número crescente de candidatos, sem que os respetivos orçamentos acompanhem essa evolução. Nowotny admite que a inteligência artificial poderá estar a contribuir para o aumento das candidaturas, ao facilitar a preparação dos documentos. “Há apenas estimativas, mas, no caso do ERC, talvez 30% das candidaturas sejam feitas com recurso à inteligência artificial”, afirmou, reconhecendo que ainda não existe uma resposta clara para esta situação. A socióloga aconselha os investigadores a ponderarem melhor o momento de apresentar os seus projetos. “Pensar antes de se candidatar. Estão preparados? A vossa ideia está suficientemente amadurecida? Ou será melhor esperar?”, questionou.

A importância do financiamento nacional foi igualmente destacada pela antiga responsável do ERC, que considera indispensável a existência de apoios capazes de preparar os investigadores para a competição internacional. “Sabemos da importância dos fundos nacionais, porque ninguém, ou quase ninguém, obtém uma bolsa do ERC sem ter tido antes financiamento nacional”, explicou ao PÚBLICO. Para Nowotny, a atribuição de uma bolsa europeia representa frequentemente o resultado de um percurso científico construído ao longo de vários anos, com financiamento anterior e experiência acumulada. A investigadora recorreu a uma comparação com o desporto para explicar a necessidade de investir nas primeiras etapas da carreira científica. “Precisamos muito destes fundos nacionais, porque é como no desporto: é preciso treinar os jovens e, se não o fizermos, nunca chegarão à Liga dos Campeões”, afirmou.

A relação entre a investigação e a indústria também esteve presente na entrevista. Nowotny considera que o investimento em tecnologias militares deve ser assumido em grande medida pelas empresas que desenvolvem e comercializam esses equipamentos, evitando que os programas destinados à ciência fundamental sejam utilizados para compensar as necessidades financeiras da defesa. A investigadora referiu o exemplo de empresas europeias que estão a desenvolver novos sistemas tecnológicos para utilização militar, incluindo dispositivos capazes de reunir informação proveniente de diferentes sensores. Questionada sobre a possibilidade de o financiamento científico ser prejudicado pelo aumento das despesas de defesa, respondeu que espera que isso não aconteça, recordando que a indústria tende a beneficiar economicamente dos períodos de conflito. “Por isso, diria que cabe à indústria fazê-lo [o investimento]”, declarou ao PÚBLICO.

A inteligência artificial ocupou a parte final da conversa, com Nowotny a manifestar preocupação perante a competição entre as grandes empresas tecnológicas. A socióloga rejeitou os discursos que apresentam a destruição da humanidade como um cenário provável, considerando essas previsões excessivas. “Não nos devemos preocupar com a ideia de que a humanidade vai ser dizimada com 10% ou 20% de probabilidade. Isso é um completo disparate. Um completo disparate”, afirmou. A sua preocupação concentra-se antes na rapidez com que as empresas desenvolvem e disponibilizam novas tecnologias, receando que a pressão concorrencial comprometa os procedimentos de segurança. “É preciso garantir que a segurança faz parte do produto final. Não se pode simplesmente avançar e deixar andar”, advertiu. Para a antiga presidente do ERC, o desafio europeu passa por responder às exigências tecnológicas contemporâneas sem comprometer a liberdade da investigação nem desvalorizar os riscos associados à inovação.

Carlos Diogo Pereira
ET AL.
Com fotografia de NIAI.

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